Neste fim de semana, o histórico Palácio de San Carlos—o palácio neoclássico no bairro de La Candelaria, em Bogotá, que outrora abrigou o próprio Simón Bolívar—se torna o palco de um acerto de contas hemisférico.
Escolhida pelo Libertador como sede da Grã-Colômbia, a república que outrora uniu a Colômbia, a Venezuela, o Equador e o Panamá, San Carlos permanece como um arquivo vivo de resistência e da luta inacabada pela emancipação. Dentro de suas muralhas, em 1828, Bolívar escapou por pouco de um atentado, saltando de uma janela com a ajuda de Manuela Sáenz, a Libertadora do Libertador—um lembrete de que a autodeterminação nas Américas sempre exigiu coragem, solidariedade e desafio.
Dois séculos depois, a região enfrenta um novo ataque a esse legado. Sob a bandeira reavivada da Doutrina Monroe, Washington está reivindicando o direito de decidir quais governos podem permanecer no poder e quais devem cair. De Caracas a Havana, de Bogotá à Cidade do México, a soberania está sendo desafiada pela força e pela imposição: bombas na Venezuela, cerco em Cuba, ameaças contra governos que se recusam a se submeter, exigências sobre a Groenlândia e a instrumentalização do comércio e das finanças contra aqueles que resistem. Coerção, intervenção e desestabilização tornaram-se, mais uma vez, os princípios organizadores da ordem hemisférica.
Essa ameaça se estende para além das Américas e abrange o mundo todo. Em Davos, nesta semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, apresentou o seu Conselho da Paz (Board of Peace)—uma iniciativa sustentada pelo poder bruto dos Estados Unidos e pelos caprichos de Donald J. Trump, sem as restrições de regras que devem ser cumpridas ou do direito internacional. Suas ambições vão muito além de Gaza. Com uma governança opaca e a sugestão de Trump de que o Conselho poderia substituir instituições como as Nações Unidas, o projeto sinaliza um esforço para remodelar a política mundial à imagem da dominação unilateral.
Mesmo os defensores e beneficiários da antiga ordem agora admitem que algo se rompeu. No mesmo fórum, o primeiro-ministro canadense Mark Carney declarou que a "ordem internacional baseada em regras" não retornará—que o mundo entrou em um período de "ruptura". Ele reconheceu o que grande parte do Sul Global já sabia há muito tempo: que o sistema era "parcialmente falso"; falando de regras enquanto privilegiava o poder, e de direitos enquanto praticava a coerção. O projeto de Trump não se distancia dessa realidade. Ele simplesmente desmascara a ficção e a transforma em doutrina.
À medida que a antiga ordem desmorona e uma ordem mais dura é forjada em seu lugar—uma regida por decretos, pressões e ameaças—a Nuestra América apresenta uma proposta diferente: que a paz e a estabilidade não podem ser impostas de cima para baixo ou de fora para dentro, mas que devem estar fundamentadas na ação coletiva dos povos do hemisfério.
De 24 a 25 de janeiro, a Internacional Progressista realizará uma cúpula hemisférica de emergência em Bogotá, reunindo ministros, ministras, parlamentares, sindicalistas e lideranças de movimentos sociais de todas as Américas e de outras regiões. A cúpula é uma resposta direta às crescentes ameaças à soberania—desde agressão militar e desestabilização política até sanções e coerção econômica que minam a escolha democrática e os direitos sociais.
Em San Carlos, setenta delegados e delegadas realizarão três tarefas: (i) um diagnóstico compartilhado da crise atual; (ii) a construção de uma estratégia para a cooperação hemisférica; e (iii) o desenvolvimento de caminhos concretos para a ação coletiva. O processo culminará em uma Declaração Conjunta que inaugurará um projeto político contínuo—uma estrutura dinâmica de coordenação, solidariedade e autodefesa coletiva em todo o hemisfério.
