Muitas notícias circularam em várias plataformas de mídia globais após relatos de que milícias afiliadas a Erik Prince — o bilionário estadunidense fundador da infame empresa de serviços militares terceirizados Blackwater, que tem um histórico de abusos e assassinatos em vários países do Sul Global — sofreram perdas significativas em campo no leste da República Democrática do Congo. Isso ocorreu após uma emboscada que resultou em pelo menos 20 vítimas, entre mortos e feridos, incluindo Tim Kennedy, um famoso atleta do UFC e ex-soldado das Forças Especiais do Exército dos EUA.
Erik Prince é um empresário estadunidense e ex-membro da SEAL da Marinha dos EUA que fundou a Blackwater em 1997, transformando-a em uma das empresas de mercenários militares mais famosas do mundo. Ele aproveitou a crescente dependência das forças armadas dos EUA de empresas militares e de segurança privada para fornecer serviços pagos de combate e segurança. Formado no Hillsdale College, uma instituição religiosa conservadora, ele mais tarde serviu nos SEALs da Marinha dos Estados Unidos. Sua carreira ilustra a interseção entre os interesses capitalistas privados e a expansão militar dos Estados Unidos, em que as guerras e as intervenções militares se tornam empreendimentos lucrativos. Depois de vender a Blackwater em 2010, Prince continuou suas operações por meio de outras empresas e redes, incluindo o Frontier Services Group, que se expandiu para a prestação de serviços de logística e segurança para projetos comerciais e de mineração na África. Nos últimos anos, ele se diversificou por meio da Vectus Global, cujas atividades na RDC expandiram da coleta de receitas de recursos minerais para o fornecimento de apoio operacional ao exército congolês.
Sob o governo do presidente Felix Tshisekedi, uma tentativa documentada de recrutar contratados militares estrangeiros (mercenários) remonta a 2023. Na época, a milícia M23, apoiada por Ruanda, estava avançando no território da província de Kivu do Norte, e o governo estava buscando maneiras de fortalecer suas capacidades militares e proteger as áreas de mineração no leste. Nesse contexto, foi retomado um plano para trazer cerca de 2.500 contratados militares da Colômbia, do México e da Argentina para deter o avanço dos rebeldes e proteger as regiões ricas em minerais. Os preparativos incluíram a instalação de quartéis em Mubambiro, perto de Sake e próximo a um campo de treinamento da empresa de segurança Congo Protection, para receber o primeiro grupo no final de julho de 2023. Os contêineres com os equipamentos chegaram ao local naquele mesmo mês. Erik Prince liderou as negociações para o envio desses contratados estrangeiros, parte de um plano fortemente promovido por Kahumbu Bula Mandungu, conhecido como "Kao", um conselheiro do presidente Tshisekedi, em meio a relatos que ligam o esquema a acordos entre Kinshasa e Abu Dhabi. Por fim, o projeto parou e os contratados latino-americanos nunca chegaram à RDC.
Prince retornou ao cenário congolês por um caminho aparentemente diferente no final de 2024, firmando um acordo com o governo do Congo para melhorar a arrecadação de receitas públicas do setor de mineração e combater o contrabando de minerais em áreas ricas em cobre e cobalto. O governo assinou um contrato de cinco anos com Prince por meio de uma rede de empresas de fachada. Em junho de 2025, a Quantum Global Consulting, uma empresa sediada nos Emirados Árabes Unidos e vinculada a Prince, registrou uma subsidiária na RDC, a Quantum Global Consulting Africa, para atuar como sua representante legal. Essa subsidiária, então, registrou a Vectus Global como uma pessoa jurídica local. O contrato com o Ministério da Fazenda congolês incluía um mandato financeiro para aumentar as receitas do governo provenientes das indústrias extrativas, ao mesmo tempo em que controlava o contrabando, a corrupção e a sonegação de impostos. No entanto, o contrato também continha um componente militar secreto: aconselhar as Forças Armadas congolesas, prover suporte tático aéreo e recrutar militares estrangeiros. O contrato foi avaliado em aproximadamente US$ 700 milhões ao longo de cinco anos.
O plano inicial envolvia o envio de cerca de 100 consultores e especialistas técnicos para monitorar as operações e as receitas de mineração, começando pelas grandes minas e, depois, expandindo-se gradualmente. O objetivo era melhorar a supervisão da produção e das exportações e garantir o cumprimento do código de mineração congolês. A prioridade era a região de Catanga, particularmente em torno da cidade de Kolwezi, centro da indústria de cobre e cobalto. Esta área ficava longe das principais zonas de combate onde a milícia do M23 operava no Kivu do Norte.
Um importante marco ocorreu no final de 2025 e no início de 2026, quando a guerra no leste do Congo se intensificou, espalhando-se para áreas estratégicas no Kivu do Sul. Isso ficou evidente após a milícia do M23 tomar Uvira, uma cidade importante na fronteira com o Burundi, às margens do Lago Tanganica. O ato representou uma grave ameaça ao governo de Kinshasa. Em resposta, Erik Prince, por meio da Vectus Global, enviou uma equipe para apoiar o exército congolês na região. A missão envolveu o uso de drones e o fornecimento de apoio operacional às forças governamentais, marcando a primeira participação conhecida das forças de Prince em operações de combate na linha de frente na RDC.
