Social Justice

SOS Colômbia: massacres na pandemia

Na Colômbia, grupos paramilitares e seus aliados, desde aqueles na política parlamentar até as forças de segurança, estão cometendo um novo genocídio.
Durante o mês de agosto e no pior período da crise sanitária, sete massacres aconteceram no país em menos de duas semanas. Houve um a cada dois dias, visando principalmente as populações negras, indígenas e campesinas.
Durante o mês de agosto e no pior período da crise sanitária, sete massacres aconteceram no país em menos de duas semanas. Houve um a cada dois dias, visando principalmente as populações negras, indígenas e campesinas.

A história dos massacres civis na Colômbia data de muito tempo atrás e está muito bem documentada. Durante décadas, qualquer um no caminho da estratégia de ocupação territorial dos grupos paramilitares era sistematicamente exterminado. Houve também massacres causados pela guerrilha em sua disputa com os grupos paramilitares pelo controle territorial. O exército eliminou arbitrariamente parte da juventude no campo, como foi documentado nos massacres dos chamados ‘falsos positivos’, civis sem nenhum vínculo político, mortos pelo exército para aumentar o número de ‘guerrilheiros’ exterminados em supostos confrontos.

Outros massacres e assassinatos são mais recentes, ocorrendo após o processo de paz com as FARC. Nestes casos, a desmobilização da guerrilha não foi acompanhada de uma presença do Estado em seu território, o que permitiu o surgimento das chamadas autodefensas (grupos paramilitares financiados por proprietários de terras e traficantes de drogas) que estão assassinando sistematicamente ex-membros da guerrilha que depuseram suas armas e se integraram à vida política. Estes assassinatos específicos já mataram 200 ex-membros das FARC desde 2016 - a maioria deles durante o atual governo de Iván Duque - além de mais de 500 líderes sociais. Grupos paramilitares continuam a avançar em sua ocupação territorial e já têm presença em 90 por cento do país.

A aceleração dos massacres

Iván Duque, o candidato do Centro Democrático promovido por Uribe para reagrupar a tradicional direita, venceu as eleições presidenciais de 2018 que foram altamente disputadas pelo impulsionamento do principal candidato de esquerda, Gustavo Petro, do movimento Colômbia Humana. Petro venceu no primeiro turno, mas perdeu para a coalizão de direita na eleição final. Mesmo assim, a ascensão eleitoral da esquerda incentivou as ações dos esquadrões da morte que, após a ascensão de Duque, retomaram os massacres e reacenderam a disputa pelo controle territorial.

Gustavo Bolívar, escritor, senador interino e aliado político do Colômbia Humana (sem histórico de atividade guerrilheira) resume desta forma a escalada do terrorismo de Estado durante o governo de Iván Duque. Nos primeiros seis meses, ‘46 indígenas, 106 líderes sociais e mais de 50 ex-combatentes das FARC foram assassinados, e 29 massacres foram executados [...] Em 2019 houve 29 massacres [...] 66 indígenas também foram assassinados’. Em 2020, 128 líderes sociais foram assassinados e 43 massacres foram executados. ‘Até hoje, em 22 de agosto de 2020, desde que Ivan Duque tomou posse, 435 líderes sociais, 197 indígenas e 197 ex-combatentes das FARC foram assassinados. Houve 105 massacres’.

É de arrepiar. Não se deve perder isso de vista para entender o que está acontecendo agora, em meio à pandemia, quando todas as populações rurais estão confinadas por razões de saúde e os únicos que estão livres para se mover e fazer o que quiserem são os grupos armados irregulares..

O Ministro da Defesa, General Carlos Holmes, afirma que o principal inimigo da paz é o tráfico de drogas, que ele aponta como o culpado dos recentes massacres. Ele disse isso como se não houvesse relação entre os grupos paramilitares e os narcotraficantes. Após culpar, de modo geral, o narcotráfico, o General Holmes anunciou que, em resposta aos massacres, o Exército está pronto para retomar a pulverização aérea, com glifosato, sobre as plantações de coca. Esta é uma prática devastadora que começou em 2001 com o Plano Colômbia, mas foi interrompida em 2015 pelo governo de Santos diante de relatos de efeitos adversos pela OMS, que pediu sua suspensão. A ameaça da fumigação voltou agora com o governo Duque. Seu ministro da defesa sustenta que diante da multiplicação dos massacres ‘deve-se considerar a pulverização como uma questão de segurança nacional’. E ele esclarece: ‘Nas condições atuais, o reinício da pulverização aérea é absolutamente indispensável porque também terá um efeito positivo sobre esta questão dos homicídios coletivos que ultrajaram o país’.

