Entrevistas

O gigantesco Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra indica o caminho

Após 40 anos de luta, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, o maior movimento social do mundo, reformulou sua luta por reforma agrária em torno da produção de alimentos orgânicos.
Nesta entrevista, o líder do MST, João Paulo Rodrigues, apresenta a estratégia tripla do movimento para o futuro: intensificar a ocupação de terras, escalar a produção agroecológica para rivalizar com o agronegócio industrial e contestar o poder político em todos os níveis, enquanto estabelece uma relação complexa com o Estado e com uma classe trabalhadora urbana cada vez mais precária.

Se você visitou o Brasil nos últimos cinco anos, já deve ter visto "o outro boné vermelho". Agora um acessório da moda nas praias do Rio de Janeiro, o boné decididamente anti-MAGA representa não a extrema direita, mas o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Com quase dois milhões de membros atualmente, o MST é provavelmente o maior movimento social do mundo, aguerridos após quatro décadas exigindo reforma agrária. E, ainda mais admirável, o MST prosperou sob condições adversas, como o movimento de extrema direita de Jair Bolsonaro. O objetivo do MST é fazer cumprir as promessas não cumpridas da transição democrática brasileira e dar fim às relações coloniais que ainda reinam no campo.

A última década, porém, viu aquela missão histórica ganhar uma nova dinâmica. A visibilidade crescente do MST foi, de fato, parte de uma "reformulação" perspicaz, recuando para uma postura defensiva quando o governo Bolsonaro declarou guerra aberta às ocupações de terras do movimento. Em resposta, o movimento fez aberturas para a classe média urbana progressista.

Hasteando a improvável bandeira dos alimentos orgânicos, o MST reestruturou com sucesso a reforma agrária — e suas contenciosas tomadas de terra — como uma missão para entregar produtos nutritivos, de origem sustentável e acessíveis às massas brasileiras. Ao fazê-lo, a opinião pública começou a ver a iniciativa menos como um "mero" movimento camponês e mais como um projeto de transformação nacional. Apesar de aliado ao governo de esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva, o movimento mantém uma relação complicada com o Estado brasileiro.

À Jacobin, Nicolas Allen conversou com o líder nacional do MST, João Paulo Rodrigues, sobre a visão estratégica do MST para o futuro e sobre como o movimento planeja lutar para colocar a política da classe trabalhadora na agenda nacional.

NICOLAS ALLEN

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra foi tema de uma recente matéria de capa da Nation. Vincent Bevins, autor da obra, explica como o movimento se adaptou aos tempos de mudança ao longo de seus 40 anos de existência, e como se fortaleceu ainda mais sob o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. Como o senhor explica o crescimento do MST ao longo da última década?

JOÃO PAULO RODRIGUES

O MST tem sido uma força política importante desde a restauração da democracia brasileira no final dos anos 1980. São quase 45 anos em que o MST tem atuado, com graus variados de força, em todas as lutas.

É verdade que o MST se tornou um ator político importante. Mas é igualmente importante reconhecer que os últimos dez anos foram muito difíceis para a esquerda brasileira. Antes do golpe contra Dilma (Rousseff), em 2013, houve um grande revolta que viu uma nova geração de brasileiros cair sob a influência da direita conservadora. Essa força conservadora procurou expulsar das ruas qualquer movimento de esquerda. O MST, a CUT (Central Única dos Trabalhadores), o PT (Partido dos Trabalhadores), todos perderam terreno para a direita.

O MST sobreviveu àquele momento, mas as coisas após 2013 só pioraram. Depois, houve o impeachment de Dilma, a prisão de Lula, o governo (Michel) Temer, a eleição de Bolsonaro e a pandemia. Durante os últimos 10 anos, a esquerda brasileira, incluindo o MST, sofreu muitos percalços.

Nesse período, o MST continuou sendo uma força política, guinando em uma nova direção. Em vez de se concentrar exclusivamente em suas preocupações tradicionais — o confisco de terras desocupadas e improdutivas, a luta contra os grandes proprietários de terras e assim por diante — o MST colocou uma nova questão na agenda política. Essa questão era o alimento.

