Briefing

Newsletter da Internacional Progressista | No.  26 | A Fortaleza Europa

Da Mauritânia à Líbia, a Europa externaliza suas fronteiras: financiando a detenção, a vigilância e a violência armada contra pessoas em movimento—o que dá ainda mais força à extrema-direita em seu próprio território.
Na 26ª Newsletter da Internacional Progressista de 2026, além de outras notícias do mundo, nós nos baseamos em recentes investigações da Internacional Reacionária para mapear a "Fortaleza Europa": um regime de delimitação de fronteiras que se estende profundamente pela África e está entrelaçado com a guinada autoritária da Europa. Quer receber a nossa newsletter diretamente no seu email? Inscreva-se pelo formulário no final desta página.

Neste mês, em um cemitério muçulmano na extremidade norte da África, a Europa começou a enterrar os mortos de sua fronteira. Não sabemos os nomes de quase a totalidade das pessoas cujos corpos, acondicionados em sacos funerários, foram sepultados em Ceuta. Elas estavam entre as 96 pessoas (pelo menos) que morreram em 30 de julho, quando mais de 72 mil pessoas cruzaram do Marrocos para o enclave sob administração espanhola—morrendo afogadas no mar ou esmagadas na multidão em movimento. Três semanas depois, as famílias ainda buscavam seus entes desaparecidos. Um dos motivos pelos quais tão poucos corpos puderam ser identificados pelo nome era a dificuldade que os parentes no Marrocos enfrentavam para cruzar legalmente a fronteira com Ceuta e fornecer as amostras de DNA necessárias à identificação.

O aumento ocorreu dez dias depois de Sánchez ter viajado ao Marrocos—rival da Argélia—remetendo a 2021, quando Rabat abriu a "válvula de pressão" em Ceuta devido à forma como a Espanha tratou um líder da Frente Polisário; desta vez, o episódio acontece em meio à hostilidade de Washington e Israel em relação a Sánchez, motivada por sua oposição ao genocídio em Gaza e a uma guerra contra o Irã.

As cercas ao redor de Ceuta marcam uma das fronteiras da "Fortaleza Europa". Mais ao sul, na semana passada, a guarda costeira da Mauritânia interceptou 161 pessoas—incluindo 17 crianças—cujo barco havia ficado à deriva por oito dias após partir da Gâmbia em direção às Ilhas Canárias, na Espanha. Em 2025, 54 naufrágios na rota entre a África Ocidental e as Ilhas Canárias deixaram 1.214 pessoas mortas ou desaparecidas, segundo a Organização Internacional de Migrações.

A Mauritânia não é membro da União Europeia. No entanto, tornou-se uma das zonas de fronteira da Europa. O bloco destinou mais de 210 milhões de euros (aprox. 1,26 bilhões de reais) ao país em 2024, incluindo recursos para a gestão de fronteiras e migração. Embarcações, aeronaves e agentes de segurança espanhóis operam no local. A Espanha tem financiado centros de detenção de migrantes em território mauritano. Em vários sentidos, a violência da fronteira europeia vem sendo progressivamente deslocada para além dos próprios contornos da Europa.

Na semana passada, completou-se um ano desde que outra parte dessa fronteira viu disparos serem efetuados. A quarenta milhas náuticas ao norte da Líbia, dois homens a bordo de uma lancha de patrulha da Guarda Costeira líbia abriram fogo, por vinte minutos, contra o Ocean Viking— um navio de resgate que transportava 87 pessoas retiradas do Mediterrâneo. A lancha de patrulha havia sido doada pela Itália dois anos antes, no âmbito de um programa da própria UE para a "gestão integrada de fronteiras e migração" na Líbia.

O ataque abre First They Came for the Migrants ("Primeiro vieram pelos migrantes", em tradução livre), o mais recente estudo de caso da Internacional Reacionária, o projeto de pesquisa da Internacional Progressista. O texto descreve uma fronteira europeia que opera muito além da própria Europa: armando e treinando forças de segurança; utilizando a ajuda e o comércio como instrumentos de pressão; disseminando sistemas de vigilância em vários continentes; e construindo centros de detenção e deportação fora do espaço físico do bloco.

No Marrocos, a União Europeia gastou mais de 2 bilhões de euros (aprox. 12 bilhões de reais) em cooperação em matéria de migração entre 2014 e 2022. Forças de segurança realizaram detenções em massa de migrantes e refugiados—predominantemente negros—antes de transportá-los para áreas desérticas de fronteira, sem comida, água ou abrigo.

“É preciso dificultar a vida dos migrantes. Tornar a vida deles complicada”, explicou um consultor que trabalha em um projeto financiado pela UE. “Deixe alguém da Guiné no Saara duas vezes; na terceira, ele pedirá para que você o leve de volta para casa voluntariamente.” Na costa da Tunísia, a UE ofereceu mais de 1 bilhão de euros (aprox. 6 bilhões de reais) em apoio em 2023—incluindo 105 milhões de euros para o controle da migração—meses depois do presidente Kais Saied ter condenado a migração subsaariana utilizando a retórica da teoria da conspiração da “Grande Substituição”, típica da extrema-direita europeia.

Em 2019, a União Europeia suspendeu as operações com navios da Operação Sophia, uma missão naval que havia resgatado dezenas de milhares de pessoas no mar. As embarcações foram substituídas por drones, que, do alto, localizam barcos que atravessam o Mediterrâneo e transmitem suas coordenadas às forças líbias para que estas interceptem as pessoas a bordo e as devolvam a um país onde migrantes enfrentam detenção arbitrária e violência. As autoridades europeias passaram a observar pessoas em situação de perigo sem precisar levá-las a um local seguro.

