Briefing

Newsletter da Internacional Progressista | No.  23 |  A Terra Sob os Nossos Pés

Incêndios florestais fazem parte do nosso presente. As tecnologias de transição também. O que falta é o poder sobre os investimentos.
Na 23ª Newsletter da Internacional Progressista de 2026, além de outras notícias do mundo, falamos sobre uma Europa marcada por calor recorde, rios vazios e terras em chamas. Enquanto o El Niño ameaça provocar um novo choque nos preços dos alimentos, também questionamos por que a energia limpa não conseguiu substituir os combustíveis fósseis—e como o poder imperial dos EUA atua para manter o fluxo de petróleo. Quer receber a nossa newsletter diretamente no seu email? Inscreva-se pelo formulário no final desta página.

Austríacos e austríacas se acostumaram com temperaturas na casa dos 25°C em agosto. Nesta semana, entretanto, os termômetros ultrapassaram os 41°C. O colapso climático chegou: é a própria base geológica sobre a qual a humanidade se sustenta. A imagem do verão europeu mudou: de turistas saboreando um sorvete para bombeiros tentando conter paredes de fogo que avançam sobre usinas nucleares.

Em toda a Europa, o calor esvaziou rios, antecipou colheitas e estrangulou centrais eléctricas. O Danúbio caiu para mínimos históricos—apenas dez centímetros no medidor de Budapeste esta semana—forçando barcaças de combustível a transportarem apenas 30 a 40 por cento das cargas normais. Repetidas ondas de calor abreviaram a época de crescimento dos cereais, antecipando a colheita e reduzindo os rendimentos previstos. Na França, rios ficaram quentes demais para arrefecer oito reatores, o que reduziu a produção nuclear em 6,3 gigawatts. Incêndios consumiram mais de 90 mil hectares na França e 200 mil na Espanha. Um estado de seca foi declarado em metade da Inglaterra, com o preço do tomate subindo mais de 60%, da alface 90% e das batatas mais de 40%. Agosto apenas começou.

O distúrbio vai muito além da Europa. O El Niño vem se intensificando rapidamente no Pacífico. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA estima em 81% a probabilidade de ele se tornar "muito forte"—sua categoria mais elevada—entre outubro e dezembro. O Programa Mundial de Alimentos estima que este El Niño poderá empurrar pelo menos mais 49 milhões de pessoas para uma situação de insegurança alimentar aguda até o final do próximo ano. Os preços dos cereais já estão 6,9% acima dos níveis do ano passado, segundo dados divulgados hoje pela Organização para a Alimentação e a Agricultura.

Não podemos trazer de volta o clima de antigamente. Mas não estamos de mãos atadas. A humanidade já sabe como produzir energia sem queimar carvão, petróleo e gás. A China construiu capacidade de geração de energia eólica e solar em escalas sem precedentes. As emissões do país asiático permanecem abaixo do pico atingido no início de 2024, e o carvão respondeu por menos da metade da eletricidade do país nos primeiros seis meses deste ano. O Estado estabeleceu metas, direcionou crédito e organizou fábricas, redes elétricas e cadeias de suprimentos, investindo US$ 625 bilhões em energia limpa em 2024. A intensidade de emissões caiu 12% entre 2020 e 2025—ainda que abaixo da meta planejada de 18%. A China construiu a maquinaria da transição; ela está apenas começando a voltá-la contra a energia de origem fóssil.

Nenhum outro país combina a escala econômica da China com a mesma capacidade de direcionar investimentos. Quando deixada à dinâmica do mercado, cada nova fonte de energia é simplesmente acrescentada às anteriores. O carvão sobreviveu ao petróleo. O petróleo sobreviveu ao gás. As fontes renováveis cresceram paralelamente ao consumo de combustíveis fósseis. Em 1865, o economista inglês William Stanley Jevons observou que uma maior eficiência poderia reduzir custos, viabilizar novas aplicações e aumentar a demanda total. Sem uma decisão de fechar minas e poços, a energia limpa e barata alimenta novas atividades produtivas, enquanto os combustíveis fósseis continuam a ser queimados.