A agenda alimentar — produzir alimentos baratos, saudáveis e orgânicos — transformou a bandeira da reforma agrária em algo mais tangível para o brasileiro médio. Independentemente de serem membros da classe média e interessados em alimentos orgânicos, ou dos setores mais pobres que queriam preços acessíveis, a bandeira da nutrição tornou a causa da reforma agrária mais identificável. Essa mudança em direção à produção de alimentos também mudou a opinião dos chamados setores desenvolvimentistas, que não podiam mais olhar para o MST como um mero "movimento de protesto". Agora eles são obrigados a reconhecer que o movimento está oferecendo alternativas econômicas, políticas e sociais.

Isso não quer dizer, é claro, que só porque o movimento levantou a bandeira da alimentação, ele abandonou a luta contra os grandes latifundiários, o imperialismo e o capitalismo. Significa apenas que o MST também está oferecendo uma visão alternativa da sociedade.

NICOLAS ALLEN

Como funciona o sistema alimentar do MST em termos de produção e distribuição?

JOÃO PAULO RODRIGUES

São cerca de 1.900 associações produtivas, 185 cooperativas e 120 agroindústrias espalhadas pelos assentamentos e acampamentos do MST. Estes estão envolvidos na produção, processamento e comercialização dos alimentos da Reforma Agrária Popular. São pelo menos 15 cadeias produtivas principais, com mais de 1.700 tipos diferentes de produtos circulando pelas linhas de distribuição do MST. A maior parte consiste em alimentos básicos, como arroz, feijão, milho, trigo, café, leite, mel, mandioca e várias outras frutas e legumes.

Somente a produção de arroz chega a mais de 42.000 toneladas, das quais 16.000 toneladas são orgânicas. O MST é reconhecido há mais de uma década como o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. O MST também produz cerca de 30.000 toneladas de café por safra. Somos também um dos maiores produtores de cacau do Brasil, com mais de 1,2 milhões de toneladas.

Basicamente, nosso objetivo é nos tornarmos um dos maiores produtores de alimentos orgânicos e de origem ecológica do mundo. De norte a sul do Brasil, nossas cadeias produtivas estão organizadas sob os princípios de conservação do solo, manejo adequado e métodos industriais responsáveis, e usamos canais comerciais próprios para colocar alimento na mesa dos brasileiros. Quanto à distribuição, contamos com nossos Armazéns do Campo, que são lojas associadas ao MST especializadas na venda de produtos da reforma agrária. Atualmente existem 24 lojas desse tipo, presentes nas principais capitais e em cidades no interior do Brasil. Nós também realizamos feiras regionais, onde grande parte da produção dos acampamentos e assentamentos é distribuída localmente.

Entretanto, a principal forma de nossas famílias camponesas comercializarem sua produção é por meio de vendas que atendem às diretrizes públicas de nutrição, como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Nutrição Escolar). Existe uma lei no Brasil que exige que qualquer programa da PNAE compre pelo menos 30% dos seus recursos alimentares de pequenas fazendas familiares. E apesar de essa legislação nem sempre ser cumprida, essas normas garantem a distribuição dos alimentos produzidos pelo MST em um mercado direto e com respaldo institucional. Há quem prefira um modelo menos burocrático, que opere em maior escala, mas o PNAE é de extrema importância para promover a produção camponesa e para assegurar que as escolas e demais instituições públicas tenham alimentação saudável e variada.

NICOLAS ALLEN

Antes, quando o senhor falou sobre a fragilidade da esquerda brasileira, se referia à política eleitoral, ao movimento sindical, aos movimentos sociais ou a tudo isso?

