“Líamos Marx, líamos Mao, líamos Fidel. Mas, quando chegamos a Chungi, vimos que pessoas que nunca tinham ouvido esses nomes conheciam Marx. Elas viviam Marx ”
— Dra. Alia Haider
Às cidades cheguei em um tempo de desordem Governado pela fome. Abriguei-me com o povo em um tempo de tumulto E então me juntei à sua rebelião.
— Bertolt Brecht
Em 29 de novembro de 2019, estudantes marcharam em mais de cinquenta cidades do Paquistão. A Marcha de Solidariedade Estudantil — o primeiro levante estudantil de massa em décadas — exigia a restauração dos diretórios estudantis, o fim dos aumentos de taxas e a desmilitarização dos campi. Foi organizada pelo Comitê de Ação Estudantil, com o apoio do Movimento Haqooq-e-Khalq (HKM), de sindicatos e de organizações camponesas. Milhares foram às ruas. Em poucos dias, o Estado reagiu. Acusações de sedição foram apresentadas contra os organizadores, incluindo o fundador do HKM, Ammar Ali Jan, e o dirigente sindical Farooq Tariq. Ali Jan foi declarado “uma ameaça à segurança pública” pelo Comissário Adjunto de Lahore e detido com base na Ordem de Manutenção da Ordem Pública, da era colonial.
A marcha conquistou alguns avanços. Uma província chegou a anunciar que suspenderia a proibição dos diretórios estudantis. Ainda assim, a resposta do Estado revelou os limites da política de movimentos dentro da arquitetura política existente no Paquistão. Em geral, os apelos não são atendidos. Os protestos crescem e depois se dissipam. As acusações de sedição permanecem, e a repressão estatal continua a cada nova onda de mobilização. Diante desse impasse, um movimento pode recuar para os falsos confortos do reformismo. Ou pode levar a sério sua missão e reavaliar as táticas, estratégias e teorias que o sustentam — um processo que obriga o ativista a se tornar um arqueólogo, escavando o passado para construir novos projetos para o presente.
Para o HKM, esse impasse tornou-se um momento decisivo. Durante anos, o movimento estudantil foi dominado pelos estratos mais ricos da sociedade paquistanesa — o ensino superior permanece, em grande medida, fora do alcance da classe trabalhadora e do campesinato. Mas uma política desvinculada das condições reais de vida dos trabalhadores pouco pode fazer para enfrentar os profundos desafios estruturais da sociedade paquistanesa . A transformação necessária para garantir uma vida digna ao povo paquistanês não viria de cima; precisaria ser construída pela e para a classe trabalhadora e o campesinato. Esse reconhecimento levaria os organizadores, em janeiro de 2023, às ruas lamacentas de Chungi Amar Sidhu, um bairro operário empobrecido em Lahore — e, a partir daí, à construção de um novo tipo de organização política.
Foi assim que o Movimento Haqooq-e-Khalq se tornou o Partido Haqooq-e-Khalq (HKP) — o partido dos direitos do povo. O HKP surgiu do entendimento de que transformar o Paquistão exige não apenas pressionar as instituições existentes, mas construir estruturas alternativas de poder popular, por meio das quais os trabalhadores possam desenvolver e defender suas próprias demandas políticas. Um movimento pelos oprimidos não bastaria — era necessário um novo movimento dos oprimidos, capaz de expressar e impulsionar suas aspirações comuns.
No Paquistão, o cenário político funciona como uma “máquina de clientelismo” cuidadosamente estruturada, na qual diferentes frações da classe dominante — os militares, os grandes proprietários de terra e a burguesia compradora — disputam o poder enquanto excluem sistematicamente os trabalhadores de qualquer participação efetiva. Essa exclusão é estrutural, enraizada nos arranjos materiais de poder que surgiram desde a partição do subcontinente. O aparato estatal paquistanês, herdado da administração colonial e posteriormente desenvolvido por estruturas militar-burocráticas, atua principalmente como mediador entre interesses concorrentes das elites, preservando a arquitetura fundamental da exploração.
