“A jornada para a liberdade é repleta de sacrifícios, lágrimas, fome, roupas cheias de piolhos, sangue e morte.”
― Dedan Kimathi
“Não se sobe em uma árvore pelo topo.”
— Provérbio africano
Na tradição Marxista, o partido de vanguarda é um veículo indispensável na luta pela libertação. Em um mundo estruturado pelo imperialismo, a democracia é severamente limitada, principalmente na periferia global. Atende, primariamente, aos interesses dos poderes imperiais e às elites nacionais que trabalham em nome deles. Essas relações sociais não apenas determinam a vida diária de bilhões de pessoas, mas também mantêm um pulso firme sobre as esferas política, cultural, educacional e de informação. Em geral, as eleições oferecem uma escolha entre partidos políticos que estão, de muitas formas, comprometidos com a preservação do capitalismo. Nesse contexto, os trabalhadores, os camponeses e a população urbana vulnerável são forçados a se alinhar a horizontes políticos estabelecidos por seus opressores, o que, fundamentalmente, não desafia as relações sociais impostas pelo capitalismo e pelo imperialismo. É por isso que as massas oprimidas precisam de um veículo político que pode representá-las como uma classe. Esse é o papel do partido revolucionário, que busca desenvolver, avançar e levar as ambições do povo trabalhador e oprimido no caminho pelo socialismo.
Por que um partido revolucionário é necessário? Em O Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels escreveram que o capitalismo “cria seus próprios coveiros" .1 A concentração de capital nas mãos de uma classe também cria uma classe trabalhadora, que é a fonte de toda a riqueza da sociedade. Essa classe, como mostraram Marx e Engels, pode reter os meios de produção e redirecionar os lucros para a melhoria da vida humana. Mas esse processo não se inicia espontaneamente. Os trabalhadores inicialmente vivenciam a exploração de forma individual, e não coletiva, e a ideologia da classe dominante permeia a sociedade, dificultando a organização coletiva. O partido revolucionário funciona como um veículo para superar essas limitações, concentrando a experiência da classe trabalhadora; envolvendo, desenvolvendo e compartilhando a teoria revolucionária; e oferecendo uma direção estratégica para a luta da classe.
A revolução de outubro de 1917 foi um campo de testes. Vladimir Lenin mostrou que a classe trabalhadora, limitada ao ativismo sindical, cuja tendência focava apenas nas questões de remuneração e horas de trabalho, não desenvolveu, por si própria, demandas mais amplas para a representação política. Ela não estava ciente de sua capacidade para governar um Estado inteiro. Foi necessário um partido de revolucionários profissionais para introduzir a consciência socialista ao movimento trabalhista, para ajudar a organizar e para ajudar a ver a missão de deter o poder do Estado. Dessa forma, o partido revolucionário se tornou a expressão concentrada da consciência de classe, a instituição que transforma a classe trabalhadora de uma “classe em si” (uma categoria econômica objetiva) para uma “classe para si” (um papel político consciente e um agente na história). Essa missão não pode ser iniciada por uma ONG, um clube de debates ou um veículo eleitoral vazio. É necessário um partido que esteja fundamentado em experiência histórica enraizada entre o povo e reforçada pela teoria.
Hoje, na maior parte da periferia global, as fileiras das massas oprimidas também incluem uma parcela significativa da população rural e um crescente número de pessoas que não fazem parte da força de trabalho. Ao redor do mundo, há um êxodo histórico de trabalhadores rurais para cidades, causado por fatores como apropriação de terras e mudanças climáticas. Essas populações são forçadas a se agrupar em favelas urbanas, onde recorrem ao emprego informal ou vulnerável, ou não têm qualquer perspectiva de trabalho. No continente africano, cerca de 40% da população enfrenta tal condição, pessoas para as quais a mudança política revolucionária é uma questão de sobrevivência. 2 Aqui, o papel do partido de vanguarda para unir as massas oprimidas e transformar a resistência, frequentemente espontânea em uma ação revolucionária consciente, é crucial.
O Partido Comunista Marxista - Quênia (CPMK) é um esforço contemporâneo para construir tal organização, um partido de vanguarda do povo queniano trabalhador, camponês e urbano vulnerável, com o objetivo de liderar a luta contra o capitalismo, o neocolonialismo e o imperialismo. Suas experiências revelam não apenas a vitalidade continuada do pensamento revolucionário marxista, mas também as formas pelas quais o marxismo é aplicado às condições particulares do Quênia contemporâneo.