A Grã-Bretanha gastou centenas de milhões de libras preparando-se para deportar requerentes de asilo para Ruanda, sem chegar a realizar uma única remoção forçada. A Itália construiu centros de detenção na Albânia, mas sucessivas contestações judiciais bloquearam o plano original e obrigaram Roma a dar outro destino às instalações. Em 2018, a Comissão Europeia insistia que centros de deportação em território estrangeiro seriam ilegais. Em junho deste ano, negociadores do Parlamento Europeu e dos governos do bloco aprovaram regras que permitem justamente esses "centros de retorno" em países terceiros.

Políticas antes associadas à extrema-direita do continente agora tramitam pelas instituições da União Europeia. Há quem faça o caminho inverso. Fabrice Leggeri, por exemplo, passou sete anos à frente da Frontex. Sob sua liderança, a agência adquiriu seu próprio corpo permanente armado—as primeiras "tropas civis uniformizadas" da Europa, conforme descritas por Leggeri—ao mesmo tempo em que era repetidamente acusada de envolvimento em operações ilegais e letais de rejeição de migrantes nas fronteiras europeias. Ele renunciou ao cargo em 2022, em meio a investigações sobre essas denúncias. Dois anos depois, foi eleito para o Parlamento Europeu pelo partido Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen.

A extrema direita fornece pessoal, exerce pressão e apresenta exigências cada vez mais radicais. Governos de centro e de centro-direita transformam isso em orçamentos, acordos e estruturas administrativas. A Frontex é a maior agência da União Europeia e a que mais cresce; seus agentes já atuam muito além das fronteiras da União, ao passo que seu corpo permanente em contínua expansão confere a Bruxelas uma força armada própria.

A engrenagem não para por aí. A lei de segurança de 2025 de Giorgia Meloni endurece o controle sobre migrantes detidos e, ao mesmo tempo, aumenta as penas para manifestantes climáticos. Softwares espiões têm sido utilizados contra jornalistas e ativistas. Poderes justificados com base na questão migratória passam a integrar uma arquitetura mais ampla de vigilância, policiamento e repressão.

A "Fortaleza Europa" nada faz para eliminar os fatores que impulsionam as pessoas em sua direção. A guerra destrói lares. O colapso climático prejudica a agricultura. A troca desigual drena a riqueza do Sul Global. Os Estados europeus contribuem para cada um desses problemas e, em seguida, gastam bilhões para controlar o movimento de pessoas que deles decorre. Uma ordem global torna a vida impossível para milhões de pessoas; recursos públicos são destinados a forças de segurança, fabricantes de armas, empresas de tecnologia e governos autoritários para impedir que elas se desloquem.

Romper esse ciclo sombrio significa defender o direito de se mover—de cruzar fronteiras, buscar refúgio e construir uma vida em outro lugar. Significa também defender o direito de permanecer no lugar que já se chama de lar.

A Europa está negando ambos. Nossa tarefa é defendê-los: desmantelar a máquina que pune as pessoas por se deslocarem e construir a paz, os meios de subsistência e a soberania que tornam possível a permanência.

Últimas do Movimento

Organizadores palestinos levam o BDS a restaurantes de Nova Orleans

Dois membros da Internacional Progressista—o Movimento da Juventude Palestina (PYM) e os Socialistas Democráticos da América (DSA)—estão trabalhando juntos em Nova Orleans para expandir a campanha No Appetite for Apartheid (Sem Apetite para Apartheid). Os organizadores do PYM falaram esta semana ao capítulo local da DSA sobre o esforço de persuadir os restaurantes a identificar e substituir produtos e fornecedores envolvidos no ataque de Israel a Gaza, com as empresas participantes reconhecidas publicamente pela campanha. A organização leva o BDS às empresas e cadeias de abastecimento do bairro, com os membros do DSA ajudando a construir a campanha localmente.

Nossa História

23 de agosto de 1960 – A Federação de Mulheres Cubanas: A Federação de Mulheres Cubanas (FMC) foi fundada em 23 de agosto de 1960, apenas 18 meses após o triunfo da Revolução Cubana. Liderada pela revolucionária Vilma Espín até sua morte em 2007, a organização tornou-se a entidade de massa encarregada de colocar a emancipação feminina no centro do socialismo cubano—o que Fidel Castro chamou de "uma revolução dentro da revolução". Partindo de cerca de 100 mil integrantes, a FMC cresceu e passou a organizar milhões de mulheres, ajudando a liderar a campanha de alfabetização, a expandir a educação e o atendimento à infância, a requalificar ex-trabalhadoras domésticas e a promover direitos reprodutivos e legais. "Para as mulheres cubanas, o socialismo significava liberdade, independência, soberania, dignidade, justiça social", disse Espín—"o direito de decidir sobre o seu próprio destino". Mais de seis décadas depois, a Federação continua a se organizar em defesa dessas conquistas.

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Arte da Semana

Julià Panadès é um artista de Mallorca, na Espanha, que trabalha com detritos encontrados, e frequentemente trazidos pela maré até a ilha mediterrânea. Ele descreve sua prática como arqueológica, observando que algumas das garrafas e tampas que encontra têm origem árabe e tunisiana; seus materiais e métodos de trabalho remetem à precariedade e à impermanência.

As Ilhas Baleares possuem uma relação profunda com a ameaça de invasão. Os Honderos Baleares—fundeiros nativos do arquipélago—eram guerreiros da antiguidade que lutaram nas Guerras Púnicas a partir de 264 a.C., ao passo que hoje cresce o clamor contra o turismo colonial.

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Date
31.08.2026
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