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Como Devemos Entender os Resultados das Eleições de 2020 em Taiwan?

Olhando para a reeleição do atual presidente Tsai Ing-wen e do Partido Democrático Progressista (DPP) em Taiwan.
Os resultados das eleições de 2020 levaram à reeleição do atual presidente Tsai Ing-wen e do Partido Democrático Progressista (DPP), mantendo sua maioria no legislativo. Como devemos analisar os resultados das eleições?
Os resultados das eleições de 2020 levaram à reeleição do atual presidente Tsai Ing-wen e do Partido Democrático Progressista (DPP), mantendo sua maioria no legislativo. Como devemos analisar os resultados das eleições?

Tsai ganhou por margens historicamente amplas, conquistando mais de oito milhões de votos. Em termos numéricos, essa é a maior vitória eleitoral de qualquer presidente de Taiwan desde que as eleições diretas começaram a ser realizadas em Taiwan, em 1996. Em contraste, Han Kuo-yu do Partido Nacionalista Chinês (KMT) obteve 5,5 milhões de votos, ou 39% dos votos, e James Soong do Partido Povo Primeiro (PFP) obteve 608.000 votos, cerca de 4% dos votos.

O DPP também manteve sua maioria no Legislativo de 113 assentos, detendo 61 deles. Em contrapartida, o KMT ganhou 38 assentos, enquanto o Partido do Povo de Taiwan (TPP) de Ko Wen-je ganhou 5 assentos, o Partido do Novo Poder (NPP) ganhou 3 assentos, e o Partido da Construção do Estado de Taiwan (TSP) ganhou 1 assento. Os cinco assentos restantes são ocupados por independentes, sem que nem o NPP nem o PFP tenham conquistado assentos.

A vitória eleitoral de Tsai não apenas dá ao DPP um mandato para continuar avançando sua plataforma política atual, mas funciona também como crítica à China.Observa-se que a participação dos eleitores foi alta, com 75% dos eleitores votando. Isto é quase 10% maior que a adesão dos eleitores em 2016.

A composição exata dos eleitores ainda não está clara. Há muito tempo havia preocupações de que a diminuição da participação dos jovens eleitores nos últimos anos resultaria em uma vitória do KMT, já que, apesar dos jovens se identificarem esmagadoramente como taiwaneses e não chineses, há pouco apoio do segmento ao KMT. Complementarmente, muitos desses jovens não votam. Por outro lado, pensou-se que o KMT teria sido capaz de mobilizar os mais velhos a votar, sendo sua participação significativamente maior em Taiwan. O DPP não só retomou as áreas do sul que havia perdido nas eleições de 2018, mas expandiu sua presença no norte de Taiwan, que é historicamente alinhado à coligação pan-azul, da qual o KMT faz parte.

Observa-se que o partido, na verdade, obteve mais votos presidenciais em relação a 2016. Eric Chu do KMT conquistou 3,8 milhões de votos em 2016, num cenário em que o KMT foi sido prejudicado por sua mudança tardia no candidato presidencial. O DPP perdeu assentos no Legislativo em relação a 2016, ano em que o partido ocupou 68 assentos, enquanto o KMT ganhou três assentos, comparado aos 35 de 2016.

Han Kuo-Yu (Centro-Esquerda) do KMT.

É bastante improvável que o KMT tenha sido completamente marginalizado como uma força política. Algumas transformações internas do KMT se deram no curto prazo, com arenúncia do presidente do partido, Wu Den-yih. Ainda não se sabe como será a próxima liderança do KMT. Como há o precedente de uma candidata presidencial fracassada acabar se tornando a presidente do partido, que aconteceu com Hung Hsiu-chu após sua candidatura presidencial ter sido abortada em 2016, não é impossível que Han se candidate a presidente do partido. Han já se candidatou à presidência do partido em 2017.

Pode ser que o KMT continue abraçando um estilo político populista, uma vez que isso pode ter impactado na mobilização de eleitores que de outra forma não teriam sido capitalizados pelo partido. Como em todas as últimas vezes em que o KMT experimentou uma derrota eleitoral, é provável que o partido seja alvo de contestações internas ao partido, entre forças que exigem recentralização da esfera local de atuação e reforma interna - como os membros mais jovens do partido têm feito - e as forças que exigem um retorno às origens do partido. Há indícios de que isso já começou a acontecer.

Entretanto, o desempenho de outros partidos e políticos independentes indica que estes vieram para ficar como fenômeno político em Taiwan.

