Em 5 de janeiro—dois dias depois de bombas americanas terem caído sobre Caracas e de forças especiais dos EUA terem sequestrado o presidente venezuelano Nicolás Maduro—o Departamento de Estado dos EUA publicou uma imagem nas redes sociais. Sobre uma imagem em preto e branco de Donald Trump, a mensagem dizia: "Este é O NOSSO hemisfério."
Três dias depois, Trump anunciou que os Estados Unidos iriam "começar imediatamente" a lançar ataques terrestres no México, sob o pretexto de combater os cartéis de drogas—estendendo a mesma doutrina de uso da força para além das fronteiras da Venezuela e deixando claro que nenhuma nação da região está isenta.
A mensagem tinha a intenção de intimidar. Mas deveria servir como um grito de guerra para todos aqueles que sabem que, nas palavras do poeta cubano José Martí, uma "causa justa, mesmo das profundezas de uma caverna, pode fazer mais do que um exército". Sob a bandeira da "Doutrina Donroe"—a grotesca reformulação da Doutrina Monroe, de dois séculos de idade, feita por Trump—os Estados Unidos passaram da violência administrada por meio de planilhas para a violência perpetrada por mísseis, anunciando sua intenção de dominar as Américas pela força.
Essas ações não são sutis, nem estão disfarçadas na linguagem do direito ou da moralidade compartilhada. Trump foi explícito: o ataque à Venezuela é por causa do petróleo, classificando-o como “um dos ataques mais precisos à soberania”. Seu vice-presidente, JD Vance, foi ainda mais longe, gabando-se de que, além de “controlar os incríveis recursos naturais da Venezuela”, o ataque tinha como objetivo “fazer com que as pessoas tivessem medo de nos desafiar”.
É isso que significa o “Nosso Hemisfério”: medo, força e pilhagem.
De Caracas a Havana, da Cidade do México a Bogotá, a Casa Branca vem levando adiante um projeto tão antigo quanto o próprio império: subjugar os povos do hemisfério, apoderar-se de seus recursos e esmagar qualquer movimento político que ouse colocar as necessidades humanas acima do lucro privado. O que começou com sanções e bloqueios agora prossegue com bombas, sequestros e ameaças abertas de invasão. Hoje é a Venezuela. Amanhã será o México. Cuba, Colômbia e qualquer nação que se recuse a se submeter já estão na mira de Washington.
Quando o governo dos Estados Unidos reivindica o hemisfério como seu, não está falando em nome de seu próprio povo. É o capital que fala—contra os trabalhadores, trabalhadoras, camponeses, camponesas, povos indígenas e maiorias populares que lutam por soberania, dignidade e controle democrático sobre seus futuros. Como o libertador latino-americano Simón Bolívar previu há quase dois séculos: "Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a afligir a América com miséria em nome da liberdade."
Contra essa visão de posse, ergue-se outra: Nossa América.
Como alertou Gustavo Petro, "a América Latina deve se emancipar novamente". Suas palavras ecoam uma longa e inacabada tradição de resistência continental—de Bolívar a Benito Juárez, do México, que insistia que a paz exige respeito pelos direitos dos outros, até José Martí, de Cuba, que deu a essa luta seu nome mais duradouro.
Em seu ensaio de 1891, "Nuestra América", Martí alertou que "o desprezo do vizinho formidável [os Estados Unidos]... é o maior perigo que ameaça a nossa América". Ele exortou os povos do continente a "se unirem e marcharem em uníssono" em fileiras "tão compactas quanto as veias de prata nas profundezas dos Andes".
O que estamos testemunhando hoje é a luta de classes, manifestada pela violência imperialista. Os Estados Unidos representam o instrumento político e militar do capital: as grandes empresas petrolíferas financiam a política; os fabricantes de armas lucram com a destruição; e o poder financeiro prospera com a pilhagem e a guerra permanente. Esses setores do capital pagam pelas políticas que desejam e são recompensados ricamente. As ações das principais empresas petrolíferas americanas dispararam cerca de 10% após o sequestro de Maduro, representando um retorno de cerca de US$ 100 bilhões sobre um investimento de US$ 450 milhões nas últimas eleições americanas.