Enquanto isso, as comunidades indígenas acreditam que o glifosato abre as portas para a guerra e a morte. Miladi Morales, do Conselho Indígena Regional do Cauca (CRIC), nos assegura que ‘a política antidrogas na Colômbia fracassou, e prova disso é a falta de implementação do ponto quatro do Acordo de Paz’. O que as fumigações fazem é aprofundar os problemas que já existem nos territórios.

Assim, a população pede ajuda ao governo diante dos massacres cometidos por criminosos conectados às forças armadas, e a solução oferecida pelo exército é sufocar a população campesina pelo ar, com glifosato envenenando suas terras e fontes de água, pondo em risco sua segurança alimentar.

Os antecedentes atuais da violência

O agora ex-senador Alvaro Uribe (que deixou o cargo em 18 de agosto) está no centro das atenções por causa da onda de massacres que sacode o país. Não é surpreendente que as suspeitas de seu envolvimento no avanço desses grupos de extermínio tenha aumentado. O descrédito em Uribe começou em 2014 durante um debate no Congresso quando o senador Iván Cepeda (do Pólo Democrático Alternativo) o acusou de ter criado, junto com seu irmão Santiago Uribe, um braço das Forças Unidas de Autodefesa da Colômbia (AUC), um dos grupos paramilitares mais temíveis. Uribe iniciou um processo contra o senador da oposição, acusando-o de ter comprado o testemunho de membros de grupos paramilitares que estavam na prisão. Mas em 2018 Cepeda foi absolvido, e o mesmo tribunal investigou o acusador depois que ficou claro que seu advogado havia comprado retratações de alguns dos paramilitares presos. A Suprema Corte abriu uma investigação formal contra Uribe por corrupção de testemunhas, suborno e fraude processual. Em 4 de agosto, ele foi colocado em prisão domiciliar, embora alojado confortavelmente em uma fazenda de 1.500 hectares que ele possui em Antioquia. A mensagem de Uribe para seus seguidores foi a de proclamar que o Supremo Tribunal de Justiça é agora um ‘aliado das FARC’. Como resultado deste incidente, os partidários de Uribe iniciaram uma campanha para alterar a Constituição colombiana a fim de controlar ainda mais o judiciário.

Ao mesmo tempo, a situação política, de saúde e segurança na Colômbia está se tornando mais complicada a cada dia. Aproveitando o momento em que as comunidades estão na defensiva por causa da COVID-19, e a ausência do Estado é maior do que de costume, grupos paramilitares e de extermínio estão intensificando os massacres de forma devastadora. Na segunda-feira, 10 de agosto, duas crianças foram mortas pelos paramilitares das Autodefensas Gaitanistas (Forças de Autodefesa Gaitanistas) enquanto transitavam por rurais de Nariño para ir à escola. Na terça-feira, 11 de agosto, cinco crianças negras foram encontradas com as gargantas cortadas na periferia de Cali, em Valle del Cauca, uma das regiões mais castigadas por grupos de extermínio. De acordo com o testemunho de alguns familiares, os assassinos tiveram a cumplicidade da polícia. Alguns dias depois, em 15 de agosto, nove jovens universitários foram mortos a tiros em Nariño após terem sido identificados durante uma reunião na área externa de uma casa. Dois dias depois, três jovens Awá foram assassinados em Ricaurte: seis jovens foram torturados e mortos em Tambo (Cauca), mais cinco morreram na área rural de Arauca, e mais seis jovens foram mortos em Tumaco (Nariño). Mais de 30 pessoas foram mortas em chacinas em menos de duas semanas, e estes são os dados mais confiáveis, aos quais muitos outros relatos de desaparecimentos podem ser inclusos.

O governo de Iván Duque responsabiliza, de forma geral, o tráfico de drogas por estas chacinas e insiste em não se referir a eles como 'massacres', mas sim como 'homicídios coletivos'. Esta é a extensão do cinismo deles. Esta é a expressão usada nas comunicados oficiais.