A atividade militar de contratados estrangeiros no Congo não se limitava aos americanos. Assessores militares israelenses trabalharam em coordenação com Prince, participando do treinamento de dois batalhões das Forças Especiais congolesas para operações diurnas e noturnas. Contratados de El Salvador, em sua maioria ex-militares e policiais, também foram recrutados. Um relatório de julho de 2026 do Critical Threats Project observou que, em abril daquele ano, o governo congolês anunciou o compromisso dos Emirados Árabes Unidos de ajudar a financiar o treinamento de uma força paramilitar com mais de 20 mil integrantes, supostamente para proteger as minas no sul. Dois meses antes, os Emirados Árabes Unidos enviaram uma delegação governamental e comercial à província de Lualaba, realizando reuniões em Kolwezi com autoridades dos setores de mineração, energia e infraestrutura, que culminaram no anúncio de 16 Memorandos de Entendimento em diversas áreas.
Prince é um fervoroso apoiador de Donald Trump, e as atividades de sua empresa no Congo estão intimamente ligadas aos objetivos econômicos e de segurança de Washington. Suas forças foram mobilizadas em um momento em que o governo Trump buscava vincular a cooperação econômica e de segurança com Kinshasa à garantia de um acesso mais amplo para as empresas americanas ao setor de minerais essenciais. Isso foi apresentado como um esforço para combater a influência chinesa, e não como um esforço genuíno para derrotar o M23 ou conter as ambições do presidente ruandês Paul Kagame. Em 2 de março de 2026, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou as Forças de Defesa de Ruanda e quatro de seus altos funcionários. Em 25 de junho do mesmo ano, sancionou uma refinaria de ouro ruandesa e uma rede acusada de contrabando de minerais do território congolês controlado pelo M23. No entanto, essas medidas não conseguiram desmantelar as redes de contrabando, resolver o conflito, interromper as atrocidades da milícia ou cortar o apoio crucial de Ruanda que impulsionava a expansão do M23. Uma investigação do Washington Post, de 8 de março de 2026, citou uma fonte do governo dos EUA afirmando que Paul Kagame conseguiu adiar as sanções por vários meses ao entrar em contato com o senador Lindsey Graham, que interveio junto à Casa Branca. O relatório observou que Graham atuou como conselheiro de Trump — detalhe anteriormente destacado pelo Wall Street Journal —, ilustrando os limites da pressão estadunidense. De acordo com o relato do funcionário, esses canais políticos de alto nível permitiram que Kagame ganhasse tempo.
O acordo entre os Estados Unidos e o Congo estabeleceu um mecanismo chamado Reserva de Ativos Estratégicos. Nesse contexto, os investidores estadunidenses recebem o direito de preferência em projetos listados e acesso preferencial a oportunidades de investimento específicas no setor de recursos congolês. Em abril de 2026, a Reuters publicou uma investigação detalhando como a Virtus Minerals, uma empresa dos EUA, adquiriu os ativos de mineração da Chemaf por US$ 30 milhões. Em fevereiro de 2026, surgiu uma proposta de acordo para vender uma participação de 40% nas minas da Mutanda e da Kamoto Copper Company ao Orion Critical Mineral Consortium, com o apoio da US International Development Finance Corporation (DFC) e do fundo ADQ dos Emirados Árabes Unidos. Esses negócios posicionaram os investidores dos EUA e dos Emirados Árabes Unidos de forma proeminente nos ativos de cobre e cobalto congoleses. O indicador mais claro dos objetivos dos EUA é o projeto do Corredor de Lobito, que liga as zonas de mineração no Congo e na Zâmbia ao porto atlântico de Lobito, passando por Angola. Os Estados Unidos apoiam este projeto por meio de financiamento para o desenvolvimento e investimentos em infraestrutura, com o objetivo de criar uma rota de exportação alternativa para o cobre e o cobalto congoleses em direção aos mercados ocidentais, contornando as redes comerciais ligadas à África Oriental e Meridional ou aquelas dominadas por empresas chinesas.
Erik Prince e seus apoiadores estatais não são os salvadores que o povo congolês espera para acabar com a violência das milícias e a interferência ruandesa. O homem que o governo congolês contratou para prestar serviços militares e de segurança não é um mediador neutro, nem alguém que atua fora dos próprios interesses que alimentam e lucram com esses conflitos. Ele é um criminoso que personifica o nexo entre os interesses econômicos capitalistas, a privatização da guerra e a defesa da hegemonia imperial dos EUA. Isso não é apenas uma suposição. Em um episódio de seu podcast Off Leash, Prince pediu explicitamente que os EUA retomassem um papel imperial direto, afirmando que era hora de "colocar o chapéu imperial de volta" e governar países que, segundo ele, são incapazes de se governar. Ele fez generalizações racistas abrangentes sobre a África, afirmando que a maioria de seus países não consegue administrar seus próprios assuntos. Quando seu coapresentador, Mark Serrano, observou que isso parecia um apelo ao retorno do colonialismo, Prince respondeu sem rodeios: "Com certeza, sim!"
Kribsoo Diallo é um pesquisador pan-africanista residente no Cairo, especializado em ciências políticas relacionadas aos assuntos africanos. Ele escreveu para muitas revistas e jornais africanos, e Diallo contribuiu com edições traduzidas de artigos e textos em árabe e inglês para vários centros de pesquisa no continente africano.
