Muitos podem dizer, friamente, que é assim que funciona a guerra e que Filogringo é um campo de batalha no conflito atual, envolvendo a Frente 33 da extinta FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o Exército colombiano e o Exército de Libertação Nacional (ELN).
Mas essa é apenas uma parte da história. Filogringo e as áreas ao seu redor são ricas em recursos naturais que, há quase um século, despertam a cobiça dos mais poderosos — tanto em âmbito nacional quanto internacional. Há noventa anos, o povo de Catatumbo tem defendido seu território. E isso não se deve apenas à situação atual, nem exclusivamente aos confrontos entre as partes envolvidas no conflito.
O que representa o território que o povo de Filogringo está defendendo?
Um dos moradores explica da seguinte maneira: ‘Quando mencionamos nosso território, não estamos pensando em um pedaço específico de terra, mas em toda a região de Catatumbo. Porque a cultura, o amor das pessoas e a fraternidade são uma coisa só. Todos estão dispostos a colaborar, ajudar, construir e criar alternativas que nos permitam permanecer aqui.’
Outro líder dessa comunidade profundamente afetada compartilha:
‘Defendemos nosso território porque estamos em uma luta constante aqui: uma luta pela água, pelas montanhas, por tudo. Criamos tantas coisas neste território e defendemos essas conquistas. Construímos escolas e postos de saúde; construímos estradas e pontes para veículos — tudo com nosso próprio dinheiro, vindo das comunidades. Tenho orgulho de ser agricultor em Catatumbo porque sabemos cultivar nossas plantações sem tecnologia. Sabemos plantar cacau, quando podá-lo, como cultivar bananeiras e quando plantar milho e feijão. Os mais velhos nos ensinaram tudo isso, e tudo isso é o que significa construir nosso território.’
Por fim, explicam que defender seu território significa defender sua história:
‘Em 1987, eu tinha 16 anos. Em nossas comunidades, não tínhamos nada: não havia estradas, eletricidade nem escolas. Então, nós, as lideranças da região nordeste, decidimos que precisávamos elaborar uma lista de reivindicações para apresentar ao governo colombiano. Com isso, aderimos à greve do nordeste. Eu era muito jovem, mas escrevemos aquela lista à mão e depois a datilografamos, e participamos das greves. Foi então que o governo começou a matar as lideranças. Conheci um jovem, de cerca de 27 anos, a quem chamavam de Camaleón (o Camaleão) por causa de uma doença de pele. Ele morava na comunidade vizinha de San Luis. Certa manhã, o exército chegou ao campo de futebol e, da maneira mais cruel possível, o castrou. Levaram-no para debaixo da Ponte Cajón, onde corria um rio de sangue; o jovem sangrou até morrer. Sua memória faz parte do nosso território.’
Não se trata simplesmente de defender um pedaço de terra, mas de defender — diante da barbárie — aquele território que definiu toda uma tradição e um modo de vida como comunidade. Trata-se de defender esse lugar onde ainda estão sendo construídos sonhos e projetos para uma vida digna.
Os ativistas de Filogringo têm clareza sobre quem precisam enfrentar: o Estado colombiano.
‘Atualmente, tenho 58 anos. Comecei a participar da Junta de Ação Comunitária quando tinha 14 anos. Desde então, entendi que o território é algo que precisa ser defendido. Precisamos defendê-lo de um Estado que sempre nos manteve marginalizados e negligenciados. Esse mesmo Estado criou o paramilitarismo como um aparato repressivo para expulsar as pessoas de suas terras, com a clara intenção de entregar toda a região à indústria mineradora.’
Quando os moradores de Filogringo falam do Estado, não estão se referindo apenas ao aparato institucional, mas a tudo o que ele representa, promove e defende: o paramilitarismo e a desapropriação.
‘Outros países, como os Estados Unidos, querem tomar nosso território. É por causa dos minerais, do petróleo, do carvão, do ouro, dos elementos de terras raras, da madeira e da água’, explica um líder comunitário.
