Briefing

Newsletter da Internacional Progressista | No. 20 | Fissuras na Aliança? 

A cúpula da OTAN em Ancara, na Turquia, ocorreu em um cenário de escalada da guerra e de resistência crescente.
Na 20ª Newsletter da Internacional Progressista de 2026, além de outras notícias do mundo, nós olhamos para a mais recente cúpula da OTAN, que refletiu tensões crescentes na aliança transatlântica. Quer receber a nossa newsletter diretamente no seu email? Inscreva-se pelo formulário no final desta página.

Nos dias 7 e 8 de julho, membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reuniram-se em Ancara, na Turquia, para a sua cúpula anual. O encontro refletiu duas tendências conflitantes. Por um lado, os Estados-membros da OTAN vêm aumentando drasticamente os seus gastos militares e agindo com crescente beligerância no cenário global. Por outro, há marcas de divisões internas cada vez maiores e uma crescente resistência internacional. Qual tendência prevalecerá?

A Cúpula da OTAN realizada no ano passado em Haia resultou na declaração mais breve da história das cúpulas da organização. Seus cinco parágrafos concisos almejavam um consenso dentro de uma aliança cada vez mais incapaz de chegar a um acordo sobre sua missão fundamental e seu papel atual. Este ano, as divisões parecem ter se aprofundado. Os Estados-membros tiveram dificuldades para chegar a um acordo sobre o apoio à Ucrânia, não conseguiram encontrar um entendimento comum em relação ao Irã e, notadamente, a Espanha recusou-se a assumir o compromisso com a meta de 5% do PIB em gastos militares.

Em resposta, o presidente dos EUA, Donald Trump, reagiu com agressividade. Ele classificou a Espanha como um "parceiro terrível" e uma "causa perdida", e ordenou ao seu Secretário do Tesouro que cortasse todo o comércio com o país europeu, ao mesmo tempo em que resgatava sua pretensão sobre a Groenlândia—ameaçando, na prática, anexar o território de um aliado da própria OTAN. Apesar dessas ameaças, o Secretário-Geral da Organização, Mark Rutte, manteve-se tão subserviente e efusivo nos elogios a Trump que um jornalista acabou perguntando se aquela atitude tinha "algum efeito sobre [sua] autoestima".

Enquanto a Declaração da Cúpula de 2025 estabeleceu as bases para o aumento dos gastos militares em todo o bloco—definindo o mecanismo para elevar os gastos a 5% do PIB—a declaração deste ano concentrou-se na implementação. Os membros europeus da OTAN e o Canadá, segundo a Declaração de Ancara, aumentariam seus “investimentos em áreas fundamentais de defesa em mais de US$ 139 bilhões”.

O foco nos membros europeus e no Canadá—com a exclusão dos Estados Unidos—não foi acidental. O governo do presidente americano Donald Trump pressionou agressivamente por aquilo que gerações de líderes dos EUA defenderam: fazer com que a Europa e outros membros da aliança transatlântica assumissem uma parcela maior do ônus de manter o sistema imperialista. Até certo ponto, a estratégia de Washington parece ter funcionado. Como Rutte enfatizou repetidamente ao elogiar Donald Trump, os gastos estão aumentando. Washington fez a Europa voltar a amar a guerra. No entanto, essa escalada do militarismo traz perigos profundos e cobra um preço elevado.

Não se vislumbra um fim para a guerra contra o Irã. Enquanto líderes da OTAN se reuniam, Washington lançava sucessivas ondas de ataques—mais de oitenta alvos na primeira noite, cerca de noventa na seguinte—e reimpunha as sanções ao petróleo que havia suspendido brevemente; ao mesmo tempo, Trump declarava, durante a cúpula, que a trégua havia "terminado" e menosprezava a liderança iraniana nos termos mais grosseiros.

Enquanto isso, a guerra na Ucrânia, agora em seu quinto ano, continuou a escalar. Se há poucos anos, países como a Alemanha relutavam em enviar tropas à Ucrânia por receio de uma escalada, a OTAN atua agora como a retaguarda estratégica do esforço de guerra. A aliança forneceu a Kiev uma gama completa de armamentos avançados, estabeleceu instalações de produção de drones em todo o bloco e seus serviços de inteligência participam ativamente da seleção de alvos na infraestrutura crítica da Rússia. Hoje, vários Estados-membros da OTAN falam abertamente sobre a possibilidade de um confronto direto com a Rússia—enquanto aumentam o gasto militar e os esforços de mobilização em preparação. A Europa está marchando em direção à guerra e Washington pavimentou o caminho. Como o próprio Rutte admitiu recentemente: “A OTAN é uma plataforma para os Estados Unidos projetarem poder no cenário mundial”.

