Politics

Uma entrevista com Lula. Parte 1

Primeira parte da entrevista da Brasil Wire com o Ex-presidente Lula da Silva.
Em janeiro de 2020, os editores da *Brasil Wire*, Daniel Hunt e Brian Mier, em parceria com Michael Brooks, apresentador do *Michael Brooks Show*, entrevistaram o Ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva na sede do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo.
Em janeiro de 2020, os editores da *Brasil Wire*, Daniel Hunt e Brian Mier, em parceria com Michael Brooks, apresentador do *Michael Brooks Show*, entrevistaram o Ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva na sede do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo.

A entrevista foi resultado de um processo de 6 meses que começou com a apresentação de um pedido na Justiça de Curitiba para entrevistá-lo enquanto ele ainda era prisioneiro político devido a um procedimento judicial ilegítimo que, conforme mostram mensagens vazadas de redes sociais e expostas por Glenn Greenwald, foi projetado para catapultar o neofascista Jair Bolsonaro para a presidência. Enquanto nos preparávamos para a entrevista, tomamos a decisão de não interrogá-lo sobre sua prisão, como a maioria dos entrevistadores fez recentemente. Ao invés disso, decidimos nos concentrar em questões relacionadas a seu legado histórico como líder sindical e Presidente, sobre o imperialismo estadunidense e sobre como derrotar o ressurgimento do fascismo no cenário mundial. A transcrição editada a seguir representa a Parte 1 da entrevista de 80 minutos. A Parte 2 foi lançada em 30 de janeiro. O vídeo foi gravado pelo cineasta de Democracia em Vertigem, Ricardo Stukert e pelo produtor do TeleSur Nacho Lemus e pode ser visto no canal Michael Brooks Show no Youtube, aqui.

Michael Brooks: Sr. Presidente, é uma honra estar aqui - é ótimo vir do Brooklyn para visitá-lo. Eu sou Michael Brooks, apresento o muito criativamente denominado Michael Brooks Show e estou aqui junto com Brian Mier e Daniel Hunt. Eles são co-editores da Brasil Wire e Daniel é o editor fundador. Também estamos aqui em parceria com a TeleSur e a Brasil 247. É realmente ótimo estar aqui e tem sido muito bom ajudar a fazer com que algumas pessoas na América do Norte conheçam o Brasil e suas lideranças. Eu quero começar por esse tema. Notícias recentes do Irã têm sido muito perturbadoras e muitos norte-americanos não sabem do seu papel em 2010, negociando um acordo de paz com o Irã e uma solução política semelhante à que Obama negociaria vários anos depois. Então, em duas partes: por que o Presidente Obama se afastou do acordo que você negociou? Hoje vemos que o Presidente Trump elevou o conflito. Ele rejeitou o acordo e assassinou Soleimani. Que papel o senhor vê que o Brasil e outros países do Sul desempenharam na construção da paz nas relações internacionais e como os Estados Unidos poderiam ser parceiros disso, ao invés de antagonistas?

Lula: Antes de mais nada, é importante olhar para aquele momento em que o Brasil, junto com a Turquia, fez um acordo com o Irã sobre enriquecimento de urânio. Foi um momento histórico diferente do qual o Brasil se encontra hoje. O Brasil era mais respeitado no mundo. O Brasil era quase um protagonista internacional porque tínhamos retirado a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) do debate e tínhamos fortalecido o MercoSul. Nós tínhamos criado a UnaSul, que era a União dos países da América do Sul. Tínhamos criado os BRICS (Bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), tínhamos criado o Fórum de Diálogo Brasil-Índia-África do Sul (IBAS), tínhamos criado uma união entre a África e a América do Sul, tínhamos criado uma união entre países do Oriente Médio e da América do Sul, tínhamos criado a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) que foi o único encontro internacional que incluiu Cuba, mas não incluiu os Estados Unidos e o Canadá. Tínhamos criado o Banco BRICS, e o Banco do Sul aqui na América do Sul. O Brasil estava se transformando em um protagonista e era um forte candidato a fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. Acreditávamos que o Brasil deveria ter se juntado ao Conselho, junto com a Índia, a Alemanha e o Japão. O que não levamos em conta foi a relação polêmica do Japão com a China - foi muito polêmica e muito forte. A China, que era tão favorável à expansão do Conselho de Segurança da ONU, não apoiou a nossa idéia. Mas tivemos apoio da Rússia, da França e do Reino Unido. Bush parecia muito favorável à idéia no início. Obama foi menos solidário. Quando nos propusemos a negociar com Ahmadinejad, foi historicamente importante porque estávamos nos Estados Unidos naquela época. Estávamos em uma reunião do G20, em Princeton. Eu tinha conversado com Ahmadinejad no hotel, mas neste momento eu não tinha uma relação amigável com ele. Então eu cheguei na reunião e perguntei a Obama se ele tinha falado com Ahmadinejad e ele disse que não. Perguntei a Angela Merkel e ela disse que não. Perguntei ao Gordon Brown e ele disse que não. Eu falei com Sarkozy e ele disse que não. O fato é que ninguém tinha falado com Ahmadinejad. Eu pensei, "como essas pessoas querem fazer um acordo sem uma conversa"? Porque a política internacional é realmente terceirizada, especialmente na Europa. Há funcionários que fazem as negociações e isso dificulta as coisas. Lembro que Hilary Clinton trabalhou duro contra a minha idéia de ir para o Irã. Ela até ligou para o Emir do Qatar e pediu que ele me convencesse a não ir. Quando cheguei em Moscou e me encontrei com Medvedev, descobri que Obama tinha ligado e pedido a ele que ajudasse a me convencer a não ir, porque eu seria enganado.