O governo serve aos seus doadores, permitindo que a agressão prossiga sem consentimento. A opinião pública tem demonstrado repetidamente oposição à ação militar dos EUA na Venezuela—uma lacuna entre os interesses da elite e a vontade popular que é preenchida pela força, e não pela democracia.
A Venezuela—assim como muitas nações antes dela—representa uma possibilidade diferente: a de que as classes populares possam governar a si mesmas, controlar seus recursos e traçar um futuro além do domínio imperial. E essa possibilidade representa uma ameaça existencial ao império.
Sob o governo de Hugo Chávez, a pobreza e o desemprego foram reduzidos pela metade, a matrícula escolar aumentou significativamente, a desnutrição foi praticamente eliminada e milhões de pessoas tiveram acesso, pela primeira vez, a aposentadorias e serviços de saúde. Como o próprio Chávez afirmou: "Não estamos ameaçando o mundo; estamos ameaçando o privilégio". Pior ainda, da perspectiva do império, a Venezuela ousou promover a integração regional e a solidariedade internacional, demonstrando que outro caminho não era apenas possível, mas também alcançável.
É por isso que a Venezuela tem sido alvo de ataques há 25 anos. E é por isso que as consequências da intervenção crescente de Trump na América Latina são verdadeiramente globais.
Forças reacionárias estão se unindo rapidamente em torno de uma doutrina renovada de dominação. No Equador, o presidente Daniel Noboa saudou o sequestro de Maduro, declarando que "todos os criminosos narcotraficantes chavistas terão o seu momento", prevendo que o movimento progressista "entrará em colapso em todo o continente". No Chile, o presidente eleito de extrema-direita, José Antonio Kast, saudou o ataque dos EUA como "uma ótima notícia para a região". Na Argentina e em El Salvador, Javier Milei e Nayib Bukele usaram as redes sociais para zombar daqueles que condenavam a flagrante violação da Carta das Nações Unidas. Essa Internacional Reacionária já está se formando—e está pronta para servir aos interesses corporativos e estratégicos de Washington.
No entanto, as forças da paz, da democracia e da soberania permanecem fragmentadas. Vimos declarações conjuntas—principalmente do Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha—mas nenhuma estratégia conjunta. Palavras sem coordenação não podem se equiparar a uma doutrina apoiada na força. Esse desequilíbrio permitiu que a agressão imperial avançasse mais rapidamente do que as solidariedades necessárias para detê-la.
É por isso que a Internacional Progressista está retornando a Bogotá para organizar uma reunião de emergência entre governos, lideranças políticas e movimentos para defender Nuestra América. Nos dias 24 e 25 de janeiro, honraremos os legados de Bolívar, Juárez e Martí não com cerimônias, mas com compromisso—articulando um plano de ação comum para defender a unidade das Américas e a liberdade de seus povos contra a tirania da dominação estrangeira.
Inscreva-se agora para acompanhar a transmissão de qualquer lugar do mundo e para se juntar àqueles e àquelas que se recusam a viver no hemisfério deles e, em vez disso, continuam a longa luta para construir a nossa América.
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As inscrições para o Comet, um programa de treinamento de 4 meses e meio para jovens ativistas no Reino Unido que buscam compreender o mundo e como transformá-lo, encerram-se no domingo. O programa é organizado pela Climate Vanguard, membro da IP.
O Comet visa desenvolver as capacidades políticas necessárias para avançarmos em nossa luta por uma mudança revolucionária. Os participantes aprenderão sobre análise de sistemas, estratégia de libertação e organização eficaz com importantes intelectuais populares, incluindo Jason Hickel, Peter Mertens, Jess Spear, Shahram Azhar, Alyson Escalante, James Schneider, Lizzy Oh, Kai Heron e outros.
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