Briefing

Newsletter da Internacional Progressista | No.  24 | Estrela da Liberdade no Oriente

No 80º Dia da Independência, jovens da Índia retomam a luta inacabada sobre qual é a finalidade da liberdade.
Na 24ª Newsletter da Internacional Progressista de 2026, além de outras notícias do mundo, nós comemoramos o 80º Dia da Independência da Índia traçando a promessa de liberdade desde o discurso de Nehru à meia-noite até aos jovens com máscaras de barata que forçaram o governo de Narendra Modi a recuar. Quer receber a nossa newsletter diretamente no seu email? Inscreva-se pelo formulário no final desta página.

Ao soar a meia-noite de 15 de agosto de 1947, a Índia "despertou para a vida e a liberdade", nas palavras de seu primeiro-ministro, Jawaharlal Nehru. Discursando na Assembleia Constituinte na véspera da independência, Nehru insistiu que os sonhos de independência "são para a Índia, mas são também para o mundo"—mirando uma ordem colonial que se estendia de Acra a Jacarta e que fez de Délhi, por uma geração, uma capital do Terceiro Mundo.

Nos últimos doze anos, o governo nacionalista hindu de Narendra Modi conduziu o enorme país — com uma população equivalente à da África e uma diversidade de idiomas e crenças que rivaliza com a da Europa — em uma direção muito diferente. Tribunais, meios de comunicação, autoridades eleitorais e órgãos de investigação foram transformados em instrumentos do partido governista; a violência contra minorias tornou-se a linguagem predominante do regime, com grupos de vigilantes policiando relacionamentos amorosos entre pessoas de religiões diferentes e com tratores demolindo casas e lojas de muçulmanos. Após três eleições nacionais, o Partido Bharatiya Janata governa 22 dos 31 estados da Índia—um aumento em relação aos sete de 2014—e conquistou a expansão mais recente este ano com a exclusão de 9,1 milhões de eleitores dos registros de votação. A Índia é classificada como uma "autocracia eleitoral".

No momento em que a Índia assinala o seu 80º Dia da Independência, a reivindicação mais crível da herança de Nehru encontra-se nas dezenas de jovens com máscaras de baratas pelas ruas da capital. O nome começou como um insulto: o Chefe de Justiça da Índia rotulou os protestantes de “baratas”, e os jovens agarraram a palavra e inverteram-na, formando o “Partido Janata das Baratas”—o partido de todos que o sistema trata como vermes.

Entre os graduados e graduadas de 25 a 29 anos, 20% estão desempregados. Em Jharkhand, meio milhão de pessoas candidataram-se recentemente a apenas 583 vagas no setor público. Mais de 600 mil indianos emigraram apenas no ano passado; os que permanecem enfrentam uma economia que, na verdade, é violentamente dividida em três pedaços: uma pequena parcela de 25 milhões de pessoas com padrões de consumo australianos; 200 milhões agarrados a uma classe média precária; e mais de um bilhão vivendo na pobreza. Uma pesquisa liderada por Thomas Piketty chegou a um veredito: o "Raj dos Bilionários" é agora mais desigual do que o Raj Britânico que vigorava anteriormente.

O que começou em junho como um acampamento pequeno e quase desorganizado, que exigia a renúncia do Ministro da Educação, transformou-se na maior revolta juvenil que a Índia presenciou em meio século. Cada ato de repressão estatal fez as multidões crescerem: a destruição do acampamento, a remoção forçada de um ativista em greve de fome e a ação da polícia, que agrediu manifestantes com cassetetes e disparou gás lacrimogêneo enquanto milhares marchavam em direção ao Parlamento. Durante oito semanas de verão, os protestos das "baratas" varreram Délhi.

O governo acabou por capitular e o Ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, renunciou—sendo esta a primeira vez em doze anos que Narendra Modi foi forçado, por protestos populares, a demitir um membro de seu gabinete. Para um regime construído sobre a pose de uma impunidade olímpica, essa rachadura na fachada é significativa.