O CPMK surgiu no contexto de uma longa luta contra a dominação colonial e a subversão imperial, o desgaste evidente e, posteriormente, velado da soberania nacional. O colonialismo britânico, estabelecido no final do século 19, apropriou-se das melhores terras e recursos naturais em benefício dos colonizadores brancos e do poder colonial. Por meio de instrumentos legais, como o Regulamento de Terras da Coroa de 1902, o império britânico declarou que todas as terras “não ocupadas” seriam propriedade da Coroa, efetivamente criminalizando os métodos africanos de posse de terra e desapossando milhões de seus territórios ancestrais. As terras mais férteis, as infames “Terras Altas Brancas”, foram reservadas exclusivamente para colonizadores europeus, enquanto a maioria africana foi reunida em reservas nativas ou rebaixadas a ocupações ilegais em suas próprias terras. Para forçar os africanos ao trabalho assalariado em fazendas de colonizadores e em indústrias nascentes, a administração colonial instituiu impostos de palhoça e de capitação, impôs toques de recolher para controlar a movimentação e procurou acabar com a resistência utilizando punições físicas e execuções.
A resistência ao governo colonial surgiu cedo, com várias formas de revoltas espontâneas emergindo junto a movimentos organizados rumo à libertação nacional. A Associação Central Kikuyu, fundada em 1924, e a União Africana do Quênia, estabelecida em 1944, foram tentativas precoces de organização política contra o governo colonial. A administração colonial respondeu com aumento da repressão, banindo organizações políticas africanas e prendendo seus líderes.
A luta pela libertação nacional atingiu seu ápice com o levante dos Mau Mau, no ano de 1950, um movimento camponês revolucionário que se armou contra a ocupação britânica. A rebelião foi liderada pelo Exército da Terra e da Liberdade do Quênia (KLFA), organizado sob o slogan Gĩthaka na Wĩtĩkio! (Terra e Liberdade!), que reflete as realidades da vida de milhões de quenianos que enfrentaram a alienação de suas terras, a exploração econômica e a exclusão política. A rebelião abalou as estruturas do regime colonial. A resposta britânica foi selvagem. Mais de 1,5 milhão de pessoas, principalmente da comunidade Kikuyu, foram forçadas a entrar em campos de concentração. Milhares foram torturadas, executadas ou submetidas a trabalho árduo e condições desumanas. Comunidades inteiras foram removidas de suas terras e a punição coletiva se tornou rotina. O que foi enquadrado como contrainsurgência era uma campanha de terror feita para suprimir a resistência e reafirmar o controle colonial. Figuras oficiais reconhecem que aproximadamente 11.000 combatentes Mau Mau foram mortos, embora a quantidade real de quenianos mortos como resultado da violência britânica seja significativamente maior.
Com a luta armada escalonando, a Grã-Bretanha mudou sua estratégia de repressão direta para uma transição engenhosa de poder que, sob o disfarce de libertação formal, preservaria seus interesses econômicos. Isso levou à “Falsa Independência” de 1963, um momento que não desfez o estado colonial, mas transformou os mecanismos pelos quais ele exercia seu domínio. Por meio de conferências na Casa de Lencastre, das quais a ala radical da luta anticolonialista foi excluída, a Grã-Bretanha entregou o poder para uma burguesia compradora leal, uma classe que, por seu próprio enriquecimento, sustentaria a lógica econômica do colonialismo sem seus aparatos políticos formais. Essa nova elite aceitou um acordo neocolonialista que manteve os interesses comerciais britânicos , as propriedades de terra e a influência militar intactos. O resultado foi o nascimento de um Estado neocolonialista, uma fachada preta para o controle branco contínuo. Como o manifesto do CPMK observa:
“As poucas e limitadas reformas à parte, os governos que sucederam o colonialismo mantiveram o sistema que recicla os problemas que o nosso povo combateu. Aqueles que tiveram suas terras tiradas pelos colonizadores continuam sem terras... As condições de trabalho escravo ainda existem em plantações de propriedades locais e estrangeiras que pagam salário de fome para uma mão de obra mal organizada.”
