A decapitação do governo venezuelano. A intimidação militar pela anexação da Groenlândia. A guerra americana-israelense gratuita contra o Irã. Os primeiros meses de 2026 foram marcados pelo aumento dramático do militarismo agressivo de Donald Trump. Apesar das muitas diferenças, as três crises têm em comum a busca do presidente pelo controle americano sobre fluxos estratégicos de matérias-primas, tanto os parceiros de petróleo e gás da China em Caracas e Teerã, quanto a possibilidade de riquezas minerais do Ártico.
Em outros lugares, a ofensiva americana por recursos naturais se desenrola com mais discrição. É o caso do esforço silencioso para criar uma esfera de influência americana em um país que antes não parecia interessar ao governo: a República Democrática do Congo (RDC). Uma nação extensa no coração da África equatorial, a RDC possui reservas consideráveis de recursos, incluindo cobre, cobalto e lítio. Metais como esses são fundamentais para aplicações de alta tecnologia, como microchips, baterias de veículos elétricos e os mais sofisticados sistemas de armas.
Iniciada durante o governo de Joe Biden, a reaproximação dos Estados Unidos com a RDC ganhou velocidade com a volta de Trump à Casa Branca, quando autoridades da capital, Kinshasa, procuraram o então presidente eleito dos EUA em busca de apoio na longa batalha contra milícias separatistas nas regiões de Kivu e Katanga. A conclusão ocorreu em dezembro passado, quando a Casa Branca assinou uma “parceria estratégica” entre os Estados Unidos e a RDC.
O acordo, que proveu acesso especial aos Estados Unidos à riqueza mineral da RDC, deu continuidade ao muito divulgado “acordo de paz” firmado no verão passado entre a RDC e Ruanda, país que apoia os paramilitares do Movimento 23 de Março (M23) em uma guerra civil devastadora contra Kinshasa. Embora a Casa Branca afirme ter inaugurado uma nova era de paz na região, os combates persistem até hoje. Em dois de março, os Estados Unidos impuseram sanções ao Exército de Ruanda por seu apoio contínuo às milícias anti-Kinshasa.
Segundo observadores, o interesse de Trump por Kinshasa se relaciona à estratégia de minerais em troca de proteção, formulada pela primeira vez na primavera de 2025 no acordo sobre minerais da Ucrânia. Por enquanto, o envolvimento direto do governo americano com a RDC se limita a apoiar o presidente Félix Tshisekedi, elogiado por Trump como um “homem corajoso” no Café da Manhã Nacional de Oração realizado em cinco de fevereiro em Washington, e à defesa diplomática dos interesses de investidores americanos. Ainda assim, fornecedores do sistema de defesa americano, como Erik Prince, ex-chefe da Blackwater — hoje Constellis —, defendem abertamente laços de segurança mais estreitos. Agentes da Vectus Global, nova empresa de segurança de Prince, teriam atuado ao lado das forças do governo central na batalha travada no início de janeiro por Uvira, cidade do leste da RDC às margens do lago Tanganica.
Na visão da sociedade civil congolesa, não há dúvida de que a investida dos Estados Unidos tenha qualquer objetivo além de negócios. Sem um controle mais democrático sobre a riqueza mineral do país, a preocupação é que o povo da RDC volte a ficar com uma parcela mínima dos benefícios, enquanto o capital americano inicia uma corrida por investimentos que parece, acima de tudo, destinada a lubrificar as engrenagens de uma governança corrupta — e os balanços de corporações estrangeiras. “O combate à corrupção foi descartado totalmente pelo governo americano”, afirmou Jean-Claude Mputu, porta-voz do coletivo Congo n’est pas à vendre (CNPAV, “Congo não está à venda”). “A população congolesa vive sobre uma vasta riqueza mineral, mas não se beneficia dela porque o dinheiro é desviado pelas elites locais e as corporações estrangeiras que envenenam nosso solo subornam nossos líderes políticos para não enfrentarem processos judiciais.”