Nesse contexto, tanto as abordagens reformistas quanto as puramente humanitárias do ativismo social contemporâneo revelam suas limitações. Um Estado concebido para excluir os trabalhadores do poder não pode ser simplesmente persuadido — pelo menos não de forma a produzir mudanças duradouras. E, embora ações humanitárias possam aliviar sofrimentos imediatos, elas não enfrentam a reprodução estrutural da pobreza e da opressão. O reconhecimento desses limites cria as condições para romper com a política das organizações não governamentais e dos movimentos reformistas — historicamente predominantes na arquitetura política da oposição paquistanesa — em busca de alternativas revolucionárias.
A formação do HKP, portanto, representa mais do que a criação de mais um partido na arena eleitoral. Trata-se de uma tentativa de construir uma organização política capaz de desenvolver e expressar as aspirações das massas trabalhadoras, ao mesmo tempo em que as prepara para a tarefa de governar. Representa também um esforço consciente de superar os impasses das estratégias políticas anteriores. “Na esquerda paquistanesa, ou havia anarquistas dizendo que tudo no mundo e na história da esquerda está errado”, afirmou Ammar Ali Jan, “ou havia aqueles presos à nostalgia ”. O partido buscou superar ambas as tendências, construindo um novo instrumento político firmemente enraizado na classe trabalhadora.
A tradição política de esquerda no Paquistão atingiu seu auge na década de 1960, marcada por intensa mobilização e ambiciosos projetos de transformação social. Nesse período, foram formuladas análises sofisticadas sobre a posição do país no capitalismo global e desenvolvidas estratégias concretas para enfrentar os desafios interdependentes do feudalismo, do capitalismo e da dependência neocolonial.
No entanto, nas décadas de 1980 e 1990, a alternativa socialista que parecia iminente foi amplamente desmantelada. Esse processo resultou de um duplo ataque — global e interno — que redefiniu profundamente o terreno da luta política. No plano internacional, o colapso da União Soviética eliminou uma fonte crucial de apoio ideológico e material, inaugurando um longo período de retração dos movimentos socialistas. Internamente, as classes dominantes paquistanesas desenvolveram estratégias sofisticadas de cooptação que neutralizaram a organização política da classe trabalhadora.
Essas estratégias operavam por meio de uma vasta rede de clientelismo, destinada a afastar trabalhadores e camponeses de uma participação efetiva no poder popular. Além da repressão direta, o aparato estatal aperfeiçoou um jogo ainda mais sofisticado: absorver o descontentamento social e canalizá-lo para redes clientelistas controladas por intermediários locais. Para resolver qualquer questão, era preciso pagar ou recorrer às pessoas certas — o que corroía a organização popular.
O Estado paquistanês resultante desse processo refletia uma complexa combinação de interesses das classes dominantes. Elementos capitalistas, feudais e neocoloniais coexistiam em tensão na superfície, enquanto se mantinham unidos na preservação de estruturas de exploração e exclusão. Esse arranjo provocava frequentes mudanças de governo sem alterar as condições de vida da população. O aparato militar-burocrático seguiu como árbitro final dos conflitos políticos, mantendo seu papel como instância decisiva do poder ao mesmo tempo em que se adaptava às circunstâncias.
As consequências da fragmentação da esquerda foram profundas. À medida que os movimentos da classe trabalhadora enfraqueceram, forças de direita ocuparam o espaço. Esse fenômeno não foi exclusivo do Paquistão, mas refletiu tendências em toda a Ásia do Sul. Em Mumbai, o Shiv Sena substituiu sindicatos têxteis comunistas. Em Bengala Ocidental, antigos redutos comunistas passaram a apoiar o Partido Bharatiya Janata (BJP), de orientação nacionalista hindu.