A era pós-independência sob o presidente Jomo Kenyatta consolidou a ordem neocolonial no Quênia. Radicais como Pio Gama Pinto, um marxista comprometido com a libertação pan-africana, foram assassinados, enquanto o partido de esquerda União Popular do Quênia (KPU), que havia exigido uma transformação mais abrangente, foi banido em 1969. Nos anos seguintes, escritores e intelectuais que compactuavam com as lutas de camponeses e trabalhadores também foram alvejados, sendo um dos mais notáveis Ngũgĩ wa Thiong’o, que foi detido sem julgamento em 1977, depois de performar em uma peça radical em Gikuyu com um grupo teatral da comunidade.
Quando Daniel arap Moi assumiu a presidência, em 1978, o Quênia caiu em uma ditadura de um partido, caracterizada por repressão severa, tortura generalizada, inclusive na infame casa Nyayo, e imposição de Programas de Ajuste Estrutural pelo FMI e pelo Banco Mundial, que privatizaram os ativos do Estado, piorando a desigualdade e debilitando ainda mais as já baixas provisões sociais que existiam no país.
A reintrodução da política multipartidária nos anos 1990 se provou uma ilusão. As elites se reconfiguraram com sucesso como uma série de facções competindo dentro da mesma classe compradora. De KANU e NARC a Jubilee e Kenya Kwanza, os partidos recém-estabelecidos foram usados para competir pelo controle do aparato estatal, frequentemente pela mobilização deliberada de identidades éticas, que serviam como divisões de material obscuro e fortalecer o poder da elite. Mesmo a celebrada Constituição de 2010, contendo reformas progressistas, se mantém capitalista em sua orientação. “A verdade é que os valores nacionais descritos na constituição”, diz o CPMK, “não podem ser percebidos sob o capitalismo, apenas sob o socialismo.”
Para quebrar o ciclo da dominação neocolonialista, o CPMK traçou um caminho revolucionário fundamentado na aplicação da teoria marxista-leninista às condições específicas do Quênia. Essa estratégia rejeita o caminho do reformismo. O estado neocolonial, forjado para sustentar a subordinação do Quênia ao império, não pode ser consertado. Ele deve ser derrubado e reconfigurado para servir ao Quênia e seus trabalhadores, camponeses e a crescente massa de pessoas vivendo e trabalhando informalmente nas cidades. O coração teórico dessa estratégia é a Teoria das Duas Etapas da Revolução, que diz que em uma sociedade semifeudal e neocolonialista como o Quênia, a luta deve proceder em duas etapas distintas, porém dialeticamente ligadas.
A primeira e imediata etapa é a Revolução Democrática Nacional (RDN). Essa é uma etapa democrática revolucionária cujo objetivo primário é a completa destruição do neocolonialismo e seus pilares domésticos. Suas metas incluem acabar com classe de proprietários e devolver a “terra a quem nela trabalha”; pôr fim à dominação imperialista, expulsando as forças militares estrangeiras e se libertando do controle financeiro do FMI e do Banco Mundial; e abolir o maquinário do estado neocolonial e substitui-lo por órgãos de poder do povo. O partido argumenta que pular essa fase ignora as realidades materiais do Quênia: a questão não resolvida das terras, o vasto campesinato como uma força revolucionária e o poder enraizado de uma classe compradora a serviço do capital estrangeiro.
Central à RDN está a luta para recuperar a soberania nacional. O CPMK define a soberania não como uma frase legal ou uma bandeira na ONU, mas como a capacidade material de um povo para controlar sua própria terra, trabalho, recursos e destino. A soberania do Quênia foi traída pela classe compradora na independência e continua a ser vendida por meio de dívidas, acordos comerciais desiguais e pactos militares. Recuperar a soberania é, portanto, uma precondição estratégica para embarcar no caminho da construção socialista. Sem o controle sobre a economia, os recursos e o Estado, qualquer tentativa de construir o socialismo seria controlada por potências estrangeiras.
A segunda fase na luta revolucionária é a Revolução Socialista. Essa etapa envolve a socialização dos meios de produção, o estabelecimento de uma ditadura do proletariado para defender a revolução de inimigos internos e externos, e a transformação compreensiva da sociedade para eliminar a pobreza, a desigualdade e todas as formas de opressão.