A tentativa do governo Trump de firmar presença na RDC não está livre de obstáculos. O país já está sob a influência de rivais dos Estados Unidos, como a China, cujas empresas controlam atualmente cerca de 80% da riqueza mineral congolesa, incluindo muitos de seus ativos mais valiosos e mais seguros. Tshisekedi, por sua vez, abriu caminho para uma alta nos investimentos americanos, mas parece igualmente disposto a jogar interesses estrangeiros concorrentes uns contra os outros. Membros do setor nos Estados Unidos esperam que a oferta de Washington de uma parceria mais proativa, em contraste com a postura mais distante de Pequim, possa equilibrar o jogo. Mas há sinais de desconforto por parte da China. Em 26 de março, a RDC e a China reforçaram seus laços com um novo acordo de cooperação mineral, que inclui medidas para ampliar o processamento local de metais.
À frente da contraofensiva americana está uma nova leva de fundos de investimento, consórcios de mineração e startups de mineração “exploratória”, todos com apoio diplomático crucial dos Estados Unidos e com financiamento público. Desde a volta de Trump à Casa Branca, eles têm preparado o terreno para uma retomada da esfera de influência americana na RDC.
Um dos agentes que surgiu nessa investida americana por recursos é uma empresa relativamente pouco conhecida chamada Orion Resource Partners, que administra cerca de 8,6 bilhões de dólares em investimentos globais no setor de mineração. A empresa tenta entrar no mercado congolês após já ter firmado presença em países como Guiné e Namíbia, onde explora bauxita, ferro e lítio. Com apoio financeiro do governo americano, a Orion fundou em outubro passado o Orion Critical Minerals Consortium (Orion CMC), um veículo conjunto de investimento que levantou quatro bilhões de dólares em capital.
Em fevereiro, o Orion CMC anunciou uma parceria com o Glencore, gigante anglo-suíça da mineração, que cedeu uma participação de 40% em suas operações na RDC ao consórcio liderado pelos Estados Unidos, em um acordo avaliado em nove bilhões de dólares. A parceria dará ao Orion CMC e a seus investidores, incluindo o governo americano, controle sobre parte da produção das minas de cobre e cobalto do Glencore na RDC. Em março, o Orion CMC também financiou a aquisição da Chemaf — empresa de mineração sediada em Dubai e atuante na RDC desde o início dos anos 2000 — pela Virtus Minerals, uma companhia de capital de risco sediada nos Estados Unidos.
Sob administração democrata e republicana, o governo dos Estados Unidos esteve diretamente envolvido nessas manobras. Em 2024, o governo Biden pressionou o governo congolês a barrar a venda da Chemaf para a empresa chinesa Norinco. Já o governo Trump pressionou Kinshasa a afastar executivos da estatal de mineração Gécamines, que se opôs à transferência da Chemaf para investidores americanos.
Outro indicador crucial desse apoio é o respaldo financeiro oferecido pela Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (DFC, na sigla em inglês), que sustenta as empresas privadas à frente da ofensiva americana. Criada em 2019, durante o primeiro mandato de Trump, a DFC foi instituída para facilitar a projeção dos interesses econômicos dos Estados Unidos no exterior, fornecendo capital inicial para investimentos em cadeias externas de fornecimento de matérias-primas. Em dezembro de 2024, a DFC da era Biden destinou mais de 500 milhões de dólares para a construção da ferrovia do Corredor do Lobito, projetada para facilitar o escoamento de minerais rumo à costa atlântica de Angola a partir da Zâmbia, país sem saída para o mar, e do sudeste da RDC. O investimento de 600 milhões de dólares da DFC no Orion CMC no outono passado é considerada sua maior injeção de capital até agora, o que evidencia sua importância estratégica na investida de Trump na mineração africana.
Entra o setor de tecnologia dos Estados Unidos. O Vale do Silício também tem garantido participação direta na mineração africana, à medida que sua aposta total em inteligência artificial alimenta expectativas de um aumento da demanda por minerais críticos nos próximos anos. No início da década de 2020, chegou-se até a especular que Elon Musk, diretor-executivo da Tesla, teria considerado a aquisição do Glencore, o maior conglomerado de mineração do mundo em receita anual.
A KoBold Metals, empresa de mineração fundada em 2018, afirma usar inteligência artificial e métodos avançados de pesquisa para mapear depósitos ainda inexplorados de riquezas minerais. Entre seus investidores está a Breakthrough Energy Ventures, fundo criado em 2016 por Bill Gates e cujos participantes incluem Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Michael Bloomberg. Em um acordo assinado no verão passado com o governo da RDC, a KoBold recebeu sete licenças de exploração para depósitos de lítio, coltan e terras raras em uma área de 1.600 quilômetros quadrados.
