Dez dias depois da agressão imperialista contra a Venezuela, uma operação que culminou no sequestro do Presidente Nicolás Maduro e da Deputada da Assembleia Nacional e Primeira-Dama Cilia Flores, bem como na morte de mais de 120 pessoas, deixando dezenas de civis e militares feridos e causando significativo dano estrutural; temos alguns elementos que nos permitem analisar e tentar entender o que aconteceu, e compartilhar, na medida do possível, uma avaliação bastante geral.
É importante identificar os papéis desempenhados por cada ator envolvido nesse evento e avaliar as respostas nacionais e internacionais ao ocorrido que, de forma inegável, representa uma circunstância à qual o país nunca havia passado. Na verdade, nenhum país da América Latina e nenhuma capital da América do Sul foi alvo de uma operação militar tão brutal e direta pelo maior poder militar imperialista do mundo em mais de 200 anos. A doutrina internacional proíbe expressamente esse tipo de ato de guerra unilateral. Portanto, a escala do que aconteceu na Venezuela no dia 3 de janeiro ainda causa e continuará causando ampla repercussão. Também há muitas questões a serem esclarecidas. No entanto, é possível chegar a algumas conclusões.
A primeira é que esse representa o primeiro ato de aplicação da Declaração de Segurança Nacional (NSS, em inglês) anunciada há alguns meses pelo governo dos Estados Unidos e é uma prova clara de que a América Latina e o Caribe serão — e já são — os principais alvos da ambição imperialista. Essa ambição requer ação rápida para garantir o controle que daria a Washington uma vantagem sobre sua arquirrival China. O “Corolário Trump” da Doutrina Monroe desencadeou sua onda de violência e morte sobre a Venezuela, mostrando seu cinismo e sua frieza.
Como a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, ocupa uma posição geográfica e geopolítica central na margem norte do Mar do Caribe, além de possuir uma vasta gama de recursos estratégicos essenciais para o sistema capitalista global, especialmente para a guerra em curso, sendo o mais valioso espólio para a ambição colonial dos EUA. Um fato fundamental para compreender essa operação é o que significa derrotar um projeto político de soberania e autodeterminação que perdura há mais de 25 anos. Apesar de seus altos e baixos e suas contradições, tal projeto, junto a Cuba, representa a principal barreira que previne a região de ser completamente controlada pela agenda dos EUA.
O que aconteceu na Venezuela, portanto, foi de dimensões que são muito difíceis de quantificar no âmbito nacional, além da dor, da perda e do impacto causado na dinâmica interna do país. Trata-se de um país que, ao longo dos últimos três anos, mostrou altas taxas de crescimento e equilíbrio econômico, bem como paz e estabilidade institucional, condições que foram sentidas e valorizadas pela maioria da população. Aqueles de nós que estiveram na Venezuela nos últimos dias puderam vivenciar na pele o impacto de uma operação de tamanha magnitude em um país que estava calmo e em paz, e que nunca antes havia sofrido um ataque dessa escala. Compartilhamos esse sentimento de impotência e indignação. Internamente, as repercussões continuarão por um longo período, pois não será fácil digerir — na verdade, ter sido parte de — tal operação de agressão e terrorismo brutais que testemunhamos, como vivenciadas por Caracas e outras cidades na Venezuela.
Quem de nós que estava lá, principalmente os que vivem nas regiões que foram assoladas pelo ataque, sofreram não apenas perdas materiais, mas também profundos impactos psicológicos, emocionais e morais. A escala do que ocorreu é grande demais para esperar que, em apenas dez dias, tenhamos uma análise clara e, acima de tudo, séria do que o ataque representa e continuará a representar.
A segunda principal conclusão é que, apesar do governo venezuelano já esperar que uma operação militar aconteceria a qualquer momento, nunca previu que envolveria um ataque dessa magnitude: aviões, helicópteros, mísseis e drones atacando o coração da cidade de Caracas. Mais de 150 embarcações e aeronaves militares foram enviadas para dentro e fora do país. Todas as comunicações e os sistemas de defesa foram neutralizados, deixando milhões de habitantes da capital e de outras regiões efetivamente desprotegidas. Ainda não se sabe quantas unidades militares e de inteligência dos EUA foram mobilizadas para este ato de guerra contra um país adormecido. Todo esse cenário culminou no sequestro e na transferência do presidente da república e da primeira combatente para o território estadunidense.
Esse movimento, claro, moldou a resposta e a organização do governo nas primeiras horas do dia 3 de janeiro. Admito que havia muitas incertezas de como os eventos se desdobrariam e qual seria a reação. Entretanto, o governo não apenas se reorganizou internamente rápido, mas também agiu de acordo com os protocolos estabelecidos na constituição. Isso preveniu um vácuo no poder e permitiu que a Vice-presidente Delcy Rodríguez assumisse seu papel constitucional como presidente interina. Junto ao gabinete, ela adotou todas as medidas necessárias para garantir a continuidade do Poder Executivo, analisar a situação e agir imediatamente para manter o país funcionando e responder rapidamente ao impacto da violenta operação.