Muitos colombianos suspeitam que esta terrível sucessão de massacres começou imediatamente após o ex-presidente Álvaro Uribe ter sido colocado em prisão domiciliar num dos muitos casos em que está sendo processado por suas ligações com grupos paramilitares, crimes contra a humanidade e tráfico de drogas, entre outras acusações. Iván Duque sempre foi complacente com seu mentor e agora está indignado com a decisão da Suprema Corte.

Enquanto isso, o governo colombiano mantém sua rejeição a qualquer pacto que favoreça a paz. Em resposta ao pedido das Nações Unidas de cessar todas as hostilidades durante a pandemia, o ELN emitiu um comunicado em 7 de julho propondo um cessar-fogo bilateral de 90 dias. O governo de Iván Duque rejeitou esta proposta através de uma mensagem no Twitter.

A Naturalização do Extermínio Social

Durante o mês de agosto e do pior período da crise sanitária, sete chacinas aconteceram no país em menos de duas semanas. Houve um a cada dois dias, tendo como alvo principal as populações negras, indígenas e campesinas. Alberto Yepes, coordenador do Observatório de Direitos Humanos, diz que não há vontade do governo de desmantelar as infraestruturas paramilitares. Pelo contrário, ele observa que ‘em todo o país, organizações sociais e comunidades estão denunciando a cumplicidade que existe entre agentes do Estado e paramilitares.’

Os massacres têm um impacto particularmente sério sobre a população indígena. Entre os mais afetados pela violência estão os membros da comunidade Awá em Nariño. O Diario del Sur informa (em sua edição de 20 de agosto) que 14 membros deste grupo étnico foram mortos durante a pandemia da COVID-19. O jornal documentou os homicídios e relatou outras tentativas de assassinato contra outros líderes Awá, incluindo um ex-governador.

A Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC) registrou até 1.200 violações dos direitos humanos contra o povo Awá em Nariño: "Nos dois anos de mandato do Presidente Duque, observamos com extrema preocupação como grupos ilegalmente armados aumentarama barbárie contra as comunidades locais, especialmente contra povos indígenas. A ONIC advertiu que estes eventos ocorrem em meio a um conflito envolvendo ‘quinze grupos à margem da lei’, incluindo as Autodefesas Gaitanistas d Colombia (Grupos de Autodefesa Gaitanista da Colômbia), os E-30 Franco Benavides, Los Nuevos Delincuentes (os Novos Delinquentes), La Gente del Nuevo Orden (o Povo da Nova Ordem), Los Contadores (os Contadores) e os dissidentes das FARC e ELN, todos eles grupos que disputam território e controle sobre as lavouras.

No início de julho, Dario Monsalve, Arcebispo de Cali, fez uma avaliação política que provocou contral ele uma reação de ira por parte da hierarquia católica. Entre outras coisas, ele afirmou: ‘Desde o início da campanha eleitoral, um espírito de vingança foi sentido contra o governo de Santos, que deu origem a estes processos [de paz], um espírito de vingança contra as pessoas que os acompanharam, e, mais seriamente, uma vingança contra os mesmos ex-combatentes ou ex-guerrilheiros das FARC que se refugiaram durante o processo. Uma vingança genocida para dividir completamente a sociedade, as organizações sociais e a democracia no campo e nos territórios onde, dependendo de sua opinião, as organizações subversivas tiveram ou têm influência’.

Dario Monsalve não é um político profissional nem um analista, mas ele entende a sociedade colombiana profundamente: ‘Desde os tempos de Pablo Escobar, a mentalidade de 'limpeza social' persiste na Colômbia, ou o que tenho chamado de ‘genocídio geracional’ dos grupos mais pobres’. ‘A sociedade acha que não há saída para os jovens que adotam esta vida em tribos ou gangues urbanas e que devem ser eliminados pelos ‘esquadrões da morte’, pois a única coisa que resta é matá-los ou transformá-los em assassinatos ligados à questão ambiental ou mortes com significado para a sociedade’. Ele abala a consciência dos colombianos ao insinuar que por trás do apoio dado a Uribe e Duque nas urnas está o ovo da serpente da complacência com os massacres: ‘O país tem uma consciência de assassinatos que na verdade são um genocídio’, assegura ele.

A Espanha e a Europa diante do genocídio

Quando (uma parte da) sociedade colombiana consente e às vezes incentiva ‘assassinatos ligados à questão ambiental’, poucas mudanças de curto prazo podem ser esperadas na construção da paz. Mas o mundo não pode ficar inerte diante dessas atrocidades. Os massacres devem ser impedidos através de pressão externa.