E é precisamente daí — dessa perspectiva ideológica — que surge a disputa pelo território: a ideia de que o território é definido pelos recursos naturais disponíveis para serem saqueados, em vez de pela cultura do povo, por suas necessidades e por sua luta.
A história da região mostra como isso levou repetidamente a massacres e deslocamentos forçados.
‘Na década de 1930, empresas petrolíferas norte-americanas chegaram e expulsaram o povo Barí de seu território. Elas organizavam grupos de caça com cães para sair à procura deles e persegui-los, e isso era legal. Posteriormente, um alemão se estabeleceu aqui, derrubou as florestas e deu à nossa aldeia o nome de “Filogringo”. Nessa ocasião, as forças militares colombianas também chegaram para expulsá-los. Mas não conseguiram matar todos os Barí; eles ainda estão aqui.’
Então veio o paramilitarismo — entendido como uma política ou estratégia de Estado — exatamente como afirmou o morador citado anteriormente. Outro residente relembra aquele período:
‘Eles chegaram entre 2000 e 2001 e afirmaram que as pessoas que viviam do outro lado do rio eram guerrilheiras e que qualquer pessoa que atravessasse a ponte seria um alvo militar. Eles massacraram várias pessoas. O governo deveria nos defender, mas os paramilitares entraram junto com as forças de segurança e seu aparato repressivo. Helicópteros e aviões bombardearam e dispararam rajadas de tiros do alto, enquanto os paramilitares, em terra, reuniam as pessoas, massacravam-nas e as obrigavam a fugir. Eles atearam fogo em quase todas as casas da cidade. Permaneceram em Filogringo por quatro anos. Pouquíssimos moradores permaneceram. As famílias que ficaram tiveram que prestar serviços para eles — levando mantimentos e coisas do tipo —, não com a intenção de fazer o trabalho sujo deles. Alguns foram para Bogotá, outros se espalharam por diferentes cidades da região e outros ainda buscaram asilo no Canadá. O tecido social foi destruído. Só alguns anos depois conseguimos repovoar Filogringo e reconstruir nossa Junta de Ação Comunitária com o apoio do movimento social CISCA (Comitê de Integração Social de Catatumbo). Chegamos até a criar o Festival da Vida Camponesa no Território de Catatumbo, que celebrávamos ano após ano; com os recursos arrecadados, conseguimos comprar uma propriedade rural em nome de toda a comunidade. Também conseguimos fazer com que o governo nos indenizasse pelo que sofremos durante a incursão paramilitar’ [1].
O paramilitarismo não é uma entidade claramente definida que possa ser facilmente identificada, nem um grupo que simplesmente sofra mutações ou mude de nome para sobreviver e se expandir para novos territórios. Como política de Estado e estratégia de contrainsurgência, ele não desapareceu, mas foi reinventado: passou dos massacres de grande escala e visíveis das décadas de 1980 e 1990 para uma forma de controle social muito mais silenciosa, sofisticada e clandestina. Hoje, o braço operativo do Estado colombiano é chamado de Frente 33 do Bloco Magdalena Medio do Estado-Maior dos Blocos e Frentes (EMBF, em espanhol). A população tem poucas dúvidas sobre quem está lançando drones contra suas casas.
O fato de seu território estar militarizado desde 2025, quando o governo de Petro declarou estado de emergência interna, e, ainda assim, essa força nunca ter sido atacada, diz muito sobre a relação entre eles. E, embora, do ponto de vista militar, fosse de se supor que o principal alvo seria o ELN, tudo parece indicar que, na realidade, o alvo tem sido a população.
No dia anterior ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que resultou no sequestro de Nicolás Maduro, o então presidente Petro declarou que Filogringo era uma ‘zona simbólica do narcotráfico e do controle do ELN’. Na mesma declaração, acrescentou: ‘Até o último dia do meu governo e para além dele, vou me empenhar para que o Caribe seja uma zona de paz e para garantir que o povo da Venezuela encontre uma solução política para suas divergências e realize um referendo constitucional.’ Ele anunciou que ‘o Exército já entrou em Filogringo sob minhas ordens’.
Essa combinação de palavras e ações levantou suspeitas sobre o papel do governo progressista no jogo de xadrez geopolítico e contribuiu para a estigmatização histórica dos moradores da cidade.