JOÃO PAULO RODRIGUES

O Brasil moderno sempre foi um país politicamente dividido. Tradicionalmente, 30% da população vota na esquerda, e a direita geralmente ganha uma parcela similar de votos — cerca de 30%. O centro político, por outro lado, tende a votar na direita. Essa foi a grande novidade histórica de Lula. Desde sua vitória presidencial em 2002, Lula conseguiu atrair o centro político e fortalecer o PT, que se tornou um grande campo de centro-esquerda. Por meio desse processo, porém, o próprio governo Lula se tornou mais centrista do que esquerdista.

Isso acabou diminuindo a força dos partidos de centro-direita, que nos últimos anos foram engolidos pelos governos Lula e Dilma. Os partidos de centro-direita perderam sua importância no Brasil, porque o governo Lula, um governo de esquerda, rompeu a parceria de longa data de políticos de centro-direita e setores capitalistas. Não havia espaço para um partido de centro-direita no Brasil. Ele já estava incorporado à base do governo.

No entanto, o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro abalou essa estrutura. A estratégia de governo de Lula baseia-se na formação de alianças. Uma estratégia incapaz de lidar com a ameaça Bolsonarista. A extrema direita, por sua vez, formou sua própria aliança com o centro. Eles formaram, inicialmente, uma aliança tática no que dizia respeito a centro-direita, mas o bloco de extrema direita agora engoliu grande parte da centro-direita. Como resultado, o apoio a centro-direita no Brasil é dividido entre o governo Lula e a extrema direita.

Em outras palavras, a hegemonia no Brasil é disputada atualmente entre o governo Lula e o campo de extrema direita de Bolsonaro. Esses são os dois polos que constituem o campo político brasileiro. Em minha opinião, até o final deste ano, à medida que essas tensões se desenrolarem, veremos surgir um campo à esquerda do governo Lula, ou um situado mais ao centro, embora seja muito difícil ver como o centro poderia formar seu próprio governo. Em última análise, o centro político brasileiro se tornará um vassalo da extrema direita ou da esquerda.

No que diz respeito ao MST, devemos nos preparar para o que quer que aconteça nos próximos cinco anos. Um futuro definido não apenas pela saída judicialmente imposta de Bolsonaro do cenário político, mas também pela inevitável saída de Lula. Esse período verá uma reorganização do campo político brasileiro, que será dominado por novas lideranças partidárias, a forte presença da tecnologia e, de especial preocupação para nós, o declínio da influência do poder da classe trabalhadora. Em outras palavras, veremos uma esquerda "mais fraca", mais afastada do mundo da produção e muito mais ligada a questões de identidade.

NICOLAS ALLEN

Esse enfraquecimento do poder da classe trabalhadora fundamentou a mudança estratégica do MST?

JOÃO PAULO RODRIGUES

É preciso entender: o Brasil tem um dos maiores índices de desigualdade fundiária do mundo. A luta pela reforma agrária é uma necessidade histórica e determinará o futuro da democracia brasileira. É impossível aceitar que 46% das terras do Brasil permaneçam nas mãos de 1% dos proprietários. A luta pela terra foi e continua sendo a base da existência do MST. Mas, uma vez que essa luta avança e a terra é adquirida, as famílias precisam de assistência para produzir. Elas precisam de estruturas públicas, como escolas, postos de saúde, eletricidade, saneamento e estradas. Em suma, é preciso continuar se mobilizando depois que uma família ganha um terreno.

Durante os quase 42 anos do movimento, abraçamos esse desafio político maior, aliando-nos aos trabalhadores urbanos com base no entendimento de que não basta que os trabalhadores rurais simplesmente lutem pela reforma agrária — deve ser uma luta de todos para que a reforma agrária seja alcançada. Além disso, muitos problemas que a classe trabalhadora urbana enfrenta estão diretamente ligados à falta de reforma agrária no campo. A expansão urbana, a fome, a falta de alimentos saudáveis a preços justos, são questões urbanas que ampliaram os horizontes de nossas lutas.

