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Cuidadores: a sindicalização como defesa contra a COVID-19

A pandemia da COVID-19 tem tido um impacto devastador nas casas de repouso. Trabalhadores(as) do setor e os que recebem cuidados estão pagando o preço da expansão de um modelo baseado no lucro.
Os sindicatos desempenham um papel fundamental neste momento, para elevar os padrões de atendimento e, durante a crise da COVID-19, alguns já estão fazendo progressos.
Os sindicatos desempenham um papel fundamental neste momento, para elevar os padrões de atendimento e, durante a crise da COVID-19, alguns já estão fazendo progressos.

Condições de trabalho precárias, estratégias de financiamento problemáticas, falta de pessoal e baixos salários. A lista de reclamações e deficiências estruturais no setor é longa e esmagadora - e em tempos de COVID-19, os problemas foram ampliados pelos trágicos impactos causados pela mais devastadora crise de saúde em um século.

No auge da pandemia, trabalhadores(as) e familiares testemunharam, em primeira mão, como o vírus mortal varreu casas de repouso, matando residentes e infectando cuidadores(as) a taxas sem precedentes. Aqueles que estão na linha de frente estão com o coração partido, frustrados e exaustos porque sabem que, com as ferramentas e apoio adequados, muitas vidas poderiam ter sido salvas - especialmente porque sabemos que quando os cuidadores têm poder institucional e capacidade de decisão (através dos sindicatos) mais vidas podem ser salvas.

O último estudo sobre o assunto, realizado durante a primavera , em Nova York (março a junho), deixa claro: pesquisadores(as) descobriram que as casas de repouso com funcionários sindicalizados tinham uma taxa de mortalidade 30% menor do que aqueles com funcionários não sindicalizados. Casas de repouso com presença sindical tendem a ter mais trabalhadores(as), com melhor treinamento e maior remuneração. Os sindicatos também exigem mais acesso aos equipamentos de proteção e protocolos mais rigorosos para a prevenção de infecções. E sabemos há muito tempo que mais funcionários significam maior qualidade no atendimento aos residentes e um ambiente de trabalho mais positivo, que acaba reduzindo o nível de stress, a estabilidade no emprego, e custos menores a longo prazo.

Todos os dias somos lembrados(as) que a pandemia está longe de acabar e que as casas de repouso são mais vulneráveis ao vírus. Estima-se que metade das mortes por COVID-19 na Inglaterra ocorreu em lares de idosos. Uma situação semelhante ocorreu na Suíça e na Bélgica, onde dois terços das mortes por coronavírus, entre meados de março e maio, foram de residentes das casas de repouso. Este padrão desastroso persiste em toda a Europa e nos países da OCDE. Sem ação imediata, o sistema de casas de repouso continuará sendo um barril de pólvora, despreparado para uma segunda onda da COVID-19, e quaisquer outros surtos futuros.

Para que haja melhor preparo para a inevitável segunda onda, precisaremos colocar as vidas em primeiro lugar no trabalho dos cuidadores, protegê-los(as) e estabelecer novos padrões em todo o setor.

A quantidade de trabalhadores, em muitos países, não é suficiente para um atendimento de qualidade - especialmente durante uma pandemia, onde se exige mais atenção e cuidados específicos Além de medidas sanitárias mais rigorosas, os(as) trabalhadores(as) precisam dedicar mais tempo ao cuidado dos residentes,observando mudanças nas condições de saúde, e também oferecer o suporte emocional que muitos necessitam, além de mais atenção às mudanças de comportamento, resultado de doenças como a demência. Uma avaliação dessa pandemia mostra que, quanto maior o número de trabalhadores(as), menores são os riscos de infecção. Nos Estados Unidos, descobertas similares foram publicadas: instalações com mais funcionários têm menos casos de COVID.

A crise de recursos humanos no setor já fervia mesmo antes da pandemia transborda-la. O crescimento de um modelo baseado no lucro para o setor resultou numa pressão maior para manter os custos - funcionários - baixos e, agora, tanto os(as) trabalhadores(as) como os recebem os cuidados pagam o preço com a deterioração da infra-estrutura e dos resultados.

Cerca de 90% dos(as) trabalhadores(as) são mulheres, e a força de trabalho também é composta por um alto número de imigrantes e pessoas de cor. Elas têm sido desvalorizadas e subestimadas por décadas, incluindo o seu salário.

O salário médio por hora para trabalhadores(as) do setor, em onze países da OCDE, era de nove euros por hora - 35 por cento menos do que intensivistas fazendo o mesmo trabalho. Além disso, ao contrário dos(as) intensivistas, os(as) trabalhadores(as) de retaguarda - especialmente os que trabalham na casa do cliente - têm horários intermitentes e contratos sem carga horária mínima de remuneração. O trabalho em meio período (não integral) é quase duas vezes mais comum para trabalhadores(as) de casas de repouso, em relação aos intensivistas.

A alta taxa de mortalidade nas casas de repouso e hospitais de retaguarda não pode ser separada da precariedade nas condições de trabalho. Atualmente, os(as) trabalhadores(as) de retaguarda têm que improvisar juntando horas de trabalho de diferentes lugares, o que significa que podem estar carregando o vírus, sem intenção, de um lugar para outro. Salários justos e contratos de regime integral significariam menos exposição entre um local e outro. Apesar desta realidade, os trabalhadores(as) têm reagido, e temos visto ganhos reais durante a pandemia, como com os sindicalizados do SEIUCare Workersem Illinois, que viram maiores salários-base, o que trouxe todos os trabalhadores para um salário acima de quinze dólares por hora.

Para garantir que os(as) trabalhadores(as) recebam um aumento de salário muito necessário, horários regulares, e mais contratações, será necessário não apenas investimento mas também apoiar o nosso sistema desgastado, vai valer a pena.

É necessário mais investimento por parte do governo para que se façam as melhorias necessárias. Infelizmente, nenhum dos pacotes emergenciais da Uniāo Européia e dos Estados Unidos destinou financiamento direto para o setor. Essa é uma das razões pelas quais os sindicatos desempenham papel fundamental neste momento, elevando os padrões de trabalho. Durante a crise da COVID-19, alguns já estão fazendo progressos. Na Áustria, como parte de um novo acordo coletivo negociado pelos sindicatos GPA-DJP e Vida, os trabalhadores da linha de frente estão recebendo um bônus de 500 euros. Da mesma forma, no País de Gales, espera-se que os(as) trabalhadores(as) recebam um bônus de 500 libras graças ao apoio dos sindicatos britânicos - como o GMB.

Em tempos de incerteza como os que estamos vivendo uma coisa é certa: seja você o cuidador ou aquele que recebe o cuidado, todos nós queremos combater a COVID-19 e retomar nossas vidas. Mas, para colocar a saúde e a segurança em primeiro lugar - e enterrar de vez o vírus - precisaremos de mais negociações coletivas e sindicatos neste setor. É assim que construímos um escudo contra a COVID-19.

Christy Hoffman é Secretária Geral na UNI Global Union.

Foto: Needpix

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Available in
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Author
Christy Hoffman
Translators
Luis Zapatta and Mariana Martins Almeida
Date
01.10.2020

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