Ao longo de mais de dois anos de genocídio em Gaza, à medida que Israel se isolava mesmo entre os seus aliados ocidentais, a Índia de Modi manteve-se resolutamente ao seu lado, numa aliança enraizada no parentesco ideológico entre o Hindutva e a direita etno-nacionalista de Israel, e cimentada nos interesses materiais das oligarquias de ambos os países. Gautam Adani, principal financiador corporativo de Modi, fabrica drones de reconhecimento Hermes com a Elbit Systems e armas de pequeno calibre com a Israel Weapons Industries, e pagou 1,2 bilhões de dólares por uma participação de 70% no porto de Haifa. O afastamento da Índia do Terceiro Mundo e o "dar as costas" à sua própria população pobre constituíram um movimento único.

Enquanto Modi constrói alianças ao redor do mundo, as "baratas" da Índia não estão sozinhas. No Sri Lanka, em 2022, um colapso econômico levou centenas de milhares de pessoas às ruas e ao próprio palácio presidencial. O que varreu a dinastia Rajapaksa e abriu caminho para o governo do Poder Popular Nacional, liderado pela esquerda, que assumiu em seguida. Em Bangladesh, em 2024, estudantes se rebelaram contra um fraudulento sistema de cotas para cargos públicos e, em questão de semanas, puseram fim aos quinze anos de governo de Sheikh Hasina. A juventude do Nepal seguiu o mesmo caminho em 2025.

Comentaristas em Deli recorreram às conspirações—uma “mão estrangeira”, uma “revolução colorida”—mas as condições que produziram Colombo e Dhaka existem na Índia numa escala muito maior. Os jovens instruídos, a quem foi prometida mobilidade e a quem foi proporcionada a miséria, vêm rebelando-se contra as famílias no poder e contra os partidos políticos amalgamados com o capital. A primeira batalha do movimento das baratas foi vencida; a guerra pela direção está por vir. A própria história da Índia mostra a energia das revoltas juvenis de 1974 fluindo tanto para a política de justiça social quanto, em última análise, para a direita hindu. Se a raiva desta geração será capturada pela oligarquia ou se voltará contra ela depende do trabalho de organização—dos sindicatos, movimentos e partidos.

A liberdade da Índia foi conquistada como parte de uma revolta mundial contra o império e serviu de combustível para movimentos anticoloniais de Acra a Jacarta. Estamos potencialmente trilhando um caminho com a mesma forma—unindo a energia que agora irrompe das ruas da Índia ao movimento internacional contra a oligarquia, a ocupação e o império.

Um quinto da humanidade vive na Índia; seu destino nunca seria apenas um assunto interno. Mantido por uma aliança de etno-nacionalismo e oligarquia—pós-fascismo em escala continental—o maior país do mundo tornou-se um pilar da reação global, de Washington a Tel Aviv. Mas se os jovens da Índia conseguirem direcionar tal reação para a igualdade e a dignidade em seu país, eles também carregarão consigo a possibilidade de alterar o equilíbrio da miserável ordem mundial.

Há oitenta anos, Nehru saudou "uma nova estrela... a estrela da liberdade no Oriente". Neste mês, nas ruas de Deli, ela voltou a brilhar. Nossa tarefa é mantê-la acesa.

Últimas do Movimento

Malásia retém contêiner com destino a Israel

A Malásia reteve, no Porto de Tanjung Pelepas, um contêiner de carga suspeito de ter como destino Israel, aplicando a proibição de exportações diretas e indiretas para o país. A campanha "No Harbour for Genocide" (Sem Portos para o Genocídio) identificou o contêiner como uma remessa destinada a uma instalação da fabricante israelense de armamentos Elbit Systems. O primeiro-ministro Anwar Ibrahim afirmou que a medida reflete os compromissos da Malásia como membro do "Grupo de Haia"—traduzindo o direito internacional em ações concretas para cortar as cadeias de suprimento que sustentam a ofensiva de Israel contra o povo palestino.