É verdade que, quando o MST foi fundado, acreditávamos que uma reforma agrária clássica resolveria os problemas do campo. Atualmente temos uma concepção diferente de reforma agrária. Queremos uma reforma agrária popular, isto é, a democratização do acesso à terra, o amplo uso de práticas agrícolas sustentáveis, a educação que liberta e as relações humanas livres de exploração. É impossível produzir alimentos "saudáveis" em uma terra tão cheia de exploração. Estamos lutando por uma reforma agrária que é um projeto nacional popular, onde há diversidade e justiça social, e em que o colonialismo cultural e econômico, que ainda prevalece no Brasil, é coisa do passado.

NICOLAS ALLEN

O senhor falou sobre o futuro da esquerda brasileira na era pós-Lula. Onde o senhor vê o MST nesse cenário futuro?

JOÃO PAULO RODRIGUES

No futuro próximo, o MST pretende unir forças com a ala esquerda do campo Lula. Além disso, o movimento se juntará à esquerda de forma mais ampla à medida que o Brasil entrar na era pós-Lula. Mas o MST não é partido e não vai virar.

No entanto, buscamos lutar em três frentes políticas nos próximos cinco anos. A primeira frente é na luta pela terra. O MST deve se consolidar, se fortalecer e se estabelecer como uma organização que luta pela terra. Para nós, a luta pela terra é a questão central. Existem 100 milhões de hectares de terra a serem tomados no Brasil, e precisamos disputar essa agenda lado a lado com os povos indígenas e os quilombolas (descendentes de afro-brasileiros que fugiram da escravização).

Aquele que controla a terra, controla o futuro do Brasil. Vamos esclarecer. No Brasil, terra é sinônimo de produção de alimentos, conservação ambiental e cuidado com a natureza. Para esse fim, acho que o MST precisará ganhar força e voltar sua atenção àquelas regiões de conflito ainda em disputa na chamada fronteira agrícola, na Amazônia, no Matopiba, ou mesmo no Cerrado, onde temos menos presença.

A segunda luta é se tornar uma grande força econômica na produção de alimentos nutritivos. Em um futuro não tão distante, o MST estará frente a frente com o grande agronegócio industrial na luta pela hegemonia alimentar. Podemos ter apenas 10 milhões de hectares em comparação com os 60 milhões controlados pelo grande agronegócio. Mas temos algo que eles não têm: mão de obra. São mais de dois milhões de trabalhadores rurais vivendo e trabalhando nos assentamentos do MST.

Por isso, esperamos que nossa política de cooperativas, agroecologia e produção de alimentos se torne uma poderosa força econômica nos próximos anos. Dessa maneira, a sociedade verá a esquerda como um modelo alternativo de desenvolvimento econômico e social. Nossa luta não é apenas ideológica, para combater a fome. É um modo de vida alternativo e um modelo que pode tratar da organização das cidades e até da criação nacional de empregos.

Na busca dessa missão, o MST pressionará por novas parcerias público-privadas, combinando apoio estatal com pequenos empreendedores que queiram fazer parceria com o MST para formar empresas agrícolas de médio porte. Precisamos construir uma base econômica e mostrar para toda a sociedade brasileira que o MST não é apenas uma visão ideológica, mas um projeto nacional.

Por fim, o MST e outros partidários de esquerda disputarão representação em todas as instituições políticas. Precisamos ter mais vereadores, prefeitos, parlamentares e representantes estudantis de esquerda, mais gente em todos os espaços institucionais, para que o estado se torne democrático e mais receptivo às necessidades da classe trabalhadora. Não podemos desistir de nenhum espaço de governança, porque há uma força de extrema direita à espreita que é muito mais feroz do que qualquer um de nós pode imaginar.

NICOLAS ALLEN

Poderia falar mais sobre a relação entre o MST e o Estado? A causa principal do movimento, a reforma agrária, avança devido às apreensões autônomas de terras. Mas a reforma agrária depende, em última análise, de uma política de estado favorável, não é?