Michael: Por que eles estavam tão preocupados?

Lula: Obama não queria que eu fosse ao Irã, mas ele tinha escrito uma carta dizendo que se Ahmadinejad concordasse com tais e tais termos, ele ficaria feliz com isso. Então foi com essa carta que eu viajei para o Irã. Chegamos lá e depois de dois dias de conversas muito duras eu disse a Ahmadinejad que não voltaria ao Brasil sem a assinatura dele. Ele disse: "não pode ser apenas um acordo oral?".

Eu disse: "Não é suficiente, porque ninguém acredita em você lá". Eles dizem que os iranianos são mentirosos e não honram acordos. Então só vou embora com algo por escrito".

Então ele aceitou o nosso acordo. Fiquei surpreso porque imaginei que Obama ficaria feliz com o acordo, mas ele aumentou as sanções contra o Irã. Então descobrimos que Hilary Clinton não sabia da carta que Obama me enviou. Ela ficou brava quando Celso Amorim e eu lhe contamos sobre a carta. Então eu não tive outra opção senão publicar a carta de Obama para que as pessoas pudessem ver que não tínhamos feito nenhuma loucura. O acordo que fizemos foi mais preciso do que o que foi assinado mais tarde pela Europa e pelos Estados Unidos. Então foi uma situação muito desagradável e minha impressão foi que os países ricos - influenciados pelo pensamento do Departamento de Estado norte-americano - não aceitaram um novo protagonista na área. Na cabeça deles, o Brasil não era grande o suficiente para se envolver em uma questão daquela escala. Para mim, foi fácil falar com Ahmadinejad porque eu lhe disse que a única coisa que eu queria deles era o que nós temos no Brasil. Eu queria que ele tivesse os mesmos direitos que o Brasil. A Constituição brasileira apoia a não proliferação de armas nucleares, mas permite o enriquecimento de urânio para fins pacíficos - para a produção de medicamentos e coisas do gênero. Assim, ele e o presidente do Congresso do Irã concordaram. Eu voei do Irã para Madrid para uma reunião da União Europeia (UE) pensando que todos ficariam felizes porque eu tinha conseguido intermediar um acordo que eles não conseguiram fazer. Quando eu cheguei lá todos estavam contra. Todos estavam agindo como se o Brasil tivesse entrado em algo que ninguém tinha convidado - que o Brasil era uma personna non grata (pessoa indesejada) no cenário político internacional. Foi desagradável. Acho que enquanto houver apenas conversas entre o governo israelense e o governo americano não teremos paz no Oriente Médio, porque eles são os responsáveis pelos conflitos. Se você não colocar todas as pessoas que estão envolvidas na mesa e ouvir a todos, não vai fazer um acordo. De vez em quando eles dão um Prêmio Nobel a alguma autoridade americana ou israelense e a paz, que é o que o povo realmente quer, nunca chega.