Essa análise orientou a estratégia do HKP desde o início. O partido rejeitou a ideia de que movimentos sociais são, por natureza, progressistas. O conteúdo político de um movimento depende das organizações que atuam no interior das massas — e essas podem assumir diferentes formas e ideologias. A lição era clara: mais importante do que esperar por explosões sociais é realizar o trabalho organizativo — construir instituições e manter presença entre os trabalhadores — antes do surgimento de crises ou situações revolucionárias.
Foi nesse contexto que o HKP surgiu. A escolha de Chungi como base de atuação reflete essa compreensão histórica. Em vez de tentar reconstruir a esquerda em círculos acadêmicos ou estudantis, que por muito tempo concentraram a política de oposição, seus fundadores optaram por enraizar a política revolucionária na experiência das camadas mais oprimidas. Trata-se de um rompimento consciente com os padrões que levaram à fragmentação anterior — e de uma tentativa de revitalizar tradições esquecidas do movimento radical paquistanês.
A transformação do HKM em HKP ocorreu em várias etapas. Após as mobilizações de 2019 e a repressão estatal, surgiu um debate interno sobre a necessidade de institucionalização. A pandemia de Covid-19, em 2020, acelerou essa decisão. Diante do abandono das comunidades trabalhadoras pelo Estado e da devastação econômica subsequente, o HKM organizou campanhas de distribuição de alimentos, atendimentos de saúde e ações de conscientização sobre a vacinação.
Em Chungi, as escolas registraram uma queda de 15% nas matrículas devido à crise econômica. O HKM promoveu campanhas de arrecadação de livros, mobilizou doações internacionais, concedeu bolsas de estudo, organizou atividades de verão e criou uma escola noturna gratuita para crianças que haviam abandonado os estudos. Essas experiências confirmaram a necessidade de uma forma organizativa mais estruturada. Em março de 2022, durante uma grande assembleia em Lahore, o HKM anunciou que se registraria como partido político e disputaria eleições. O registro foi formalizado em novembro de 2022. Em janeiro de 2023, Ammar Ali Jan e outros organizadores passaram a atuar diretamente nas comunidades trabalhadoras de Chungi para construir a base do partido.
A importância estratégica de Chungi vai além de suas características demográficas, abrangendo também sua posição na geografia urbana mais ampla de Lahore. Localizada em proximidade marcante com os distritos da Defence Housing Authority (DHA), que abrigam as elites militares e profissionais do Paquistão, Chungi evidencia as contradições de classe que definem a sociedade paquistanesa — com condições tão severas que encurtam a vida de seus habitantes. Quando os organizadores do HKM testaram o abastecimento de água em Chungi e nos bairros ao redor, por exemplo, descobriram que ela estava contaminada com esgoto. No assentamento vizinho de Shareef Pura, a Dra. Alia Haider — secretária de saúde do partido em Punjab — realizava atendimentos médicos gratuitos quando percebeu um padrão. Uma jovem foi até ela para uma consulta. Pela aparência, a Dra. Haider supôs que ela tivesse nove ou dez anos. Ela tinha dezessete. Isso não era uma anomalia. Crianças em todo o bairro apresentavam crescimento retardado, dentes escurecidos e gengivas inchadas. Mulheres relataram abortos frequentes e natimortos.
O HKP convocou a Dra. Nousheen Zaidi, bióloga do câncer na Universidade de Punjab e integrante do partido, que reuniu uma equipe de estudantes para analisar amostras de sangue, água e solo de trezentos domicílios. Os resultados foram devastadores: cinquenta e dois por cento dos moradores de Shareef Pura eram anêmicos; na vizinha Shadipura, onde fundições de ferro derretiam sucata contendo chumbo, oitenta e dois por cento das crianças sofriam de anemia e trinta e seis por cento das mulheres haviam sofrido abortos espontâneos. A concentração de chumbo no solo de Shadipura atingiu 22.900 partes por milhão — quase sessenta vezes o nível a partir do qual a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos proíbe que crianças brinquem ao ar livre. Quando a equipe da Dra. Zaidi apresentou suas conclusões à Autoridade de Água e Saneamento (WASA), foi informada de que a contaminação não era de sua jurisdição. Em seguida, a equipe enviou à WASA amostras de água mineral engarrafada com adição de chumbo; laboratórios governamentais as declararam limpas e seguras.