JOÃO PAULO RODRIGUES

A relação entre a reforma agrária e o Estado é, e sempre foi, preocupante. Historicamente, o Estado brasileiro foi fundado com um esforço consciente de impedir que a reforma agrária ocorresse. De fato, as melhorias na situação de concentração de terras foram resultado de conflitos violentos e massacres, como aconteceu durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Durante o governo Dilma, existiram pouquíssimos assentamentos, e os acordos políticos permaneceram precários. No governo Lula, houve pouquíssimos avanços concretos.

Dito isso, o Estado é o único que pode implementar a reforma agrária. Essa é a contradição com a qual convivemos: não temos alternativa a não ser dialogar com o Estado.

NICOLAS ALLEN

E o MST e os movimentos urbanos? Como o movimento se vê relacionado às lutas políticas urbanas?

JOÃO PAULO RODRIGUES

Primeiro, uma palavra sobre as cidades brasileiras. As áreas urbanas constituem três desafios específicos para a esquerda como um todo. Em primeiro lugar, a cidade não é mais o local da hegemonia política da classe trabalhadora, como era na década de 1980. O movimento sindical brasileiro costumava ter uma presença forte nas grandes cidades e era altamente organizado no mundo do trabalho. Hoje, estamos vendo tudo isso se desfazer por meio de um processo de contínua insegurança no mundo do trabalho, muitas vezes por meio de aplicativos e outras formas de organização precária do trabalho.

Em segundo lugar, as pessoas pobres no Brasil estão majoritariamente concentradas na periferia urbana, uma área controlada por milícias e pelo tráfico organizado de drogas. Isso dificulta muito o estabelecimento de uma relação mais estrutural com a classe trabalhadora urbana. Traficantes e grupos de milícias têm muito poder e dinheiro, e empregam a violência de uma forma que a esquerda em seu estado atual não está equipada para lidar.

Finalmente, as igrejas evangélicas estão fazendo o tipo de trabalho social na periferia urbana que já foi feito pela ala esquerda da Igreja Católica brasileira. Então, são três questões — a milícia, a precariedade e a Igreja Evangélica — que juntas dificultam que alguém chegue à periferia com um programa de esquerda.

O desafio para o MST é descobrir como traduzir nossa experiência com assentamentos e acampamentos para um contexto urbano. Como podemos levar essa experiência para a cidade por meio das cooperativas e da produção de alimentos?

Devemos realizar essa tarefa sem desenvolver uma relação paternalista, do tipo assistencialista. Precisamos alcançar uma geração de jovens e trabalhadores que genuinamente compartilhem da nossa crença de que o mundo do trabalho e da nutrição deve estar no centro de nossa política. Mas, novamente, só podemos fazer isso se a esquerda propuser uma visão séria da reforma urbana. Até que a esquerda possa combater questões clássicas — pobreza, desigualdade, habitação, segurança pública, saúde e assim por diante — estamos limitados em nossas opções.

NICOLAS ALLEN

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho têm afetado a visão estratégica do MST?

JOÃO PAULO RODRIGUES

A classe trabalhadora está sempre se ajustando às mudanças no mundo do trabalho, desde que os trabalhadores da era Ford estavam se adaptando ao chão de fábrica. O problema hoje é que a precariedade trabalhista está piorando. A classe trabalhadora brasileira é extremamente precária e carente.

Mais da metade da classe trabalhadora brasileira está empregada sem carteira assinada, e a maioria vive com menos de três salários mínimos (menos de $900). A classe trabalhadora brasileira é muito pobre e tem muita dificuldade de se organizar devido à precariedade do trabalho informal e sazonal. Isso é tudo o que tenho a dizer, não vejo nas condições atuais da classe trabalhadora nenhum sinal de uma nova forma de organização surgindo a médio ou mesmo longo prazo. Se a miséria desse origem a novas formas de organização do trabalho, a África, como continente, já teria tido uma revolução. Em vez disso, vemos o oposto. Você tem pobreza produzindo mais pobreza.