Brian Mier: Presidente Lula, tem havido muito esforço para prejudicar o legado do PT internacionalmente. Eu vejo críticas vindas de pessoas auto-proclamadas esquerdistas da classe média sobre o histórico econômico do PT. O Brasil tem uma história de 500 anos de crescimento econômico e ciclos de recessão, mas há uma linha de pensamento circulando, em parte influenciada pelas idéias do [fundador e economista do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de centro-direita] Bresser-Perreira, que diz que o PT foi incapaz de se preparar para ciclos de recessão, e que seu modelo econômico só funcionou durante os períodos de crescimento. Então eu gostaria de perguntar o que o senhor fez para proteger com sucesso o Brasil da crise financeira mundial de 2008 e que medidas o governo tomou para se proteger contra futuros ciclos de recessão quando o senhor foi presidente?

Lula: É muito engraçado, Brian - essa teoria intelectual aqui no Brasil de que meu governo foi bem sucedido por causa do crescimento do agronegócio e que é por isso que as coisas funcionaram. Pense no seguinte: de 1950 a 1980, o Brasil foi uma das economias que mais cresceu no mundo. Em média, o Brasil cresceu 7% ao ano de 1950-1980 - são 30 anos de crescimento econômico. Por que não foram implementadas quaisquer políticas de redistribuição de renda? Por que não foram implantadas políticas de inclusão social? Por que o crescimento da economia brasileira não fez as pessoas crescerem junto com ela? Você sabe por quê, Brian? Porque o milagre do nosso governo não foi o crescimento das commodities - foi o crescimento da inclusão social.