DSA desafia o ataque de Rubio à solidariedade cubana

O DSA (Socialistas Democráticos da América), membro da Internacional Progressista, prometeu continuar a organizar-se contra o bloqueio dos EUA a Cuba depois de um novo relatório do Departamento de Estado ter procurado retratar os movimentos socialistas, anti-racistas e de solidariedade à ilha como produtos de influência estrangeira. O DSA rejeitou a acusação como “racista e absurda”, observando que o próprio relatório admite que a organização não atua em nome do governo cubano. À medida que a administração Trump intensifica a pressão para a mudança de regime em Havana, o DSA comprometeu-se a defender o direito dos seus membros de se organizarem e de construir “um movimento de massas em solidariedade com todos os trabalhadores de todo o mundo que sofrem sob as botas do imperialismo dos EUA”.

Abahlali transforma o Mês da Mulher em um mês de luta

O Abahlali baseMjondolo—movimento sul-africano de moradores de assentamentos informais e membro da Internacional Progressista—transformou o Mês da Mulher ao homenagear as mulheres que se organizam em meio à pobreza, à violência e ao descaso do Estado, bem como aquelas que perderam a vida na luta por terra e dignidade. Ao relembrar ativistas assassinadas, como Nqobile Nzuza, Thuli Ndlovu e Nokuthula Mabaso, o movimento rejeitou celebrações simbólicas em prol de reivindicações concretas: segurança na posse da terra e moradia; acesso à água e à eletricidade; fim dos assassinatos políticos e da violência de gênero; trabalho digno e assistência à saúde; redução dos preços dos alimentos; e uma renda mínima garantida que permita viver com dignidade. "As mulheres pobres não pedem para ser celebradas", declarou a organização em um comunicado. "Exigimos segurança, moradia, ser ouvidas e estar vivas."

A esquerda do Quênia constrói o poder popular a partir das bases

A Aliança de Esquerda do Quênia (Kenya Left Alliance) convocou, nesta semana, Assembleias Populares em Mathare (Nairóbi) e Kisauni (Mombaça), como parte de seus esforços para construir estruturas permanentes de poder popular em todo o país. Em Mathare, moradores provenientes de todos os seis distritos locais reuniram-se no Parque Muthoni Nyanjiru para identificar demandas comuns e eleger lideranças locais encarregadas de levá-las adiante. Os participantes apontaram problemas como a falta de acesso à água, saneamento e moradia digna, o desemprego entre jovens e mulheres, a insegurança, bem como execuções extrajudiciais e sequestros—conectando as lutas cotidianas a um programa mais amplo de transformação social. As assembleias estão agora se expandindo para Kayole, Dagoretti e Ngong, à medida que a Aliança busca construir sua Agenda Popular a partir das bases.

Motoristas mulheres se organizam contra a exploração em Dar es Salaam

Na Tanzânia, a UWAWAMA—organização integrante da Internacional Progressista—deu continuidade ao seu programa de mobilização de base e formação política com motoristas mulheres em Dar es Salaam, reunindo integrantes para compartilhar suas lutas cotidianas e fortalecer a organização cooperativa. A atividade concentrou-se na resistência coletiva contra contratos exploratórios, condições de trabalho precárias e credores predatórios, ao mesmo tempo em que conectava a organização no local de trabalho à luta mais ampla contra a mercantilização dos serviços públicos essenciais. Por meio da formação política e do apoio mútuo, as motoristas estão construindo a solidariedade e a organização necessárias para enfrentar a exploração a partir da base.

Nossa História

8 de agosto de 1942 – Movimento "Quit India" (Saiam da Índia): Em 8 de agosto de 1942, o Congresso Nacional Indiano lançou o movimento "Quit India" em Bombaim, exigindo que a Grã-Bretanha deixasse o subcontinente imediatamente ou enfrentasse um movimento de massa pela descolonização. Poucas horas após o início do movimento, Gandhi e a maior parte da liderança do Congresso foram presos, os comitês da organização foram declarados ilegais e milhares de seus membros foram detidos. No entanto, o Congresso havia se preparado para a repressão. Greves, manifestações e ataques à infraestrutura do domínio colonial eclodiram por todo o país, no episódio que ficou conhecido como a Revolta de Agosto. Até o final de 1943, mais de 91.000 pessoas haviam sido presas e mais de 1.000, mortas. O vice-rei britânico descreveu o evento, em caráter privado, como "de longe a rebelião mais grave desde a de 1857". Cinco anos depois, após quase dois séculos de domínio britânico, a Índia conquistou sua independência.