Essa estrutura em duas etapas é refletida no programa político do CPMK. O Programa Máximo do partido representa os objetivos finais do socialismo e do comunismo. Seu Programa Mínimo consiste nas metas democráticas revolucionárias da RDN, que não são demandas reformistas e sociodemocráticas, mas refletem ambições claras, necessárias para avançar pelas duas fases do processo revolucionário. Essa distinção é central para a teoria de mudança do CPMK e reflete sua relação com o poder eleitoral. Embora o partido possa participar de forma tática nas eleições, seu objetivo estratégico não é conquistar cargos no Estado neocolonial, mas utilizar o processo eleitoral para construir o poder organizado das massas.
O CPMK não surgiu do nada. Cresceu do que chama de “a longa linha do comunismo queniano”, uma tradição revolucionária enraizada na resistência anticolonial e forçada à clandestinidade por décadas. Essa linhagem remonta da ala radical e precursora da revolução dos Mau Mau, que aterrorizou a capital dos colonos e o núcleo imperial com suas demandas por redistribuição de terra e anti-imperialismo. Essa faísca foi levada adiante por figuras como Bildad Kaggia, nacionalista radical; Pio Gama Pinto, mártir marxista; e Oginga Odinga, que liderou a KPU, de tendência esquerdista. Após o assassinato de Pinto e o banimento da KPU, a organização da esquerda foi brutalmente reprimida, sobrevivendo apenas em formações clandestinas, como o Movimento 12 de Dezembro, e círculos de estudos socialistas que desafiaram a ditadura de Moi a um alto custo.
O partido como é hoje surgiu do Partido Social-Democrata do Quênia (SDP), formado depois da reintrodução da política multipartidária nos anos 1990. Por anos, o rótulo “social-democrata” foi uma concessão pragmática para um ambiente político imerso em anticomunismo. Mas, em 2019, o núcleo da esquerda do partido determinou que as condições estavam ideais para uma ruptura decisiva com o reformismo. Em seu 3° Congresso Nacional, o partido formalmente se tornou o Partido Comunista do Quênia (CPK). Isso marcou uma quebra definitiva das restrições das políticas e ideias social-democratas.
A reação do Estado foi rápida. O Órgão de Registro de Partidos Políticos recusou o registro do novo nome, dizendo que o Quênia “não poderia permitir partidos socialistas/comunistas". O partido revidou por meio de ação legal e mobilização pública, conquistando uma vitória histórica no tribunal em abril de 2019, que confirmou seu direito de existir e estabeleceu um precedente para o pluralismo ideológico no Quênia. A mudança subsequente no nome para Partido Comunista Marxista - Quênia (CPMK) foi uma consolidação ideológica a mais, afirmando sua fundamentação no marxismo-leninismo e sua aplicação às condições quenianas, e respondendo à crise em suas fileiras.
Nas eleições de 2022, dois altos dirigentes do partido, Mkandawire Mghanga e Benedict Wachira, referidos em documentos internos como “a gangue de dois”, traíram a posição oficial de não alinhamento do partido e declararam, unilateralmente, suporte à coalizão burguesa Kenya Kwanza. A maioria do partido rejeitou esse ato de “colaboração de classe” e embarcou em um extenso processo de autorreflexão e retificação para garantir mais disciplina e coerência em suas fileiras. A crise mostrou as fraquezas organizacionais herdadas do CPK, que levou a uma adesão em massa ao lutar contra a proibição do seu registro e estabeleceu o que chama de “fundação comprometida” com a liderança que tinha crescentes elementos da burguesia em suas fileiras. A divisão em 2022 e a mudança no nome do partido ajudaram a consolidar o CPMK em torno de um bloco de vanguarda disciplinado, cuja resolução foi testada nas contradições de lutas de classe internas.
Como um partido de vanguarda, o CPMK tem cinco tarefas primárias. Fortalecer a consciência do quadro por meio da educação marxista-leninista para que cada membro se torne um pensador, um organizador e um levantador. Organizar, estabelecendo células em fábricas, escolas, fazendas, universidades, acampamentos informais e comunidades diásporas. Levantar, levando a linha política a cada luta de massas, desde moradia e fome a gênero, opressão e falta de terras. Unir, construindo uma frente compartilhada de forças progressistas, sem diluir a liderança da classe trabalhadora do movimento. E preparar para crises mais profundas, para maior repressão e para a futura insurreição.