Em toda a Europa, mas principalmente na Espanha, tem havido um doloroso apagão de informações sobre os massacres na Colômbia, algo que, por outro lado, não é novo. A imprensa parece não saber do assunto. Não deveria ser o caso, pois importantes grupos de comunicação espanhóis controlam grandes veículos de comunicação na Colômbia e, portanto, têm acesso direto a estas notícias. A influência das empresas espanholas nos veículos da mídia colombiana com maior audiência, como no caso do grupo PRISA na rede Caracol, ou do grupo Planeta no jornal El Tiempo, sugere que a informação/desinformação oferecida por esses meios de comunicação passam sempre pela peneira dos interesses das grandes empresas espanholas que os controlam. Há, no entanto, indiferença absoluta para o que está acontecendo na Colômbia nos jornais, rádios e televisões espanholas, cuja única cobertura exterior nos últimos dias foram os protestos da oposição na Bielorússia e o suposto envenenamento de um político russo. O mundo se retringe ao umbigo da Europa, que por razões de conveniência política agora se estende até sua fronteira oriental.

Os massacres também são invisíveis para as autoridades da política externa europeia, sempre tão hostis em relação aos direitos humanos na vizinha Venezuela e tão incansáveis em apresentar a Colômbia como um modelo de democracia.

Em 25 de junho, mais de 40 organizações sociais - líderes indígenas, negros, campesinos e ex-combatentes - iniciaram uma Marcha pela Dignidade, de Popayán, capital de Cauca, e outras regiões fortemente atingidas por chacinas e assassinatos seletivos, que convergiram para Bogotá em 10 de julho. Os manifestantes abraçaram as exigências da Greve Nacional Cívica de novembro de 2019 e clamaram por justiça, gritando ‘Eles estão nos matando’. Durante sua jornada, foram assediados por forças estatais e pediram ‘assistência, suporte e proteção das organizações internacionais’ em suas reivindicações ao Estado colombiano, para que ‘tornem visíveis as violações dos direitos humanos e levantem sua voz contra eles’.

Na Colômbia, grupos paramilitares e seus aliados na política e nas forças de segurança estão cometendo um novo genocídio. #SOSColombia é um dos muitos assuntos que apelam às redes sociais para repudiar os massacres e exigir justiça. Não se trata da ‘indenização’ que o governo oferece para varrer os corpos para debaixo do tapete. As comunidades que estão sob ataque exigem justiça e reparação, recuperação do território e uma nova cultura de paz. É vital levantarmos nossas vozes para defender estes direitos universais mesmo de fora.

Notas

  1. Quando este artigo foi para publicação, novos massacres, assassinatos e sequestros haviam sido noticiados: em 23 de agosto, três jovens foram massacrados em Veneza, Antioquia. Em 24 de agosto, o governador de Arauca denunciou o sequestro de dois jovens advogados, que foram interceptados por vários indivíduos fortemente armados. Em 25 de agosto, três homens foram assassinados em uma área rural de Abrego, Norte de Santander. No dia 26 de agosto, a líder social Rita Bayona, de Santa Marta, foi assassinada.

Foto: ASOCIACIÓN NOMADESC / TWITTER

Ajude-nos a construir a Agencia

A Agência é a única rede mundial de publicações progressistas e perspectivas de base.

Em apenas 4 meses, a Agência disseminou mais de 35 artigos de publicações progressistas importantes ao redor do mundo, traduzindo cada um para pelo menos seis idiomas - trazendo a luta dos indígenas da Amazônia, palestinos em Gaza, feministas no Senegal, e muito mais para uma audiência global.

Com mais de 150 tradutores e uma crescente equipe editorial, nós confiamos em nossos colaboradores para continuar espalhando estas histórias da luta de base e para sermos a agência de notícias das forças progressistas do mundo.

Nos ajude a construir essa missão. Doe para a Agência.

Support
Available in
EnglishSpanishFrenchGermanPortuguese (Portugal)Portuguese (Brazil)
Author
Eduardo Giordano
Translators
Graciela Kunrath Lima and Luis Zapatta
Date
04.09.2020

More in Social Justice

Social Justice

Azmanova & Galbraith: Disaster Capitalism or the Green New Deal

Receive the Progressive International briefing
Privacy PolicyManage Cookies
Site and identity: Common Knowledge & Robbie Blundell