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9 de agosto de 1971 - Operação Demetrius: Em 9 de agosto de 1971, as tropas britânicas lançaram a Operação Demetrius em todo o norte da Irlanda, prendendo centenas de republicanos irlandeses sem julgamento, numa tentativa de “chocar e atordoar a população civil” e esmagar a resistência ao domínio britânico. Nenhum paramilitar leal foi detido na investida inicial. Catorze internos—os “homens encapuzados”—foram sujeitos a técnicas de tortura utilizadas nas campanhas coloniais de contrainsurgência da Grã-Bretanha. Mas o internamento provocou resistência: as comunidades ergueram barricadas, dezenas de milhares de pessoas aderiram a greves de arrendamento e os trabalhadores abandonaram o local em Derry e Belfast. Em vez de pacificar o norte da Irlanda, a Operação Demetrius aprofundou o conflito e expôs os métodos coloniais no cerne do domínio britânico.

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13 de agosto de 1926 – Nasce Fidel Castro: Em 13 de agosto de 1926 nascia o revolucionário cubano Fidel Castro. “Quando ele conversa com as pessoas na rua, elas o chamam de Fidel”, escreveu Gabriel García Márquez. “Dirigem-se a ele de maneira informal, discutem com ele, reivindicam-no. É então que se descobre o ser humano singular que o reflexo de sua própria imagem não nos deixa ver. Esse é o Fidel Castro que acredito conhecer.”

Esse era o “ser singular” que, das montanhas da Sierra Maestra às planícies do sul de Angola, jamais se furtou à luta pela libertação. O Fidel que sobreviveu a mais de 600 tentativas de assassinato para construir o socialismo em uma pequena ilha do Caribe, a apenas 90 milhas do coração do imperialismo. O Fidel que abominava a iconografia, recusava reconhecimentos e, quando perguntado sobre o que mais desejava fazer neste mundo, respondia imediatamente: “ficar parado numa esquina”.

Hoje, enquanto o governo Trump se prepara para invadir Cuba, o centenário de Fidel ganha importância especial. Ele nos lembra que, apesar da guerra nas sombras travada por Washington ao longo de décadas, a Revolução Cubana perdura.

Para marcar o centenário de "El Comandante", o Workshop da Internacional Progressista lançou um pôster comemorativo de edição limitada. Toda a renda obtida com esse produto de qualidade museológica apoiará nossas campanhas internacionalistas.

Arte da Semana

Dividing Line (2001) é uma xilogravura da artista indiana Zarina que retrata a natureza dolorosa e arbitrária das fronteiras, especificamente a Linha Radcliffe desenhada em 1947 para dividir o subcontinente indiano em Índia e Paquistão.

A obra retrata uma linha preta recortada esculpida em papel feito à mão, representando a fronteira que a artista experimentou em primeira mão, quando sua família foi deslocada e forçada a migrar da Índia para o Paquistão durante a Partição. Sua escolha artística de retratar a linha como uma ferida áspera, sangrenta e irregular, em vez de uma linha reta, enfatiza a violência dessa divisão.

Ao representar a linha sobre um fundo vazio e sem marcas, Zarina também evidencia a arbitrariedade do traçado de fronteiras políticas—realizado por um advogado britânico que jamais havia visitado a Índia e que, por vezes, dividiu aldeias e casas ao meio. O processo de criação minucioso, no qual ela "escavava" os espaços de ambos os lados da linha para formar a fronteira, tem sido interpretado como uma metáfora para as profundas cicatrizes deixadas nas pessoas e na terra, desafiando a ideia de que o ajuste de fronteiras possa ser um ato simples.

Available in
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Date
17.08.2026
Progressive
International
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