A crise do chumbo tornou-se um caso paradigmático para a abordagem do HKP à formação partidária. Os postos de saúde que estabeleceram tratariam os sintomas, ao mesmo tempo em que geravam conhecimento político sobre as condições de vida da classe trabalhadora nessas comunidades — e sobre a cadeia de cumplicidade corporativa e estatal que as sustentava. O partido mobilizou esse conhecimento em demandas — por filtros de purificação de água, remediação do solo e a aplicação de regulamentações ambientais — e começou a preparar ações legais para forçar a responsabilização do Estado. Essa metodologia inspirou-se explicitamente em experiências revolucionárias bem-sucedidas em Cuba e na China, onde movimentos de massa emergiram por meio de coalizões que combinavam camponeses, intelectuais, mulheres, trabalhadores e jovens para enfrentar os desafios concretos da vida sob estruturas feudais, coloniais e imperialistas. Como explicou a Dra. Alia Haider, organizadora do HKP: “Líamos Marx, líamos Mao, líamos Fidel,m as, quando chegamos a Chungi, vimos que pessoas que nunca tinham ouvido esses nomes conheciam Marx. Elas viviam Marx ”.
A transição de movimento para partido refletiu o reconhecimento de que a representação externa, por si só, não poderia despertar a subjetividade da classe trabalhadora nem reafirmar o protagonismo popular dos trabalhadores. Como disse Ali Jan: “A classe trabalhadora paquistanesa não existe como um sujeito político independente. Ela existe em um estado de não- ser, incapaz de afirmar seus interesses ”. Para despertar a classe trabalhadora, era necessário construir “o fator subjetivo da revolução — o partido — com toda a paciência, consistência e coragem que isso exige ”.
Esse arcabouço teórico baseia-se na análise marxista dos partidos políticos como veículos de representação de interesses de classe. Na maioria das vezes, as sociedades capitalistas carecem de partidos políticos que representem a classe trabalhadora — em vez disso, possuem uma série de partidos que representam diferentes frações da classe dominante. É por isso que é imperativo formar um partido dos trabalhadores. A missão histórica de tal partido é conter, desenvolver e impulsionar as aspirações das massas trabalhadoras. Sem tais veículos organizativos, a atividade política da classe trabalhadora permanece fragmentada e, em última instância, subordinada à lógica política burguesa. O partido atua como o mecanismo institucional por meio do qual experiências individuais dispersas de exploração e resistência podem ser sintetizadas em uma estratégia política coerente e em ação coletiva.
A implementação prática dessas ideias teóricas exigiu o desenvolvimento de estratégias capazes de sustentar um trabalho político de longo prazo, ao mesmo tempo em que mantinham conexão com as necessidades imediatas das comunidades. As primeiras atividades do HKM, por exemplo, concentraram-se no enfrentamento de crises de saneamento por meio da mobilização comunitária para a limpeza de ruas e a manutenção de canais. Essas iniciativas cumpriam múltiplas funções: ofereciam melhorias materiais imediatas, demonstravam o potencial da ação coletiva e criavam espaços de discussão e educação política.
A abordagem do HKP integra a institucionalização — o processo de construção de estruturas capazes de organizar as pessoas para responder às necessidades imediatas da comunidade — com educação política e mobilização.