Eu estava absolutamente certo de que os pobres não seriam um problema. Os pobres seriam a solução no sentido de que poderíamos incluí-los no orçamento federal e garantir que, se tivessem acesso a empregos e salários, sua renda e crédito os levariam a se tornar consumidores. Nunca houve, na face da terra - mesmo para aqueles que pensam que é plana - e na história da humanidade, um momento em que qualquer economia crescesse sem uma forte demanda interna ou externa. Conseguimos aumentar a demanda externa e a demanda interna. O comércio internacional brasileiro aumentou de US$ 117 bilhões para US$ 465 bilhões. O crédito interno brasileiro, disponível em bancos públicos e privados, subiu de R$ 360 bilhões para R$ 2,7 trilhões até 2010. Também geramos 22 milhões de empregos no setor formal, com carteiras de trabalho assinadas, com direito a férias e aposentadoria, e aumentamos o salário mínimo em 74%. Assim, a renda dos 20% mais pobres da população cresceu mais rapidamente que a dos 20% mais ricos. Foi a primeira vez em nossa história que isso aconteceu, e o Brasil foi o único país do mundo onde os pobres tiveram aumento de renda proporcionalmente maior que os ricos durante toda a crise do Lehman Brothers. Portanto, o crescimento das commodities não foi o milagre. O milagre foi a inclusão dos pobres. Era o milagre das políticas sociais. Porque não foi só o Bolsa Família e os salários mínimos mais altos que criamos - foi todo um conjunto de políticas públicas. Vou citar aqui uma estatística que talvez você não saiba. Nosso governo destinou 49 milhões de hectares de terra para a reforma agrária. Isso representa 50% do total de terras que foram redistribuídas para a reforma agrária durante toda a história anterior de 500 anos do Brasil. Em apenas 8 anos, nós fizemos metade de tudo o que foi feito em 500 anos no Brasil. Quando decidimos iniciar um programa chamado Luz para Todos - porque havia pessoas vivendo ao lado de usinas elétricas que não tinham energia elétrica em suas casas, apesar de os cabos de energia passarem por cima de suas casas - trouxemos eletricidade pela primeira vez para 15 milhões de pessoas, de graça. O Estado pagou por isso porque se o Estado não levar eletricidade para os pobres, os ricos não vão fazer isso. Os ricos só trazem eletricidade para as pessoas que podem pagar por ela. O PT tem a obrigação de garantir que os pobres possam acender uma luz e possuir uma geladeira, porque foi para isso que fomos criados em primeiro lugar. Nosso milagre foi olhar para os 54 milhões de pessoas que não tinham nada para comer. Foi olha para os milhões de pessoas que estavam desempregadas. Foi ver que o salário mínimo não permitia que as pessoas consumissem a quantidade de calorias e proteínas que precisavam. Por isso nasceu o PT - para resolver os problemas da sociedade. Esse foi o milagre. É importante lembrar que a economia cresceu 3,9% durante o primeiro ano de mandato da Dilma Rousseff e que cresceu mais de 2% em 2012. É importante lembrar que a recessão só começou a se aprofundar após as eleições de 2014, quando Eduardo Cunha, Michel Temer e o Congresso fizeram um pacto contra Dilma que a impediu de fazer qualquer uma das mudanças necessárias, como sua tentativa de aprovar uma lei que teria acabado com a evasão fiscal. O fato é que não basta ter dinheiro. O crescimento econômico não é suficiente. Você precisa decidir quem vai se beneficiar com esse dinheiro e com esse crescimento. Se você pegar US$ 1 bilhão e dar a um homem rico, ele o depositará em uma conta bancária e o usará para especulação. Mas se você pegar esse US$ 1 bilhão e dividi-lo entre 1 milhão de pessoas, dando a cada um US$ 100, você verá que esse dólar vai começar a funcionar. Ele vai circular e fazer os mercados funcionarem. As pessoas vão comprar comida, vão comprar sapatos e meias e a economia vai funcionar. Este foi o milagre do PT. É por isso que existe tanto ódio ao PT. O ódio contra o PT é porque, pela primeira vez nos 500 anos de história deste país, os pobres puderam viajar de avião. Durante meu governo o número de pessoas que viajaram de avião subiu de 43 milhões para 113 milhões - ou seja, 70 milhões a mais. Colocamos mais 60 milhões de pessoas no sistema financeiro. Instalamos 1,4 milhões de transformadores e quase 8 milhões de postes de luz com o programa Luz para Todos. E a quantidade de fios elétricos que usamos foi longa o suficiente para circundar a Terra 35 vezes. Quando as pessoas conseguiram eletricidade através do Luz para Todos, a classe média achou que eu estava favorecendo os pobres. Mas 89% das pessoas que recebiam eletricidade compravam TVs, geladeiras, liquidificadoras e ventiladores, então o fato é que as empresas multinacionais que fabricam esses produtos no Brasil e as pessoas que trabalham nas lojas, todas se beneficiaram com o Luz para Todos. Eles não entenderam a revolução que aconteceu neste país quando os pobres começam a ter acesso a alimentos, empregos e renda. O que os intelectuais brasileiros às vezes criticam e não entendem é que foram eles que governaram o Brasil desde que Cabral chegou aqui, em 1500. São eles que governam o Brasil desde a Proclamação da República, em 1889. Um trabalhador nunca governou este país. E foi durante o governo de um trabalhador que pudemos fazer esse milagre de colocar os pobres no orçamento. E é por isso, Brian, que existe tanto ódio. Porque eu sou o primeiro presidente brasileiro que nunca obteve um diploma universitário e sou o presidente que construiu o maior número de novas universidades da história desse país. Sou o presidente que construiu mais construiu escolas profissionalizantes da história desse país. E eu sou o Presidente que mais colocou estudantes nas universidades. Isso é imperdoável para eles. É imperdoável que os pobres possam começar a comer carne, possam começar a ir ao cinema e ao teatro, que os pobres possam começar a ocupar os aeroportos. As elites começaram dizendo: "meu Deus, o aeroporto está começando a parecer uma rodoviária - tem gente demais aqui". Porque estavam vazios antes disso. Portanto, as elites deveriam tentar encontrar um momento em que os pobres vivessem melhor do que viviam em nosso governo e nos governos do PT. Fazer uma análise histórica do Brasil e ver se houve um momento em que os pobres viveram tão bem quanto viveram em nossos governos. Para se ter uma idéia, pela primeira vez na história do país, 94% dos acordos sindicais foram feitos acima do nível da inflação. 94%! Então isso explica o sucesso. Foi o crescimento da renda nacional com dinheiro nos bolsos dos pobres.

Daniel Hunt: Sr. Presidente, tanto o governo Lula quanto o da Dilma foram alvos da espionagem americana, incluindo a infiltração de agentes da lei e da inteligência. Essas histórias parecem mais importantes agora do que pensávamos que fossem na época. Houve um grande escândalo de espionagem em seu primeiro mandato que forçou a embaixadora americana Donna Hrinak a pedir desculpas a você. Agora ela é chefe da Boeing América Latina, que acaba de comprar a Embraer, e assim grandes projetos como a produção e exportação de caças a jato modernos do Brasil estão em dúvida. Qual a sua opinião sobre a relação entre a espionagem norte-americana e a soberania tecnológica brasileira? O senhor acha que o Brasil foi devidamente defendido por seu próprio aparato de inteligência?