Mas o governo de Abelardo De la Espriella deu um passo ainda maior. Três dias após assumir o cargo de chefe de Estado da Colômbia, poucas horas antes do início da emergência humanitária nacional provocada pelo terremoto cujo epicentro se localizou na região sudoeste do país, De la Espriella ordenou o bombardeio do povoado vizinho de Sinaí. Três camponeses ficaram feridos, entre eles uma mulher de 44 anos, e posteriormente foi revelado que um menino de 16 anos morreu em decorrência do ataque. Uma casa foi destruída e a população foi deslocada.
O governo informou que dois combatentes do ELN foram mortos, mas o que mais chama a atenção no ataque são os danos causados à população civil.
Um camponês de Filogringo reflete sobre os acontecimentos:
‘Eles estão bombardeando as casas dos camponeses. Isso nos leva a acreditar que pode haver uma conivência entre os militares e eles [Frente 33] para continuar matando os moradores.’
Enquanto isso, os ataques com drones continuam sem trégua, e os danos causados às casas e às famílias aumentam a cada semana. Por exemplo, na semana retrasada — dez dias antes da posse de De la Espriella —, a casa do presidente da ASOJUNTAS (Associação das Juntas de Ação Comunitária), a mais alta autoridade de base da região, foi atacada.
Considerando que os drones são altamente precisos, seria ingênuo pensar que esse ataque foi uma coincidência. Outro líder comunitário explica: ‘Eles usaram tecnologia para mapear cada povoado. Com o GPS, já identificaram exatamente onde ficam nossas casas. Eles sabem onde meu pai mora, onde meu filho mora, onde minha família mora. Isso nos preocupa enormemente em relação à nossa capacidade de permanecer no território hoje.’
Em segundo lugar, o uso de substâncias químicas nocivas como parte da guerra contra o cultivo de coca representa uma ameaça real aos moradores de Filogringo e de toda a região. Durante sua campanha eleitoral, De la Espriella falou sobre o uso de ‘bioherbicidas de última geração’ e, em seu discurso de posse, reiterou que seria utilizado um herbicida ‘que não cause danos, não viole a decisão da Corte Constitucional e não prejudique o meio ambiente’. Tudo indica que o glufosinato de amônio será o substituto.
No entanto, segundo o diretor do Indepaz, Camilo González, pesquisas mostram que ‘o uso do glufosinato pode bloquear as enzimas que permitem aos seres humanos eliminar a amônia do organismo. A intoxicação grave está associada a convulsões, perda de memória e coma. Há também o risco de anomalias no desenvolvimento fetal e problemas de fertilidade.’ Ele acrescenta: ‘Pode causar graves queimaduras químicas em caso de contato com a pele e os olhos. Além disso, nos ecossistemas aquáticos, é extremamente tóxico para peixes e plantas aquáticas se chegar aos rios. Também pode alterar o comportamento dos insetos, destruir larvas de abelhas, reduzir a cobertura vegetal e acelerar a erosão. Em animais domésticos, a ingestão pode causar tremores, sufocamento e vômitos, enquanto o contato provoca queimaduras.’ [2].
Além disso, De la Espriella revogou, na segunda semana de seu mandato, a resolução de 2015 que suspendia o uso do glifosato.
Um líder camponês de Filogringo ilustra a ineficácia desse herbicida na erradicação da coca:
‘O glifosato nem sequer prejudica a coca. Eles fazem a pulverização e, seis meses depois, já estão colhendo novamente. Mas, se o veneno atinge uma planta de cacau ou café, essa realmente morre. Se atinge uma plantação de mandioca, você não pode mais comê-la.’ Ele acrescenta: ‘O glifosato, além de contaminar a água, é cancerígeno. Por isso, é proibido nos Estados Unidos, onde é produzido. Eles estão vindo novamente para fazer experimentos em ratos de laboratório — e, neste caso, os ratos de laboratório continuam sendo nós.’