A criação de atendimentos de saúde semanais em 2022, liderada pela Dra. Alia Haider, exemplificou essa abordagem. Essas iniciativas surgiram do reconhecimento de que as condições enfrentadas pelas comunidades trabalhadoras não poderiam ser simplesmente resolvidas por meio de esforços humanitários. Como explicou a Dra. Alia: “À medida que começamos a organizar os primeiros postos médicos gratuitos, vimos que a devastação enfrentada pela classe trabalhadora estava além da nossa capacidade de ajudá-la como movimento. Então precisávamos não apenas desenvolver a infraestrutura para apoiar essas pessoas, mas também cultivar uma política de solidariedade”.
A inauguração da Clínica Khalq, em agosto de 2023, marcou um avanço importante desse processo. Ela organiza postos médicos gratuitos em bairros da classe trabalhadora em Lahore. Para além da prestação de cuidados essenciais, a clínica tinha um objetivo político: demonstrar a possibilidade de organizar a sociedade segundo princípios de bem-estar coletivo, e não de lucro individual. A presença do embaixador cubano na cerimônia de inauguração conectou simbolicamente esses esforços locais a tradições mais amplas de internacionalismo médico e construção socialista.
As iniciativas educacionais do partido seguiram lógica semelhante. Em Chungi, o HKP estabeleceu cinco escolas profissionalizantes oferecendo cursos de inglês, informática, gestão financeira e negócios. Esses programas atendiam às necessidades imediatas de qualificação, ao mesmo tempo em que criavam espaços de educação política que conscientizavam tanto os trabalhadores de Chungi quanto os estudantes universitários que atuavam junto ao HKP. A campanha eleitoral de fevereiro de 2024 ofereceu oportunidades para testar e ampliar essas abordagens organizativas. A mobilização de setecentos trabalhadores de campanha, incluindo ex-alunos de dezessete anos das escolas profissionalizantes que gerenciaram processos complexos de registro de eleitores, demonstrou o sucesso do partido no desenvolvimento de lideranças locais e de capacidades de governança.
Embora a campanha tenha resultado em apenas 2.174 votos em diferentes seções eleitorais, a liderança do HKP interpretou corretamente esses resultados dentro de objetivos estratégicos mais amplos. A campanha havia alcançado seus principais objetivos: ampliar a capacidade organizativa, aprofundar as relações com a comunidade e demonstrar a possibilidade de abordagens políticas alternativas. Diferentemente dos partidos tradicionais, que visitavam o bairro apenas durante campanhas eleitorais, o HKP manteve uma presença permanente e continuou expandindo suas atividades.
O sucesso do partido na organização no local de trabalho demonstrou a centralidade do desenvolvimento de lideranças orgânicas da classe trabalhadora. Um elemento-chave nesse processo foi Baba Latif Ansari. Baba Latif nunca completou sua escolarização. Vinha de uma origem humilde e começou como ativista religioso antes de redefinir sua compreensão da luta — reinterpretando a “jihad” como justiça no local de trabalho. Em 2003, fundou o Movimento Labour Qaumi para combater a exploração de trabalhadores industriais. Em 2014, proprietários de fábricas tentaram assassiná-lo; ele sobreviveu. Quando se tornou presidente do núcleo do HKP em Punjab, já era um poderoso líder sindical e uma das vozes mais importantes da classe trabalhadora no Paquistão.
Ao lado de Baba Latif, emergiu uma segunda liderança orgânica da fábrica Chawla: Maulana Shahbaz, trabalhador e clérigo religioso. A luta na fábrica Chawla começou com um escândalo : os trabalhadores recebiam dezesseis mil rúpias paquistanesas por mês — cerca de sessenta dólares americanos — quando o salário mínimo legal era de trinta e duas mil. Os trabalhadores não sabiam o que fazer. O HKP interveio e trabalhou ao lado deles para organizar uma reivindicação por aumento salarial. Uma intervenção governamental posterior elevou os salários para vinte e três mil rúpias — o maior aumento desde 2001. Quando o governo anunciou um novo salário mínimo de trinta e sete mil rúpias, outra rodada de educação e organização se seguiu. Shahbaz emergiu como uma voz de liderança e tomou a palavra na primeira conferência de trabalhadores do HKP em Kot Lakhpat, em julho de 2024, ao lado de trabalhadores de outras fábricas. No dia seguinte, ele foi demitido. Em cinco minutos, os trabalhadores pararam a produção e deixaram o local em solidariedade — um ato que, segundo todos os relatos, foi inédito na região.