A abertura do encontro, ao lado do co-coordenador geral da IP, David Adler, contará com a presença da Ministra das Relações Exteriores da Colômbia, Rosa Yolanda Villavicencio, que apresentará a agenda do governo sobre a transformação agrária e o combate ao narcotráfico. Entre os delegados e delegadas estão ministros de diversos países da América Latina, parlamentares da Europa e das Américas, e lideranças de movimentos sociais que lutam pela paz, pela terra e por melhores condições de vida: Daniel Rojas, Martha Carvajalino, Christian Duarte, Andrés Arauz, María José Pizarro, Bettiana Díaz, Jorge Taiana, Andrea Navarro, Thiago Ávila, Clémence Guetté, Gerardo Pisarello, Walter Baier, Bill de Blasio e muitos outros.
Além das deliberações internas, a cúpula se abrirá ao público externo. No sábado à noite, uma assembleia no Teatro Colón, em Bogotá, convidará o público a compartilhar uma visão comum para o hemisfério—uma visão fundamentada na dignidade, na solidariedade e no direito dos povos de determinar seus próprios destinos. Você pode assistir ao evento ao vivo aqui.
A Nuestra América não é um evento isolado. Ele é um processo: um espaço para reconstruir laços além das fronteiras e forjar uma resposta coletiva às ameaças que nenhum país pode enfrentar sozinho. Enquanto os Estados Unidos ensaiam novas doutrinas de dominação, os povos das Américas estão construindo sua própria resposta—não em Davos, nem em Washington, mas em Bogotá, na casa do Libertador. O hemisfério não será governado por decreto. Ele será construído em conjunto.
Da história das mulheres britânicas que impediram o fornecimento de caças Hawker a Timor-Leste à fundação da Companhia das Índias Orientais, o Calendário do Internacionalismo de 2026 apresenta 12 capítulos de luta, vitória e derrota.
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A Federação Nacional dos Trabalhadores da Indústria Têxtil (NGWF), membro da IP em Bangladesh, garantiu seis novos acordos de negociação coletiva, abrangendo mais de 11.500 trabalhadores e trabalhadoras em 2025—os primeiros no setor a conquistar direitos que vão além da legislação nacional, incluindo licença-paternidade, auxílios maiores, mecanismos mais seguros para apresentação de reclamações e proteção contra a perda de emprego devido às mudanças climáticas ou à automação. A NGWF também registrou oito novos sindicatos em fábricas, reunindo mais 7.432 trabalhadores e trabalhadoras e fortalecendo o poder de negociação coletiva no ambiente de trabalho.
Movimentos populares, partidos e organizações progressistas de mais de 20 países emitiram a Resolução de Caracas—uma declaração global de solidariedade com a Venezuela e com todas as nações que resistem à agressão imperialista. A declaração condena o ataque dos Estados Unidos à soberania venezuelana e a tentativa de sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, denuncia o "corolário Trump" à Doutrina Monroe como uma fase perigosa de beligerância hemisférica e situa esse ataque no contexto de uma longa guerra híbrida de sanções, bloqueios e interferência na Venezuela e em todo o mundo.
Um novo relatório da Internacional Progressista, o Energy Embargo for Palestine, o Movimento da Juventude Palestina e o People’s Embargo for Palestine revela como o embargo comercial anunciado publicamente pela Turquia contra Israel foi sistematicamente violado, com 57 carregamentos de petróleo saindo do porto de Ceyhan e chegando a Israel entre maio de 2024 e dezembro de 2025. O relatório, que pode ser lido online aqui, levou ativistas a convocar um dia de ação na terça-feira, 27 de janeiro, para pressionar o governo turco a interromper o comércio.
Na sua 30ª Assembleia Geral Anual em Morogoro, a MVIWATA (membro da IP), uma rede nacional de pequenos agricultores, reuniu centenas de delegados para aprofundar a organização democrática e resistir ao controle corporativo da agricultura.
Sonia Bazanta Vides, mais conhecida como Totó La Momposina, é uma musicista e artista colombiana de quarta geração, de ascendência afro-colombiana e indígena. Totó é conhecida como a Rainha da Cumbia e é celebrada em todas as Américas e em todo o mundo.
Em 1982, Totó se apresentou na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura a Gabriel García Márquez, e em 2013 recebeu um Prêmio pelo Conjunto da Obra no Grammy Latino. Seu canto nos lembra que a importância cultural intergeracional transcende as formas visuais e materiais e que "uma revolução sem dança é uma revolução que não vale a pena", parafraseando Alan Moore.