Não fomos capazes de propor uma reforma trabalhista brasileira que simplesmente mantivesse condições mínimas de vida. Aqui, tudo o que vemos são novas formas de exploração e desorganização no mundo do trabalho. Somos reféns das novas tecnologias e das novas formas capitalistas de exploração, que nos deixam lutando apenas para sobreviver.

O MST continuará organizando os trabalhadores rurais diante desses desafios. No curto prazo, precisamos atrair uma nova geração de jovens, que não sejam necessariamente camponeses ou agricultores, mas que queiram trabalhar em cooperativas de trabalho e produzir alimentos orgânicos. Nosso desafio é inventar um novo modelo de reforma agrária em que as pessoas possam dedicar parte do seu tempo ao trabalho no campo, mantendo outro tipo de emprego na cidade.

O Brasil tem quase pleno emprego, aliás. Mas a pobreza não diminuiu e a vida das pessoas não melhorou. Pelo contrário, suas vidas pioraram. Por quê? Porque o emprego é muito precário e as pessoas não conseguem arcar com os altíssimos custos de vida com os níveis salariais existentes. Muitos trabalhadores brasileiros não conseguem nem comprar alimentos básicos.

NICOLAS ALLEN

O que o MST tem a oferecer diante desses desafios?

JOÃO PAULO RODRIGUES

Muitas vezes ouvimos magnatas brasileiros dizerem que há escassez de mão de obra no mercado de trabalho, devido ao Bolsa Família e a outras políticas federais de assistência social. A elite brasileira odeia Lula, porque acha que a ajuda do governo torna as pessoas acomodadas e desinteressadas no trabalho. O fato é que a classe trabalhadora, especialmente os jovens trabalhadores, não quer ser explorada com salários de fome. O setor de serviços reclama da escassez de mão de obra, mas não consegue enxergar que o que os trabalhadores querem é um emprego e um salário digno. Os trabalhadores de hoje querem o fim da jornada de trabalho de seis dias, querem direitos trabalhistas e uma renda compatível com o custo de vida.

Os trabalhadores rurais não querem mais ser explorados pelos grandes latifundiários e forçados a condições de trabalho análogas à escravidão. Enquanto houver muitas mãos sem terra e muita terra nas mãos de poucos, as ocupações do MST continuarão. A reforma agrária é um projeto de emancipação para a classe trabalhadora explorada, que vê a ocupação da terra como seu único caminho para uma vida digna, com um pedaço de terra para viver, cultivar e colher.

A esquerda só é uma força política viável enquanto mantemos nosso domínio sobre o mundo do trabalho. E esse é um projeto político que exige mobilizar os mais pobres, mas também falar sobre questões da classe média. Temos que dar conta do recado e levantar a bandeira do trabalho, ou estaremos falhando em nosso trabalho como marxistas.

Outro desafio será intervir nas questões ambientais. A esquerda não pode cair na postura ambientalista, dizendo coisas como "a natureza é um santuário", e fingir que o mundo natural não deve servir para o melhoramento da humanidade. Mas a esquerda também não pode cair na retórica desenvolvimentista preguiçosa, que diz que podemos destruir tudo a qualquer custo em nome do progresso. Felizmente, a esquerda tem feito avanços nessa frente.

Mas as coisas não serão fáceis. Movimentos populares brasileiros e organizações de esquerda terão que resistir no curto prazo apenas para defender o governo Lula. A médio prazo, nos próximos cinco anos, eles precisam começar a construir as bases para a próxima transição, o que significará levar adiante uma visão nacional que derrote a direita.

João Paulo Rodrigues é líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Nicolas Allen é editor comissionado da Jacobin e Doutorando em História da América Latina na Stony Brook University (SUNY).

Available in
EnglishSpanishPortuguese (Brazil)GermanFrenchItalian (Standard)TurkishRussianArabicHindi
Author
Nicolas Allen
Translators
Gabriel Barbosa, Nathàlia Caldeira Dias and ProZ Pro Bono
Date
22.01.2026
Source
JacobinOriginal article🔗
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