O custo recai, como sempre, sobre o povo trabalhador. A onda de rearmamento da OTAN deu às classes dominantes europeias um pretexto para finalmente desmantelar os restos da ordem social-democrata que vigorava desde a Segunda Guerra Mundial. Militarização e austeridade são dois lados da mesma moeda, e os efeitos já estão sendo sentidos em cortes orçamentários por todo o continente.

Este é um dos terrenos onde cresce a resistência à agenda militarista da OTAN. Em 14 de junho, nos dias que antecederam a reunião do Conselho Europeu para negociar o próximo orçamento de sete anos do bloco, milhares de pessoas marcharam por Bruxelas sob o lema "Sim ao bem-estar, e não à guerra". A marcha em Bruxelas foi o ponto central de uma semana de ações em todo o continente, da Espanha à Finlândia, da Grécia à Grã-Bretanha.

A cúpula enfrentou resistência na própria Turquia. Nas duas semanas que a antecederam, manifestações contra a OTAN—lideradas por sindicatos e movimentos anti-imperialistas—ocorreram em Istambul, Ancara e Esmirna, em protesto contra o aumento dos orçamentos militares e a expansão da aliança. As autoridades turcas responderam com repressão: o governo de Ancara proibiu todos os comícios, marchas e a distribuição de panfletos em toda a província durante a cúpula, ao mesmo tempo que deteve centenas de pessoas. A aliança que se autoproclama uma comunidade de “democracias maduras” reuniu-se atrás dos muros de ruas fechadas e de reuniões proibidas.

A marcha da OTAN rumo à guerra não é um sinal da sua força, mas da sua fraqueza. Ela reflete a resposta de um sistema imperialista em pânico, que sobreviveu aos seus dias e que procura salvar a sua hegemonia através da força bruta—matando trabalhadores no estrangeiro e empobrecendo-os internamente. É tarefa do movimento internacional ligar estas frentes: ligar o trabalhador em Bruxelas que defende a sua pensão ao povo do Irã sob bombardeio, e a luta contra a austeridade à luta contra a guerra.

Essa é a mensagem contida no slogan simples que agora percorre a Europa: “Sim ao bem-estar, não à guerra”—por um mundo organizado para a vida, não para a morte.

Últimas do Movimento

Do Quênia ao Paquistão, faça os poluidores pagarem

A Cooperativa de Trabalhadores Domésticos e Catadores de Materiais Recicláveis Mathare, no Quênia, declarou a sua solidariedade com os agricultores da província paquistanesa de Sindh que estão processando judicialmente a gigante do setor energético, a alemã RWE, e a produtora de cimento Heidelberg Materials. Os agricultores procuram compensação pelas terras e colheitas destruídas nas cheias catastróficas de 2022, que alegam terem sido intensificadas pelas emissões das duas empresas. Desde os aterros sanitários de Nairobi até aos campos inundados de Sindh, a sua exigência é a mesma: aqueles que lucram com a poluição devem pagar pelas suas consequências.

Khamenei é enterrado enquanto bombas dos EUA caem

Possivelmente no maior funeral da história mundial, milhões de pessoas encheram as ruas de Teerã em luto pelo Aiatolá Ali Khamenei, o Líder Supremo do Irã, assassinado na salva de abertura do ataque EUA-Israel contra aquele país, em fevereiro. Enquanto Khamenei era sepultado no santuário do Imam Reza, em Mashhad, bombas norte-americanas caíram, mais uma vez, sobre o Irã, atingindo mais de 80 alvos.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, declarou “acabado” o cessar-fogo garantido pelo Memorando de Entendimento, ao mesmo tempo em que chamou os líderes do Irã de “escória”. Uma delegação do Partido Haqooq-e-Khalq, membro da Internacional Progressista, juntou-se ao funeral, levando uma mensagem de solidariedade do Paquistão ao povo iraniano que resiste à violência imperial.

Os arquivos de Edi Rama

A Internacional Progressista, em colaboração com seus parceiros albaneses, publicou Os Arquivos Edi Rama. Construídos em torno de uma ordem judicial anticorrupção de 180 páginas que congela mais de 100 milhões de euros em bens (aprox. 590 milhões de reais), os arquivos ligam desenvolvimentos autorizados pessoalmente pelo primeiro-ministro Edi Rama a redes acusadas de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e fraude imobiliária. Enquanto dezenas de milhares de pessoas exigem a demissão de Rama, o dossiê expõe a economia política por trás dos protestos Flamingo que encheram as ruas de Tirana, capital da Albânia.