Lula: O Brasil sempre teve uma relação cordial com os Estados Unidos. Eu acho que a relação dos Estados Unidos com o Brasil é muito importante. Mas levamos 54 anos para saber que havia um porta-aviões americano em águas brasileiras em 1964 pronto para dar apoio aos oficiais militares que conduziram o golpe. Depois de 54 anos, pudemos até ver fotos e ouvir fitas de áudio do presidente Kennedy dando ordens ao embaixador dos EUA aqui no Brasil. Mas isso levou 54 anos. A espionagem americana contra o Brasil e outros países ao redor do mundo foi muito séria. O pior é que os EUA pediram desculpas à Alemanha, mas não pediram desculpas ao Brasil. Eu acho que o Brasil deveria ter ido mais longe para exigir um pedido de desculpas. O Brasil deveria ter procurado outras formas de comunicação para garantir autonomia e independência. Ninguém na ONU jamais autorizou os EUA a serem auditores ou xerifes do mundo. Quando descobrimos as reservas de petróleo no pré-sal aqui no Brasil, um contêiner marítimo foi roubado da Petrobras cheio de informações confidenciais. As multinacionais do petróleo nunca aceitaram a idéia de que o Brasil fosse dono de seu próprio petróleo. Nunca aceitaram a nossa lei declarando que o povo brasileiro era dono do seu petróleo, que não eram as corporações que possuíam o petróleo. A partir daquele momento, um movimento começou a desestabilizar o nosso país. Estou convencido de que os americanos nunca aceitaram o fato de termos feito um acordo com a França para construir navios movidos a energia nuclear. O companheiro Obama não ficou feliz quando decidimos fazer um acordo para comprar os jatos Rafale, e que a Dilma decidiu comprar os caças suecos. Ele não ficou contente com isso. Ele também não estava contente com um certo nível de independência que o Brasil tinha.

A China estava começando a ocupar espaço econômico e político na África e na América do Sul com investimentos e compras de empresas públicas, construindo estradas e pontes na África e acho que os americanos acordaram uma manhã e disseram: "espere um segundo, a América Latina é nossa e não vamos permitir que os chineses continuem adquirindo a América Latina". Depois, houve essa loucura grosseira contra a Venezuela. A idéia de que você reconheceria oficialmente um farsante, um congressista que se declarou Presidente da República - imagine se essa moda se espalhasse pelo mundo. O que eu acho medíocre é que países do mundo inteiro aprovaram isso e que esse cara poderia tentar cometer um golpe de Estado declarando-se presidente. Se você quer ser presidente, concorra às eleições, ganhe e assuma o cargo. Se Maduro tem problemas, ele é um problema para o povo venezuelano, para a Venezuela. Não é um problema para o povo americano, para os brasileiros ou para os chineses. É o povo da Venezuela que tem que se preocupar com Maduro. Eu defendo esse princípio para a Venezuela, eu o defendo para os Estados Unidos e eu o defendo para o Brasil. Portanto, hoje em dia eu tenho muito mais compreensão, Daniel…

Brian, vou te dar uma carta escrita por um grupo de congressistas americanos para o Procurador Geral da República, que ainda não foi respondida. Se você pudesse passá-la adiante [Lula entrega a Brian uma cópia da carta escrita pelo congressista Hank Johnson e assinada por 12 membros do Congresso americano ao Procurador-Geral William Barr exigindo respostas sobre o papel do Departamento de Justiça dos EUA na investigação da Lava Jato e na prisão política de Lula]. Porque os congressistas enviaram uma carta dando ao Procurador-Geral 30 dias para responder e ele ainda não respondeu. Então eu gostaria que você pudesse tentar falar com alguém ou se o Michael ou o Daniel pudessem ajudar a descobrir porque ele ainda não deu uma resposta.