O HKP então atuou em três frentes simultâneas: sustentar a ocupação dos trabalhadores na fábrica, defender suas moradias em alojamentos após o proprietário tentar despejos em massa e construir pressão midiática e pública suficiente para forçar negociações. O resultado superou as expectativas. Trabalhadores que haviam recebido como indenização apenas o salário mínimo — vinte e três mil rúpias — acabaram recebendo entre duzentas mil e um milhão de rúpias (cerca de setecentos a três mil e seiscentos dólares americanos), dependendo do tempo de serviço, representando o que Jan descreveu como “o maior acordo de desligamento voluntário da área industrial desde, pelo menos, os anos setenta”.
A vitória em Chawla catalisou uma rápida expansão. Em meados de 2024, o partido atuava em oito a dez fábricas em Lahore, com a organização se espalhando para Gujranwala e Faisalabad. Nos complexos têxteis de Gujranwala, semanas de greves forçaram autoridades locais a intermediar acordos que reverteram cortes salariais. Em Faisalabad, onde trabalhadores bloquearam corredores industriais entoando “Kam do ya jaan do!” — “Dê trabalho ou dê morte!” — os proprietários reagiram com o fechamento de mais de trezentas fábricas, trancando portões e congelando salários. Um tribunal trabalhista posteriormente declarou o locaute ilegal.
Em outubro de 2024, A Conferência Jhang Kissan, a conferência camponesa de Jhang, representou a expansão do HKP para a dimensão rural da estrutura de classes do Paquistão. Coorganizada com o Pakistan Kissan Rabita Committee (PKRC) — uma rede de vinte e seis pequenas organizações camponesas e o único membro paquistanês do movimento internacional La Via Campesina — a conferência reuniu milhares de pequenos agricultores, camponeses sem terra, trabalhadores agrícolas, sindicalistas e jovens de Punjab e Sindh. Baba Latif Ansari, ao se dirigir à multidão, alertou: “Nossas terras ancestrais, nossa fonte de sustento e nossa identidade estão em risco. A agricultura corporativa só levará à exploração, ao deslocamento e à devastação de nossas comunidades. Somos a espinha dorsal que alimenta o povo desta nação, e é hora de nossas vozes serem ouvidas”.
A conferência adotou um programa de vinte e três pontos para a reforma agrária. Suas demandas incluíam, medidas imediatas: a fixação de preços mínimos de garantia para trigo, algodão, cana-de-açúcar, arroz e milho; e a compra direta de trigo dos agricultores. E incluíam também medidas estruturais: o fim da agricultura corporativa e a distribuição de terras estatais e de propriedades privadas entre camponeses, pequenos agricultores e a população rural sem terra; a abolição de políticas que permitem ao setor privado importar grãos a preços artificialmente baixos em competição com produtores locais; o fim das políticas de mercado aberto lideradas pelo FMI e pela OMC; a reestruturação do sistema de irrigação; e a fixação das tarifas de eletricidade em dez rúpias por unidade para pequenos agricultores. O programa representava uma alternativa coerente à Iniciativa Paquistão Verde do governo, que organizações de agricultores acusaram de deslocar milhares de famílias de suas terras para beneficiar interesses corporativos.