Como declaradas repetidas vezes pela presidente interina e por diversos porta-vozes do governo, as decisões precisavam ser feitas em tempo real. Algumas delas foram mal interpretadas ou não necessariamente aceitas ou completamente entendidas. Elas podem ser questionadas quanto ao seu impacto a longo prazo, mas a urgência para estabilizar o país e se preparar para evitar um novo ataque militar, que implicaria em mais mortes e danos impossíveis de mensurar à essa altura, fez com que a adoção de tais medidas fosse inevitável.
O governo tem três prioridades imediatas, declaradas claramente e visíveis por pessoas de dentro e fora do país. A primeira prioridade é restaurar a ordem nacional e prevenir uma segunda situação que poderia ameaçar a paz e a estabilidade da república. Essa tarefa é de responsabilidade da liderança da presidência e de diversos órgãos do Estado, das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas e da mobilização das forças sociais territoriais que apoiam o projeto bolivariano, representado por diferentes estruturas organizacionais ligadas à união cívico-militar-policial que existe por todo o país.
A segunda tarefa é assegurar a libertação dos reféns, o presidente da república e sua parceira, o que envolve entrar em uma negociação em que o sequestrador exerce influência sobre as vidas e as condições dos cativos, levando-o a tentar forçar o país a entregar o que quer. Em sua essência, essa situação é sobre a soberania pelo controle de recursos energéticos e da economia, um ponto repetidamente destacado por Trump e diversos porta-vozes do governo estadunidense. Todos os argumentos falsos sobre o combate às drogas e “narcoterrorismo” desapareceram e bem menos resquícios de qualquer pretensão de defender a democracia e os direitos humanos.
Isso significou que, todos os dias, a negociação exigiu concessões e a adoção de medidas para reduzir a pressão do inimigo, algumas das quais já haviam sido adotadas ou faziam parte do plano de negociações do Presidente Maduro com o governo Trump que tentava executar desde o ano passado. Tais esforços foram fundamentados na garantia de que o comércio de energia com os Estados Unidos não implicaria uma renúncia à soberania.
O governo venezuelano, desde Chávez, admitiu a necessidade de estabelecer um acordo de petróleo com os Estados Unidos que ofereceria garantias e segurança para ambas as nações, em um âmbito de respeito pela soberania e adesão ao direito internacional. No entanto, essa dinâmica foi interrompida a começar pelas medidas coercitivas unilaterais adotadas no primeiro governo de Donald Trump, em 2016, logo após a declaração do Presidente Barack Obama em 2015 de que a Venezuela constituía uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”.
Foram tais medidas que causaram e continuam a causar o maior dano à economia venezuelana, à capacidade de atender às necessidades de sua população e ao agravamento dos problemas sociais, muitos dos quais foram abordados durante os primeiros dez anos da Revolução Bolivariana. A migração massiva e o “êxodo” de milhões de venezuelanos não pode ser explicada sem a estratégia de “torcer o braço” e aplicar “máxima pressão” executada pelo imperialismo e seus colaboradores internos. O objetivo sempre foi dominar econômica e politicamente o país para controlar seus recursos estratégicos.
O que está acontecendo, em termos concretos, é que aqueles argumentos que outrora tinham potencial para serem implementados gradualmente estão, agora, em aceleração. Nada disso é diferente do que já estava em andamento, e isso é uma parte do que mudou nos últimos dias. A outra parte tem relação, como dissemos, com evitar uma agressão em larga escala e, principalmente, comprar tempo para prevenir não apenas o país, mas a região de ser alvo de um ataque ainda mais mortal. Tal ataque seria motivado pela ambição que agora domina a política e a posição dos Estados Unidos, uma ambição focada não só na Venezuela, mas também em Cuba e outros países na região.
Estamos enfrentando um regime imperialista e psicopata que mente, manipula e ameaça sem parar, 24 horas por dia. Isso é parte do que significa negociar com um inimigo que tem o maior poderio nuclear, com exércitos mais bem equipados e tecnologicamente avançados, como demonstraram na operação realizada na madrugada do dia 3 de janeiro. Evitar a ambição de aniquilar milhares de vidas e de destruir o país, além de acabar com o projeto político e social que foi construído ao longo de 25 anos, é parte das tarefas urgentes a serem realizadas.
Uma quarta missão envolve criar condições internacionais para evitar que o escalonamento da agressão avance. O governo interino assegurou importantes acordos em termos de solidariedade, não apenas com seus aliados tradicionais, como China, Rússia e Irã, mas também com governos regionais, cruciais para construir um amplo círculo de apoio, incluindo o Brasil, o México e a Colômbia. Envolveu também um certo nível de compromisso com os governos europeus e de outras regiões do mundo para estabelecer um quadro de alianças para enfrentar esse momento. A retomada de relações diretas com as missões diplomáticas da UE e com outros governos do Norte Global foi um evento que testemunhamos nos últimos dias, e não é pouca coisa dada a gravidade da situação.