O lucro puxa para o outro lado. Quando a guerra EUA-Israel contra o Irã fez disparar os preços do petróleo, oito grandes empresas petrolíferas faturaram 93 bilhões de dólares em três meses. A British Petroleum mais do que duplicou o seu lucro trimestral, ao mesmo tempo que recuou do investimento de baixo carbono; a Shell vendeu sua participação em energias renováveis no mercado europeu esta semana. O mercado não fecha um campo de petróleo lucrativo porque um painel solar é mais barato. Ele mantém ambos.

No centro desta ordem, com os seus conglomerados de empresas de carga e terminais de exportação, estão os Estados Unidos. O país produziu mais petróleo em 2025 do que qualquer outra nação na história e respondeu por mais de um quarto das exportações globais de GNL. Mas a energia fóssil americana vai muito além dos seus próprios poços. Em janeiro desse ano, as forças dos EUA raptaram o Presidente Nicolás Maduro e Washington assumiu o controle das vendas e receitas do petróleo venezuelano e redirecionou as cargas para as refinarias dos EUA. No Golfo, a guerra EUA-Israel contra o Irã fechou efetivamente o Estreito de Hormuz, por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo e do GNL do mundo. A Quinta Frota não conseguiu mantê-la aberta. Washington armou a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, sancionou o petróleo russo e iraniano e vinculou a Europa ao gás americano.

Às portas dos Estados Unidos, a Colômbia começou a organizar uma estratégia de saída. Em abril, 57 governos reuniram-se em Santa Marta— um porto exportador de carvão—para a primeira conferência internacional dedicada a abandonar os combustíveis fósseis, convocada pelo presidente Gustavo Petro. O objetivo era elaborar planos para a eliminação gradual desses combustíveis em nível nacional, remover subsídios a eles e enfrentar as dívidas que obrigam países mais pobres a continuar exportando carvão, petróleo e gás.

Dois meses depois, Donald Trump declarou apoio a Abelardo de la Espriella e alertou que a relação da Colômbia com os Estados Unidos dependia de sua vitória na eleição presidencial. De la Espriella venceu por uma diferença de 250 mil votos. Ele assume o cargo essa semana. Seus planos incluem a retomada do fracking e a ampliação das exportações de carvão; o futuro ministro do Meio Ambiente de seu governo classifica a conferência de Santa Marta como uma "perda absoluta de tempo e dinheiro". No ano que vem, a conferência será realizada em Tuvalu. A Colômbia abriu o caminho. Depois de apoiar o candidato que prometia mudar de rumo, Washington agora se prepara para voltar no tempo.

O clima de outrora já era. Ele não volta mais. Mas nós ainda estamos aqui. Continuaremos criando nossos filhos e filhas, cultivando alimentos, construindo lares e encontrando alegria em um planeta mais quente e menos estável. A luta consiste em tornar essas esperanças comuns acessíveis a todos. O Império e o Capital nos conduziram a uma situação de grave perigo. Não devemos permitir que eles ditem a forma como atravessaremos essa realidade.

Últimas do Movimento

Solidariedade nas Calçadas de Durban

No dia 1º de agosto, a Campanha de Solidariedade Congolesa distribuiu alimentos a refugiados, refugiadas e migrantes que dormiam ao relento, em frente ao Centro de Recepção de Refugiados do Departamento de Assuntos Internos, na Rua Che Guevara, em Durban. Pessoas de Moçambique, Tanzânia, Burundi, Ruanda, República Democrática do Congo, Uganda e Gana vivem nas calçadas desde maio, após a violência xenofóbica tê-las expulsado de suas casas e de seus meios de subsistência. Centenas permanecem sem abrigo seguro, saneamento adequado ou proteção. Os recursos arrecadados por meio do apelo da Internacional Progressista vêm ajudando a campanha a fornecer alimentos e outros itens essenciais, ao mesmo tempo em que pressiona as autoridades sul-africanas a cumprirem sua obrigação: garantir segurança e acomodação de emergência para todas as pessoas deslocadas.

Trabalhadores de plataformas em Telangana iniciam paralisação

No sábado, 8 de agosto, trabalhadores de plataformas no estado indiano de Telangana iniciarão uma greve por tempo indeterminado contra as empresas que controlam sua fonte de renda. Liderados pelo Telangana Gig and Platform Workers Union (sindicato membro da IP) e pelo Telangana App-Based Drivers Forum, os trabalhadores exigirão tarifas mínimas, comissões mais baixas, seguridade social e a implementação das novas medidas de proteção estaduais para essa categoria. Cerca de 390 mil motoristas e entregadores participaram de uma greve de advertência em 22 de julho. Agora, eles se preparam para paralisar as atividades de aplicativos como Ola, Uber, Rapido, Swiggy, Zomato e outros, até que o governo e as empresas tomem providências.