Hoje sabemos que havia interesses claros do Departamento de Justiça dos EUA na Petrobras, na minha prisão e no fechamento de empresas brasileiras, especialmente no setor de construção civil. Hoje tudo isso está claro. É muito evidente que havia promotores americanos interessados na minha prisão. Há um vídeo na internet de um promotor público rindo da minha prisão [ed: Assistente da Procuradoria Geral dos EUA Kenneth Blanco]. Eu acho que o objetivo era mudar a lógica da Petrobras para que ela não fosse mais uma empresa brasileira, para que não pudesse mais pertencer ao povo brasileiro. A quem eles acham que esse petróleo deveria pertencer? Às multinacionais, e dentro dessas multinacionais os Estados Unidos. Eu li um livro chamado Petroleum. Ele conta a história do petróleo de 1859 em diante. A maior parte das grandes guerras que tivemos na face da terra desde então foram por causa do petróleo. A invasão do Iraque foi por causa do petróleo, a invasão da Líbia foi por causa do petróleo. A tentativa de invadir a Venezuela foi por causa do petróleo. A maioria dos conflitos no Oriente Médio é por causa do petróleo. Porque os países ricos não têm petróleo - exceto os americanos, que têm muito petróleo. Eles precisam ter uma reserva estratégica que foi criada após a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha perdeu porque ficou sem combustível - a Alemanha ficou sem gás e perdeu a guerra. Assim, todos os países ricos são obrigados a ter enormes reservas de gasolina e petróleo, e estão desmantelando a Petrobras. O Brasil, que planejava ser um exportador de derivados de petróleo, começou a importar diesel e gasolina dos Estados Unidos, apesar de sermos auto-suficientes em petróleo. Portanto, há coisas que não fazem sentido. E depois tem a venda da Embraer, que é muito ruim. Um país nunca será soberano se não gerar seu próprio conhecimento tecnológico e científico. A Embraer foi uma empresa chave para isso. A Embraer era uma empresa que não precisava depender da Boeing ou de ninguém para produzir aviões. Agora eles venderam a Embraer para a Boeing. A Embraer era a terceira maior empresa de aviação do mundo. Ela exportava mais do que a Bombardier. Era uma empresa que era muito respeitada. Agora eles estão tentando vender a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Eletrobrás. Em outras palavras, o Brasil está vendendo nossas empresas públicas para empresas públicas de outros países. Então eu acho que o Brasil precisa construir uma nova independência. O Brasil tem que ter uma boa relação científico-tecnológica, política e econômica com os Estados Unidos, mas tem que ser independente. Somos um país com 210 milhões de habitantes, 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 360 milhões de hectares de florestas tropicais totalmente preservadas. O Brasil não pode ser dependente, seja dos Estados Unidos, da China, da Índia ou da Rússia. O Brasil tem de depender da liberdade do seu povo, da educação do seu povo e dos empregos e salários do seu povo. Portanto, acho que o Brasil está vivendo seu pior momento da história. Nós temos um governo subserviente. Por muito tempo me recusei a participar de fóruns internacionais, para evitar que o Brasil ficasse amarrado. Mas agora o Brasil deu sua liberdade e sua independência e saúda um presidente americano. Francamente falando, acho que ninguém respeita as pessoas que não se respeitam. Ninguém respeita. O Brasil tem que voltar à grandeza. Para isso, precisa de líderes políticos que se respeitem, que gostem de democracia e que saibam que uma nação que faz fronteira com 10 países, que tem toda a costa da África Ocidental do outro lado de um corpo d’água chamado Atlântico, poderia estar mostrando muito mais solidariedade para com as nações mais pobres do que está agora, transferindo um pouco de tecnologia. Trouxemos a Embrapa para a África porque eu acreditava que a savana africana tem a mesma capacidade produtiva do Cerrado semi-árido brasileiro. Esse programa já não existe mais. Trouxemos uma fábrica para Moçambique para produzir medicamentos genéricos anti-retrovirais para combater a AIDS. Trouxemos a Universidade Aberta para Moçambique. Estendemos o programa Mais Alimentos, que desenvolvemos no Brasil para apoiar os pequenos agricultores, para a África e América Latina. Acabou. Então agora o Brasil é uma ilha, subordinada de forma vergonhosa aos interesses do Trump e pedindo favores a ele. O fato é que nenhum governo faz favores a outro governo. Temos políticas de Estado para as relações com outros Estados, que têm de ser respeitadas. Então é isso, meu querido. O Brasil não está respeitando a si mesmo. O Brasil regrediu ao estado de colônia.

Nota: No dia 25 de abril a Boeing anunciou que desistiu de comprar a divisão de jatos comerciais da Embraer alegando que a empresa brasileira não cumpriu “certas condições”.

Foto: Alexander Bonilla, Flickr

Available in
EnglishGermanPortuguese (Brazil)SpanishFrenchRussian
Authors
Brian Mier, Daniel Hunt and Michael Brooks
Translator
Dennis Pacheco
Date
11.05.2020
Source
Original article🔗

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