A força do partido de vanguarda é, portanto, determinada não apenas por sua ideologia e linha política, mas também por sua organização revolucionária, que deve ser capaz de institucionalizar e sistematizar o poder coletivo dos trabalhadores, dos camponeses e da população urbana vulnerável, transformando teoria em força material. O princípio organizador central do partido é o centralismo democrático, uma tradição fundamental na história dos partidos revolucionários. Ele se apoia em quatro pilares: democracia em discussão, permitindo total debate interno; centralismo em ação, exigindo que todos os membros defendam uma decisão uma vez que tenha sido feita; a minoria obedece a maioria; e os órgãos menores do partido obedecem os maiores. Essa estrutura tem o intuito de permitir a democracia interna genuína, que pode capitalizar o conhecimento e a sabedoria coletivas do partido e a ação unificada. O sistema é desenhado para prevenir o partido de ser paralizado pelo faccionalismo.
A ponte entre o partido e o povo é conhecido como linha de massa, um método de liderança feito de processos elaborados por Mao Zedong ao longo da Revolução Chinesa. A ideia e a prática da linha de massa reflete um processo de estudo dialético e contínuo da visão difusa e não sistemática do povo, sistematizando-os em uma linha política clara e retornando ao povo com uma linha capaz de unificá-los e liderá-los em uma luta política organizada. O processo de formular uma linha de massa é um ponto central na democracia socialista e assegura que a liderança do partido se baseie na realidade concreta dos oprimidos, prevenindo a burocratização dos quadros do partido e garantindo que as necessidades do povo guiem as ações e as teorias da luta mais abrangente.
Para institucionalizar seu trabalho, o CPMK criou braços organizacionais específicos. A Escola Ideológica Pio Gama Pinto (EIPGP) funciona como o “forno da educação marxista” e a “sede teórica da revolução”. É responsável por treinar os quadros no marxismo-leninismo, desenvolver materiais de educação bilíngues em inglês e suaíli e fornecer clareza teórica ao movimento. O partido também estabeleceu organizações de massa para liderar lutas em frentes específicas. Entre elas, estão inclusas a Liga de Mulheres Revolucionárias (LMR) e a Liga de Jovens Revolucionários (LJR). Essas ligas funcionam com relativa autonomia sob orientação política do partido, encarregadas com a mobilização de suas respectivas circunscrições eleitorais e treinamento das novas gerações de líderes.
O objetivo de toda essa estrutura é o desenvolvimento de quadro. O partido almeja forjar “guerreiros-eruditos”, militantes comprometidos e fundamentados na teoria, com raízes nas massas e endurecidos pela disciplina revolucionária. Isso é alcançado pela combinação do estudo teórico na EIPGP e da aplicação prática no calor da luta de classes, um processo com o objetivo de elevar a consciência do espontâneo para o organizado. A institucionalização demarca uma evolução crítica de uma rede informal de ativistas para uma organização madura com estruturas necessárias para sustentar e desenvolver uma luta prolongada.
Por si própria, a classe trabalhadora não consegue avançar na luta pela RDN. É necessária uma aliança estratégica mais ampla de forças progressistas entre todas as classes e estratos sociais que podem trabalhar juntos contra os inimigos primários do Estado: o imperialismo, a classe compradora e os proprietários de terras. Na tradição maoísta, o CPMK chama isso de Frente Unida. No coração dessa coalizão está a “aliança básica” entre a classe trabalhadora, a população urbana vulnerável e o campesinato, as classes mais exploradas do Quênia, cuja força combinada forma o suporte principal da revolução. O papel do partido é prover liderança ideológica e política a essa frente, garantindo que não decaia para um bloco populista pronto para ser manipulado pelos interesses da classe dominante.
Fundamentado em uma análise da estrutura de classes do Quênia, o CPMK inclui outras questões sociais em sua luta. Essas, o partido argumenta, são expressões integrais da luta de classes no contexto neocolonial do Quênia. Sobre a questão de gêneros, por exemplo, o partido rompe com as estruturas feministas liberais impulsionadas por ONGs e segue com o posicionamento de “feminismo proletário”. As mulheres trabalhadoras e camponesas quenianas enfrentam “opressão tripla”, como membros de uma classe explorada, como mulheres sob o patriarcado e como subordinadas de uma nação neocolonial. A LMR está encarregada de liderar essa luta, se dedicando a tudo, desde os direitos pela terra e salários iguais até o final da violência contra as mulheres, enquanto junta esses problemas à luta revolucionária contra o imperialismo e pelo socialismo.