Quando a gigante americana da mineração Freeport-McMoRan decidiu vender seus ativos na RDC para empresas chinesas, em meados da década de 2010, parecia que investidores americanos haviam desistido. Diante dos altos custos de operar em uma região marcada por instabilidade — e dos riscos judiciais inerentes a um ambiente de negócios assolado pela corrupção endêmica —, as empresas americanas pareciam estar em desvantagem estrutural em relação aos gigantes do setor de mineração chinês estatais.
Dez anos depois, uma nova geração de corporações americanas retornou disposta a pôr as mãos na massa. Elas também podem contar com muita liberdade por parte de uma administração que admite o caráter puramente transacional de sua ofensiva por recursos naturais na RDC.
Uma investigação de 2025 sobre as atividades da Orion na Guiné, conduzida pela Plataforma para Proteger Denunciantes na África (PPLAAF), encontrou indícios de suborno de autoridades guineenses para acelerar a exportação de minerais, além de outros abusos ambientais e de responsabilidade. Por exemplo, um acidente industrial ocorrido em 2023 em uma subsidiária da Orion resultou no derramamento de cerca de 7.500 toneladas de bauxita — incidente que executivos do grupo teriam tentado encobrir. Fontes internas disseram à PPLAAF que a empresa ainda deve 15 milhões de dólares em contribuições prometidas para investimentos comunitários, enquanto os lucros dos minerais do país continuam, de forma sistemática, fora do alcance das populações locais.
“O que é ainda mais preocupante na conduta da Orion na Guiné é a má gestão generalizada e o fato de que seu único interesse imediato é o lucro, independentemente das condições de trabalho e dos impactos sobre as comunidades locais”, afirmou o diretor-executivo da PPLAAF, Jimmy Kande:
Isso estabelece um precedente que deveria ter alertado a DFC e impedido que apoiasse a Orion como seu braço operacional no continente, diante das acusações de corrupção e crimes ambientais que vêm sendo investigados, inclusive pelas autoridades da Guiné, e que continuam sendo alvo de processos em andamento.
O acordo do Orion CMC com o Glencore também pode envolver a entidade apoiada pelo governo americano em um dos casos de corrupção mais escandalosos da história recente da mineração na RDC.
O acordo aproxima o grupo — e seus investidores, incluindo a DFC — de uma parceria implícita com o bilionário israelense do setor de mineração Dan Gertler, que está sob sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos desde 2017. Ao decidir sancionar Gertler com base na Lei Magnitsky de 2012, o Tesouro afirmou que o magnata israelense da mineração “acumulou sua fortuna por meio de acordos obscuros e corruptos de mineração e petróleo no valor de centenas de milhões de dólares na República Democrática do Congo”. Graças a um esquema para pagar os royalties de mineração de Gertler em euros, e não em dólares, ele continuou lucrando com suas parcerias com o Glencore.
Em 2017, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos estimou que o prejuízo para o orçamento da RDC, resultante desses negócios, chegou a cerca de 1,3 bilhão de dólares. Elon Musk negou buscar a aquisição total do Glencore, mas um estudo sugere que o acordo da Tesla para comprar seis mil toneladas de cobalto por ano da empresa anglo-suíça gera entre quatro e cinco milhões de dólares anuais em royalties para o bilionário israelense.
“Dan Gertler talvez seja o indivíduo que mais lucrou com a riqueza mineral do Congo. Ele construiu um sistema enorme de corrupção sancionado pelo governo dos Estados Unidos, mas acobertado com a cumplicidade do Glencore”, afirmou Mputu, do coletivo CNPAV. “Todos parecem ter aceitado essa situação. Com o retorno de Trump ao poder, uma de nossas preocupações agora é que essas sanções sejam suspensas para permitir que a Orion trabalhe com o Glencore.”
A DFC e a Orion não responderam aos pedidos de comentário.
Mas não há dúvidas de que outras prioridades tenham assumido o centro das atenções enquanto os Estados Unidos retornam à disputa pelos recursos da RDC. Trump, por sua vez, não economizou palavras ao celebrar o acordo firmado em dezembro passado, na Casa Branca: “Vamos extrair algumas terras raras, retirar alguns ativos e pagar. Todos vão ganhar muito dinheiro.”
Harrison Stetler é jornalista freelancer e professor radicado em Paris.