Minha avaliação pessoal, depois de visitar a Venezuela em meados de dezembro e passar os dias durante e depois do ataque terrorista, vivendo e compartilhando tempo com família, amigos e pessoas que apoiam o governo, e com aqueles que se opõem ou não simpatizam de forma alguma com o projeto boliviano, me permite confirmar o amplo apoio aproveitado pelo governo da Presidente Interina Delcy Rodríguez. Qualquer dúvida ou incerteza inicial foi minimizada. Desde o dia 3 de janeiro, o chavismo, inicialmente modesto, mas crescendo intensamente nos dias seguintes, demonstrou sua capacidade de mobilização e iniciativa pela defesa do país.
Similarmente, desde as primeiras horas, houveram reações notáveis dos movimentos sociais, dos partidos políticos e de vários setores da sociedade, mobilizando um amplo apelo internacional à solidariedade com a Venezuela e à condenação anti-imperialista. Esse movimento continuou a crescer, inclusive nos Estados Unidos, onde o povo enfrenta os excessos autoritários e ditatoriais de Trump. Com o passar dos dias, mais movimentos e organizações estão se juntando às expressões de solidariedade, não apenas aqueles que defenderam a Revolução Bolivariana, mas também os que, por princípio e convicção, entendem que este momento é extremamente delicado e que a Venezuela não pode ser deixada à própria sorte.
Esse é um ato que deve continuar a ser tomado por todos aqueles que podem fazê-lo. Não é apenas uma missão para o governo, mas para todas as forças sociais e políticas dentro e fora da Venezuela. É uma tarefa e curto e longo prazo, pois evitar uma nova agressão, dado o que poderia ocorrer na Venezuela, também significa comprar tempo para prevenir operações em outros países, como Colômbia, México e Cuba, os principais que estão na mira dos falcões de linha-dura e daqueles que, impulsionados por uma obsessão anticomunista absurda, focam na ilha e sua revolução.
Como eu disse, ainda há muitas incertezas, mas também há certezas, e as certezas são: A Venezuela deve ser defendida por dentro e por fora; agora é o momento para a união; a atual liderança precisa de um voto de confiança; e nós precisamos enfrentar as narrativas que operam simultaneamente, tornando-nos desconfiados e receosos. O mais importante agora é como o povo venezuelano é defendido e protegido de uma nova agressão. Não é hora de desperdiçar tempo, recursos e energia em debates ou especulações, principalmente frente a uma operação cuja estrutura subjacente continua a ser a legitimação da agressão, da morte e do sequestro.
Portanto, este não é o momento de duvidar da responsabilidade que temos de defender o país, condenar a agressão, enfrentar o imperialismo e, principalmente, preservar a América Latina e o Caribe como uma zona de paz, pois isso é de interesse da Venezuela e de toda a região. O que está acontecendo na Venezuela e no Caribe pode muito bem ser um teste para determinar se a abordagem dos Estado Unidos dominará as ações do país no hemisfério. Se tal ambição obtiver sucesso e os objetivos por trás da operação forem alcançados, o destino do restante da região e, talvez, do mundo pode ser significativamente comprometido.
Hoje, a Venezuela está nas mãos do povo venezuelano, de sua liderança política e das forças democráticas que resistiram e que continuarão a resistir a qualquer nova agressão. O que ocorre em terras venezuelanas não é determinado pelos anúncios bombásticos e desconexos do Presidente Trump e de seus aliados, mas pelo povo da Venezuela e suas instituições. Contendo a guerra multiforme em sua dimensão cognitiva, ou seja, batalha sobre narrativas, verdade sobre percepção, é a missão mais urgente depois da dor, do banho de sangue, da fumaça e dos escombros. Defender a verdade sobre a Venezuela também é uma obrigação para aqueles comprometidos com o internacionalismo e a solidariedade para com o povo.
Esta é uma observação pessoal depois de ter estado na Venezuela, em Caracas, Barquisimeto e outros locais, conversando com muitas pessoas, passando tempo com amigos de dentro e de fora do governo, com ativistas e também com membros dos setores de oposição sobre como eles veem o momento que o país está vivendo. É uma tentativa de evitar que o furacão de eventos, a fragmentação da informação e a manipulação dos fatos ofusque nossa memória e apague nosso próprio entendimento deste evento histórico. Isso também pode ajudar a responder algumas perguntas e dúvidas de muitas pessoas de dentro e de fora do meu país que me pediram para avaliar.
Iván González Alvarado, professor de história e ativista internacional. 13 de janeiro de 2026