Quanto aos direitos LGBTQIAP+, o CPMK combate a opressão enfrentada por seus colegas LGBTQIAP+ e reconhece esse problema como um produto das leis, do fundamentalismo religioso e das tradições patriarcais da era colonial que continuam a pesar na cultura e na sociedade quenianas. O CPMK rejeita a política da intolerância. Ao mesmo tempo, continua a criticar a “política de identidade” liberal, que fragmenta a união de classes, e o “capitalismo arco-íris” promovido por ONGs imperialistas, que mercantiliza a identidade enquanto mantém os sistemas de exploração intactos. Em outras palavras, o partido busca integrar a luta pela libertação de sexo e gênero a uma estrutura marxista-leninista, evitando as armadilhas da rejeição dogmática e da cooptação liberal.
Sobre a crise ecológica, o CPMK a vê como um componente inseparável de uma “guerra de classes” mais ampla e um produto direto da acumulação imperialista. O imperialismo é responsável por mais de 80% das emissões históricas de CO2 e, apesar disso, aqueles que sofrem o impacto mais severo são os camponeses africanos, não os proprietários europeus; são os pescadores de Lamu e do Lago Vitória, não os executivos de Wall Street; e a população urbana vulnerável em Mathare e Kibera, não os bilionários de Davos. O partido rejeita o greenwashing do capitalismo e as falsas soluções como o mercado de carbono, o que denomina como “imperialismo verde”, uma nova forma de controle colonial. Ao invés disso, convoca para a “Ecologia do Povo”, uma luta enraizada na linha de massa que liga o combate pela justiça ambiental à revolução agrária, à soberania alimentar e ao anti-imperialismo, demandando reparações ecológicas dos poderes imperialistas.
Finalmente, o partido mantém um forte comprometimento ao internacionalismo e ao pan-africanismo revolucionário. Rejeita o pan-africanismo inofensivo e sob liderança compradora de instituições como a União Africana, convidando, em vez disso, para a unidade continental fundamentada na luta pelo socialismo e contra o imperialismo. As correntes progressistas na diáspora queniana são vistas como uma separação estratégica da revolução, encarregadas da educação política, da organização e da construção da solidariedade. Esse trabalho internacional é coordenado por um Departamento Internacional do Comitê Organizador Central (DICOC), que cria laços com movimentos revolucionários pelo mundo, desde Palestina e Filipinas até Cuba e Venezuela.
A história da luta revolucionária africana foi marcada por traições e derrotas severas. Líderes que buscaram desenvolver estratégias de soberania nacional, de Pio Gama Pinto a Thomas Sankara, de Patrice Lumumba a Muammar Gaddafi, foram depostos e executados pelos poderes ocidentais trabalhando em conluio com as elites compradoras nacionais. Cada uma de suas lutas foram fundamentadas em organizações de massa que buscaram unir o povo em uma luta comum pela libertação e pelo socialismo. Em todo o continente, a luta sofreu um revés quando dogmas neoliberais criaram raízes e ONGs desmobilizaram o povo, transformando questões de libertação em apelos por reformas.
Mas a luta deve continuar. A África ainda é o continente mais explorado do planeta. Seus recursos são pilhados. Seu trabalho é desvalorizado ao ponto de sua destruição sistemática. Suas terras são roubadas. As dívidas impostas a suas nações minam suas capacidades de governar. Suas nações são ocupadas por militares estrangeiros agindo como garantidores dos interesses imperiais. ONGs e projetos de mídia e acadêmicos financiados pelo ocidente exercem poder significativo sobre países por todo o continente. Como consequência, as vidas do povo africano são tragicamente reduzidas, uma crise que as mudanças climáticas e a devastação ambiental ameaçam generalizar.
O CPMK, portanto, existe dentro de uma longa tradição histórica, que reconhece que a transformação revolucionária do Quênia, e das nações, são uma precondição para a sobrevivência e um resultado necessário das profundas contradições entre os oprimidos e seus opressores. O partido acompanha o fluxo da história, se construindo sobre os sucessos e os fracassos do passado para estabelecer o partido em cada local de trabalho, vila rural e assentamento urbano, aumentando a organização e a consciência das massas para chegar à vitória final.