Abelardo De la Espriella prioriza a extração de hidrocarbonetos e a mineração como motores do desenvolvimento. Ele afirmou isso repetidamente e iniciou um processo de flexibilização das poucas restrições ambientais e legais que existiam durante a administração anterior. A promoção do fraturamento hidráulico é apenas a ponta do iceberg do que sua política de hidrocarbonetos e mineração poderá representar.
Um líder comunitário explica o que isso significa para eles:
‘Hoje, há apenas um obstáculo no caminho deles para extrair esses recursos: nós — as lideranças que sempre se opuseram à exploração dos recursos naturais na região. Somos a força de resistência a esse plano de enriquecer às custas dos camponeses. Isso faz de nós um alvo para eles.’
‘Neste momento, para nós, em Filogringo, defender o território significa sacrificar até mesmo nossas próprias vidas’, reflete um líder camponês, com coragem e realismo. ‘Apesar das adversidades, todos os dias acordamos animados e com vontade de seguir em frente. Seguir em frente significa continuar produzindo, embora a agricultura seja perigosa porque existem campos minados e “aqueles que ficam perambulando por aí e não querem que estejamos aqui”. Enfrentamos desafios logísticos, problemas de transporte, altos custos de produção e dificuldades de comercialização — mais do que o habitual. Mas continuamos trabalhando a terra.’
As lideranças também falam da necessidade de defender sua cultura em um contexto no qual até mesmo os costumes mais inofensivos se tornaram perigosos:
‘Sempre respeitamos o luto. Se um irmão, pai ou filho morresse, você usaria preto por cerca de dois anos — tudo preto. Mas hoje não podemos nem usar uma camisa preta, porque somos apontados como guerrilheiros apenas por causa de uma simples blusa preta.’
Eles acreditam que é necessário fortalecer a coordenação entre as comunidades, promover a solidariedade nacional e internacional, construir uma rede de defesa contra possíveis processos judiciais e organizar a mobilização social com mecanismos de autoproteção diante de um governo que ameaça reprimir duramente qualquer pessoa que planeje protestar. Além disso, sabem que, embora De la Espriella conte com forte apoio do império estadunidense e de muitos governos que aderiram ou sucumbiram à onda de fascistização no continente, também há pessoas acompanhando de perto sua agenda e a situação dos direitos humanos na Colômbia.
Por esse motivo, denunciar as violações dos direitos humanos desempenha um papel fundamental em suas estratégias de autoproteção. Também é importante manter viva a memória do que a comunidade enfrentou historicamente e fortalecer o Comitê das Tecelãs — um grupo de sobreviventes de incursões militares e paramilitares que se tornou o núcleo organizador da memória histórica.
Por fim, defender o território significa manter e revitalizar a organização social — uma tarefa difícil diante das bombas que caem quase todos os dias.
‘Este é um momento crucial para nos organizarmos melhor e compreendermos profundamente o que está por vir, porque é como quando você joga uma partida de futebol: se estudar o adversário, sabe como enfrentá-lo. Continuamos totalmente comprometidos em ajudar a comunidade. Eles não conseguiram quebrar nosso espírito’, explica uma liderança da ASOJUNTAS.
As lideranças comunitárias e os moradores de Filogringo, que enfrentam uma realidade tão dura que os mantém constantemente à beira da vida e da morte, são um exemplo de tenacidade, força e coragem para outras comunidades da Colômbia e da América Latina que lutam para defender seu território e criar formas alternativas de vida, desafiando os poderes que controlam o mundo.
Em 2007, o Conselho de Estado decidiu a favor da comunidade, que argumentou que o Estado havia falhado em protegê-la dos grupos paramilitares, e 537 moradores receberam uma indenização de 13.000.000 de pesos colombianos (COP).
[EDITORIAL JUDICIAL. ‘Glufosinato: o herbicida que poderia substituir o glifosato — e já está causando preocupação.’ El Espectador [online]. 28 de agosto de 2026. [Acessado em 2 de setembro de 2026].](https://www.elespectador.com/judicial/glufosinato-el-herbicida-que-podria-reemplazar-al-glifosato-y-que-ya-genera-dudas/)
O Pueblos Legal Team é uma organização de direitos humanos.
