Social Justice

Jeremy Corbyn: A Crise do Custo de Vida Exige que Democratizemos a Economia

No Reino Unido, os preços dos produtos básicos estão subindo enquanto as corporações obtêm lucros cada vez maiores. A solução, argumenta Jeremy Corbyn, é transformar recursos básicos, como energia, água, ferrovias e correios, em propriedade pública democrática.
Transformar energia, água, ferrovias e correios em propriedade pública democrática é dar à população local o poder de agir sobre os recursos que ela utiliza. Trata-se de garantir que esses recursos sejam produzidos de forma sustentável e distribuídos universalmente no interesse dos trabalhadores, das comunidades e do planeta.
Transformar energia, água, ferrovias e correios em propriedade pública democrática é dar à população local o poder de agir sobre os recursos que ela utiliza. Trata-se de garantir que esses recursos sejam produzidos de forma sustentável e distribuídos universalmente no interesse dos trabalhadores, das comunidades e do planeta.

Na quinta-feira, 15 de dezembro, o Royal College of Nursing entrou em greve pela primeira vez em seus 106 anos de história. Com falta de pessoal, mal pagos e sobrecarregados, dezenas de milhares de profissionais de enfermagem do Serviço Nacional de Saúde (NHS) interromperam suas atividades depois de verem negados seus pedidos de aumento salarial decente. Aclamados como heróis em um ano, forçados a recorrer aos bancos de alimentos no ano seguinte, os salários da enfermagem caíram mais de £3.000 em termos reais desde 2010; três em cada quatro profissionais dizem que agora  trabalham horas extras para conseguir pagar as contas de energia em aumento.

As pessoas irão recordar  2022 como o ano em que o Partido Conservador mergulhou o Reino Unido na turbulência política. No entanto, por trás do melodrama há uma crise do custo de vida que empurrou pessoas desesperadas para a miséria, e as chamadas classes médias à beira do abismo. Devemos lembrar 2022 como o ano em que a pobreza infantil relativa atingiu seus níveis mais altos desde 2007 e o crescimento real dos salários atingiu os níveis mais baixos em meio século. (A renda média encolheu £80 por mês, e impressionantes £180 por mês entre funcionários do setor público.) Esses são os verdadeiros escândalos.

Para alguns parlamentares, este foi o ano em que iniciaram suas carreiras em reality shows. Para outros, foi o ano em que disseram aos filhos que não podiam comprar nenhum presente de Natal. Para as empresas de energia, foi o ano em que riram a caminho do banco; no mesmo tempo que Rishi Sunak levou para perder e depois vencer a disputa pela liderança, a Shell obteve £8,2 bilhões de lucro. A SSE, empresa multinacional de energia com sede na Escócia, viu seus lucros triplicarem em apenas um ano. Os lucros das sete maiores empresas petrolíferas do mundo chegaram a quase £ 150 bilhões.

Enfrentar a crise do custo de vida significa oferecer uma alternativa ao nosso modelo econômico existente – um modelo que capacita empresas irresponsáveis a lucrar com a miséria dos consumidores e com a destruição da nossa terra. E isso significa defender um valor, uma doutrina e uma tradição que nos une a todos: a democracia.

O Partido Trabalhista anunciou recentemente “a maior transferência de poder de Westminster para o povo britânico”. Eu dei boas-vindas à renovação de muitas das políticas do manifesto em 2019: abolir a Câmara dos Lordes e entregar poderes a governos descentralizados, autoridades locais e prefeitos. Esses planos devem funcionar em conjunto, para garantir que as segundas câmaras reflitam a diversidade geográfica do país. Se implementado, isso descentralizaria um modelo de governança centrado em Whitehall que desperdiça muito do talento, energia e criatividade regionais deste país.

No entanto, a delegação, a descentralização de poder e a democracia não são apenas assuntos da constituição. Elas deveriam caracterizar a nossa economia também. Os governos regionais estão exigindo maiores poderes pela mesma razão que uma segunda câmara não eleita é patentemente obscura: queremos ter voz nas coisas que afetam as nossas vidas cotidianas. Isso, certamente, inclui a maneira como os nossos recursos básicos são produzidos e distribuídos.

Da energia à água e das ferrovias aos correios, um pequeno número de empresas monopoliza a produção de recursos básicos em detrimento dos trabalhadores que elas exploram e dos clientes que elas espoliam. Nós dependemos desses serviços e os trabalhadores os mantêm funcionando, mas são os diretores executivos remotos e os acionistas irresponsáveis que decidem como eles são administrados e lucram com o seu  fornecimento. Não seria mais lógico se os trabalhadores e consumidores decidissem como administrar os serviços que eles fornecem e consomem?