Mathare exige o retorno de seus filhos

O Mathare Social Justice Centre, membro da IP, juntou-se às mães e familiares de quatro jovens— Abdulaziz Ali Zizou, Michael Oloo, Maxwell Kiarie e Evans Otieno—em uma marcha em Nairóbi para exigir que fossem devolvidos. Os quatro estão desaparecidos há mais de 45 dias, após o que seus familiares e os organizadores do ato descrevem como sequestros cometidos pela polícia. A marcha ocorre na sequência da morte de Eric Otieno, um mototaxista de 19 anos de Mathare que sofreu ferimentos fatais após ser detido na Delegacia de Polícia de Muthaiga; o órgão de supervisão policial do Quênia abriu uma investigação sobre o caso. As famílias deram à polícia um prazo de 48 horas para apresentar os jovens desaparecidos.

Nossa História

3 de agosto de 1998 – Plano Colômbia: Em 3 de agosto de 1998, o presidente dos EUA, Bill Clinton, reuniu-se com o recém-eleito presidente da Colômbia, Andrés Pastrana, lançando as bases para o Plano Colômbia. Implementado em 2000, o pacote de US$ 1,3 bilhão destinou quatro quintos de seus recursos às forças policiais e armadas. Até 2015, a Colômbia havia recebido US$ 10 bilhões em assistência declarada dos EUA, além de financiamento secreto, armas e inteligência fornecidos pela CIA. Apresentado como uma guerra às drogas, o Plano Colômbia renovou um histórico mais longo de contrainsurgência apoiada pelos EUA, violência paramilitar e guerra química. As forças armadas quase dobraram de tamanho, os gastos militares triplicaram e operações apoiadas pela CIA eliminaram líderes rebeldes, em um cenário de convergência entre forças estatais, paramilitares e redes de narcotráfico. Entre 2002 e 2010, mais de dois milhões de pessoas foram deslocadas e 14 mil civis foram mortos ou desapareceram, enquanto a pulverização de glifosato contaminava plantações, águas e florestas.

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6 de agosto de 1945 – Hiroshima: Em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos cometeram um crime de guerra sem precedentes na história da humanidade ao lançar a primeira bomba atômica sobre Hiroshima. O Japão já estava devastado: mais de 100 cidades haviam sido destruídas ou gravemente danificadas, enquanto o bombardeio incendiário de Tóquio matara mais de 100.000 pessoas em uma única noite. Os ataques a Hiroshima e Nagasaki matariam mais de 200.000. Os Estados Unidos continuam sendo o único país a ter utilizado armas nucleares em guerra e ainda se reservam o direito de empregá-las em defesa de seus "interesses vitais". Nesta data, reafirmamos nosso compromisso de desmantelar a máquina de guerra e construir uma diplomacia dos povos.

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7 de agosto de 1920 – Segundo Congresso da Internacional Comunista: O Segundo Congresso da Internacional Comunista encerrou-se em Moscou em 7 de agosto de 1920. “Os trabalhadores de todos os países estão se reunindo para libertar-se do jugo dos ricos”, declarou seu presidente, Grigory Zinoviev. Delegados de 37 países, incluindo China, Índia e Coreia, reuniram-se para debater a guerra, o poder capitalista e a libertação nacional. Enquanto a Segunda Internacional havia negligenciado o imperialismo, a Internacional Comunista o enfrentou diretamente. O capitalismo europeu, argumentaram os delegados, baseava-se na pilhagem do mundo colonizado, tornando o apoio à revolução anticolonial uma necessidade. O Congresso convocou os povos do Oriente a Baku para que se libertassem “das correntes da servidão” e se unissem em “igualdade, liberdade e fraternidade”. O evento contribuiu para colocar o anti-imperialismo no centro do internacionalismo comunista.

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Arte da Semana

Internationalism of Extinction (Internacionalismo ou Extinção) é um pôster criado por Gabriel Silveira para a Cúpula inaugural da Internacional Progressista, realizada em 2020. Você pode apoiar o trabalho da IP adquirindo um exemplar em nossa loja.

Available in
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Date
07.08.2026
Progressive
International
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