Enquanto muitos pensavam que o NPP seria eliminado como partido político nas eleições deste ano, após divisões internas sobre apoiar ou não o Tsai Ing-wen levaremà saída de Freddy LimeHung Tzu-yung, o desempenho do NPP sugere que o partido ainda pode se afastar de seus quatro anos de conquistas políticas e da fidelidade com que o partido seguia a liderança do ex-presidente Huang Kuo-chang.

O futuro do partido é menos óbvio, uma vez que o mesmo não ganhou votos suficientes para Huang entrar no Legislativo. Apesar de Huang ser um ativo geral do partido pelos apoios que mobiliza, ao não ocupar nenhuma posição dentro do partido, ele poderia também tornar-se um monumento de sua fraqueza caso não fizesse parte da liderança - como ocorreu antes em relação à questão de apoiar ou não Tsai Ing-wen.

É provável que o TSP se esforce para se expandir drasticamente no futuro, já que agora tem um legislador eleito, Chen Bo-wei. Alinhado à expansão do TSP nos últimos anos, é provável que o partido apresente vários candidatos durante as eleições intercalares.

Apesar da perda de dois assentos pelo NPP, com a vitória eleitoral de Chen Bo-wei do TSP, bem como a conquista de uma vitória como independente por parte de Freddy Lim, ex-membro do NPP, somando-se ao fato de vários candidatos do DPP sendo candidatos jovens, as forças progressistas da coalizão pan-verde continuam em ascensão dentro do Legislativo.O grupo ‘Democracy Frontline’ de candidatos independentes, do DPP e do TSPprovavelmente continuará como uma aliança interpartidária no Legislativo, visto que três de seus cinco membros venceram suas candidaturas, embora a falta de membros do NPP no grupo possa se tornar uma questão cada vez mais incômoda.

Enquanto isso, o fator mais imprevisível no Legislativo, pode ser o TPP de Ko Wen-je, que agora é o terceiro maior partido político de Taiwan com cinco cadeiras, todas ganhas através de votação do partido. Isto torna o TPP comparável em tamanho à NPP de 2016. O TPP vai enfrentar uma pressão maior para esclarecer se é um partido político alinhado ao grupo pan-verde ou ao pan-azul, já que enquanto o TPP afirma estar além de tais distinções políticas, sua filiação inclina-se para o campo pan-azul.

Sendo um partido cuja orientação política é determinada pelo seu líder político, Ko Wen-je, a proximidade do TPP ao campo pan-azul também é aparente, devido ao fato de Ko só ter se aproximado de nomes proeminentes da coligação pan-azul, como Terry Gou, CEO da FoxConn, e Wang Jinpyng, ex porta voz da majoritária do KMT, sem se aproximar de modo semelhante ao grupo pan-verde.

Dada a centralidade de Ko no partido, seu futuro político torna-se viável na medida em que haja capacidade de tornar outros membros seus figuras públicas bem conhecidas. Nesta medida, ainda permanece uma questão em aberto se o TPP retirou mais votos do campo político pan-verde ou pan-azul, embora o partido tenha constituído um efeito saqueador suficiente para que isso determinasse o resultado de algumas candidaturas.

Cabe esperar para ver como a China reagirá à vitória eleitoral. Além de condenar as vitórias eleitorais de Tsai e do DPP, não é impossível que a China tome medidas para ameaçar Taiwan, como demonstração de força nos próximos dias. No entanto, é pouco provável que isso ocorra devido ao potencial deatrapalhar a Fase 1 das negociações comerciais entre os EUA e a China. O que já era um fator chave na derrota eleitoral do KMT nas eleições, levaria a um retrocesso adicional contra a China em Taiwan.

Prefeito de Taipei Ko Wen-Je (centro) e membros da TPP.

A confluência de forças políticas que entrarão no próximo ciclo eleitoral se tornará mais evidente com o tempo. O governo Tsai não deve tomar nenhuma ação repentina, mas continuar com seu programa político atual, gradualista, que visa expandir o espaço internacional de Taiwan. O sucesso disso ainda não está claro.

Brian Hioe foi um dos editores fundadores daNew Bloom. Ele é escritor freelancer de movimentos sociais e políticos, e tradutor ocasional. Nativo de Nova York e taiwanês-americano, tem mestrado em Línguas e Culturas do Leste Asiático pela Universidade de Columbia e graduou-se em História, Estudos do Leste Asiático e Literatura Inglesa pela Universidade de Nova York. Foi Bolsista de Serviço de Democracia e Direitos Humanos na Taiwan Foundation for Democracy de 2017 a 2018.

Foto: 蔡英文/Facebook

Available in
EnglishGermanRussianPortuguese (Brazil)SpanishFrench
Author
Brian Hioe
Translator
Dennis Pacheco
Date
11.05.2020
Source
Original article🔗

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