Nos meses seguintes, a aliança entre o PKRC, o HKP e formações aliadas organizou mobilizações nacionais — incluindo o Dia Internacional da Luta Camponesa, em abril de 2025, com grandes assembleias em Depalpur, no Punjab, e em todo o Sindh. Essas ações conectaram explicitamente a crise agrária a padrões mais amplos: a promoção governamental da agricultura corporativa, a construção de canais no rio Indo que ameaçavam deixar regiões rio abaixo sem água de irrigação e os programas de ajuste estrutural impostos pelo FMI, que haviam favorecido sistematicamente grandes proprietários de terra e interesses corporativos em detrimento dos pequenos agricultores que constituem a maioria da população agrícola do Paquistão.
Subjacente a essas lutas estava uma análise econômica estrutural que o partido desenvolveu programaticamente. O Paquistão, argumentava o partido, havia “se desindustrializado precocemente” — não porque os trabalhadores exigissem demais, mas porque as elites haviam abandonado o investimento produtivo em favor da especulação com terras, recursos minerais, ações e propriedades. Recentemente, o partido juntou-se à principal aliança de oposição do país, o Tehreek-Tahaffuz-e-Aaine-Pakistan(Movimento pela Proteção da Constituição), para construir uma frente ampla contra o atual governo apoiado pelos militares no Paquistão. Após décadas de isolamento, a esquerda no Paquistão entrou na política mainstream do país. Ainda assim, o foco do partido permanece na construção de fortes quadros ideológicos em todo o país como base da ação política.
Ao longo dessas atividades, o HKP manteve compromissos internacionais s explícitos. O partido organizou protestos regulares em solidariedade à Palestina e ao Líbano, prestou apoio incondicional à resistência do Irã contra ataques sionista-imperialistas, combateu a nova guerra fria contra a China, expressou amizade com Cuba e se posicionou dentro de uma análise mais ampla do lugar do Paquistão na ordem global em transformação. Esse internacionalismo refletiu o entendimento teórico de que as lutas locais contra a exploração se conectam a padrões globais de imperialismo e resistência. A construção da consciência revolucionária exige compreender essas conexões, em vez de limitar os horizontes políticos às fronteiras nacionais.
O surgimento e o desenvolvimento do Partido Haqooq-e-Khalq representam uma contribuição significativa para a compreensão contemporânea da estratégia revolucionária nas condições do capitalismo do século XXI. As experiências do partido em Chungi oferecem demonstrações práticas de que o estudo da história das lutas passadas e a aplicação de suas formulações teórica s às condições contemporâneas, de maneira a construir o poder coletivo da classe trabalhadora, continuam sendo o único caminho viável para uma mudança estrutural hoje.
A abordagem estratégica do HKP responde a questões fundamentais enfrentadas por movimentos revolucionários que atuam em sistemas políticos formalmente democráticos, mas dominados por partidos burgueses e redes de clientelismo . Como desenvolver a consciência política da classe trabalhadora em sociedades onde o discurso político dominante exclui sistematicamente a análise de classe? Como organizações revolucionárias podem manter uma visão estratégica de longo prazo enquanto lidam com necessidades materiais imediatas? Como iniciativas locais de organização podem se conectar a projetos transformadores mais amplos sem perder o enraizamento nas lutas concretas?
Como muitos movimentos radicais anteriores, o HKP encontrou respostas em um trabalho paciente de organização comunitária, que o partido considera dialeticamente inseparável da tarefa de longo prazo de reconstruir e reafirmar a subjetividade da classe trabalhadora. As pessoas são mobilizadas para limpar um canal ou construir uma clínica e, nesse processo, desenvolvem habilidades, capacidades e confiança para transformar suas próprias condições de vida. É assim que indivíduos isolados , que vivem a exploração, se tornam sujeitos políticos que já não estão à mercê da classe dominante. Esse é o ciclo da construção revolucionária; é assim que o socialismo e a democracia são construídos. Não se trata de um processo simples, nem depende de sujeitos políticos já formados como socialistas ou comunistas . Trata-se, antes, de um processo dialético, no qual as pessoas são moldadas e transformadas pelo próprio ato de construção política.