Cuba derrota tentativa dos EUA de impedir debate na ONU sobre o bloqueio

A Assembleia Geral da ONU votou, por 136 votos a 9, a favor de debater a crescente guerra econômica de Washington contra Cuba. A votação ocorreu após o vazamento de um telegrama diplomático revelando que o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, instruiu embaixadas a pressionar governos para que se opusessem à sessão, silenciassem países do Movimento Não Alinhado e advertissem os apoiadores de Cuba contra discursos que pudessem gerar "atrito" com Washington. Em vez disso, o órgão mais representativo do mundo votou mais uma vez, de forma esmagadora, ao lado de Cuba e contra o bloqueio ilegal que sufoca a ilha.

Nossa História

Operação Sofia: Em 8 de julho de 1982, o exército da Guatemala, sob o comando do general Efraín Ríos Montt, lançou a Operação Sofia. Com o apoio da administração Reagan, em Washington, o objetivo dessa brutal campanha de contrainsurgência era "limpar" as áreas indígenas maias de supostos comunistas. Juntamente com uma série de outras missões de terra arrasada, a Operação Sofia exemplificou o que Ríos Montt chamava de "guerra sem limites". Mais de 600 aldeias foram destruídas, milhares de pessoas foram assassinadas e outras milhares foram deslocadas. Leia mais.

Argélia: Em 5 de julho de 1962, o povo da Argélia conquistou sua libertação após mais de um século de domínio colonial francês. Após oito anos de guerra de guerrilha, a Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN) desferiu um duro golpe contra o imperialismo francês do qual este jamais se recuperaria. A França invadiu a Argélia em 1830, e a colônia rapidamente se tornou a "joia" da coroa do império. Forçado à dependência pelo subdesenvolvimento imposto pelo imperialismo, o povo argelino teve seus recursos naturais, suas riquezas e suas terras expropriados. Após 132 anos de domínio colonial, a Argélia contava com uma população de 9 milhões de habitantes, mas possuía apenas 500 graduados universitários e uma taxa de analfabetismo de 90%. Mais de cinco milhões de argelinos foram mortos pela bárbara ocupação francesa. Leia mais.

Voo 655 da Iran Air: Em 3 de julho de 1988, a Marinha dos EUA abateu um avião de passageiros iraniano no espaço aéreo do Irã, matando 290 pessoas—incluindo 66 crianças—que viajavam de Bandar Abbas para Dubai. Não houve sobreviventes. O voo 655 da Iran Air foi alvo de dois mísseis supersônicos guiados disparados pelo USS Vincennes. No entanto, autoridades do alto escalão em Washington jamais assumiram a responsabilidade pelo crime cometido por suas forças militares, e os EUA nunca divulgaram um relatório completo sobre o incidente. "Jamais pedirei desculpas em nome dos Estados Unidos. Não me importo com quais sejam os fatos", declarou o vice-presidente George Bush no mês seguinte.

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Arte da Semana

Os Kukryniksy—um pseudônimo coletivo formado pelos sobrenomes de Mikhail Kupriyanov, Porfiri Krylov e Nikolai Sokolov—foram os caricaturistas políticos mais proeminentes da União Soviética.

Eles trabalharam juntos a partir de meados da década de 1920—principalmente para os jornais Pravda e Krokodil—produzindo um vasto acervo de arte satírica. Alcançaram renome internacional graças às suas caricaturas contundentes do fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Apenas dois dias após o ataque alemão à União Soviética, eles produziram o cartaz "Derrotaremos e Destruiremos o Inimigo sem Misericórdia", uma das primeiras imagens antinazistas de ampla circulação da guerra. Ao longo do conflito, tornaram-se figuras centrais da arte política soviética, produzindo uma série constante de cartazes, charges de capa e outras obras que ridicularizavam Hitler e o colapso da Wehrmacht—trabalhos que lhes renderam o título de Artistas Homenageados da URSS em 1942 e diversos Prêmios Stalin.

A sua proeminência durante a guerra levou-os a Nuremberg em 1945, onde foram integrados à delegação da imprensa soviética como desenhistas de tribunais, trabalhando ao lado de correspondentes e colegas ilustradores de todo o corpo de imprensa aliado.

O cartaz de 1955, intitulado “O Comando Militar do Atlântico Norte”, mostra os principais generais nazistas, como Adolf Heusinger, que passou a desempenhar um papel proeminente na OTAN.

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Date
13.07.2026
Source
Progressive InternationalOriginal article
Progressive
International
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