Com a disparada dos preços e dos lucros, é hora de colocar recursos básicos como energia, água, ferrovias e correios de volta aonde eles pertencem: nas mãos do público. Crucialmente, esse molde de propriedade pública não seria um retorno aos conselhos nomeados por patrões, no estilo dos anos 1940, mas uma restauração da responsabilidade cívica. A água, por exemplo, deve estar nas mãos de uma entidade regional controlada por consumidores, trabalhadores e autoridades locais, trabalhando em estreita colaboração com as agências ambientais na conservação da água, descargas de esgoto, preservação das costas e proteção do nosso mundo natural. Esse corpo democrático responderia ao público, e somente ao público, e não aos distantes dividendos de fundos tipo hedge.

Trazer energia, água, ferrovias e correios para a propriedade pública democrática é dar à população local o poder de agir sobre os recursos que ela utiliza. Trata-se de garantir que esses recursos sejam produzidos de forma sustentável e distribuídos universalmente, no interesse dos trabalhadores, das comunidades e do planeta.

Além dos principais serviços públicos, toda uma série de serviços e recursos requer investimento, investimento que as comunidades locais devem controlar. É por isso que, em 2019, nos comprometemos a estabelecer bancos de investimento regionais em todo o país, administrados localmente pelas partes interessadas, que podem decidir – coletivamente – a melhor forma de direcionar o investimento público. Aqueles que buscassem esse investimento não se pautariam pelo lucro particular que pudessem obter, mas pelo quanto poderiam beneficiar o público como um todo.

Para democratizar a nossa economia precisamos democratizar também os locais de trabalho. Podemos acabar com as hierarquias no local de trabalho e as desigualdades salariais, dando aos trabalhadores o direito de decidir, juntos, como sua equipe opera e como suas estruturas de pagamento são organizadas. Se quisermos iniciar uma transferência em massa do poder, precisamos redistribuir a riqueza daqueles que a acumulam para aqueles que a criam.

A população local conhece os problemas que enfrenta e sabe como enfrentá-los melhor do que ninguém. Se quisermos praticar o que pregamos, os mesmos princípios de democracia, delegação e descentralização também devem ser aplicados aos nossos próprios partidos. Os membros locais do partido, não os líderes partidários, devem escolher seus candidatos, criar políticas e decidir o que seu movimento defende.

Somente um partido democrático pode fornecer o espaço necessário para soluções criativas e transformadoras para as crises que todos enfrentamos. Em um mundo onde a divisão entre ricos e pobres é maior do que nunca, nosso objetivo deve ser unir o país em torno de uma alternativa mais esperançosa – uma alternativa que reconheça como todos dependemos uns dos outros para sobreviver e prosperar.

Essa alternativa não é um ideal abstrato a ser imaginado. É a alternativa pela qual os trabalhadores lutam nos piquetes. Mesmo antes de os trabalhadores da enfermagem entrarem em greve, 2022 foi um ano recorde nas ações industriais. Os trabalhadores em greve não estão apenas lutando por salários, por mais essenciais que sejam essas reivindicações. Eles estão lutando por uma sociedade sem pobreza, fome e desigualdade. Eles estão lutando por um futuro que coloque os interesses da comunidade à frente da ganância das empresas de energia. Eles estão lutando por todos nós.

A sua luta coletiva nos ensina que a democracia existe – ela prospera – fora de Westminster. O governo está fazendo o possível para transformar trabalhadores dedicados dos correios e ferroviários em inimigos do público em geral - um público em geral que, aparentemente, também exclui funcionários de universidades, motoristas de ônibus, advogados, carregadores de bagagem, funcionários públicos, motoristas de ambulância, bombeiros e trabalhadores de organizações sem fins lucrativos. Como mostra a enorme escala da ação industrial, os trabalhadores em greve são o público em geral. O ano de 2022 ficará para a história não como o ano em que os conservadores chamaram o público de tolo, mas como o ano em que o público reagiu. Unidos aos milhares, eles estão enviando uma mensagem clara: a democracia é assim.

Jeremy Corbyn é membro do Parlamento do Reino Unido pelo Partido Trabalhista, como representante de Islington North.

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Available in
EnglishPortuguese (Brazil)Spanish
Author
Jeremy Corbyn
Translators
Graciela Kunrath Lima and Cristina Cavalcanti
Date
17.01.2023

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