Dutos que seguem para o Ocidente

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Os sionistas dos EUA planejam reformar a Ásia Ocidental por meio de novos corredores de energia e comércio 

Em 19 de março de 2026, um dia depois do ataque dos EUA e de Israel ao campo de gás South Pars, no Irã, que fornece cerca de 80 porcento do gás natural consumido em território nacional, o Primeiro-Ministro israelense Benjamin Netanyahu expôs sua visão para a região: "Basta ter oleodutos e gasodutos que seguem para o oeste, cruzando a Península Arábica até Israel, até nosso portos no Mediterrâneo, e os pontos de gargalo são eliminados para sempre".

Após o Irã fechar o Estreito de Ormuz como uma forma de afirmar sua soberania, a disparada no preço do petróleo foi sentida em todo o mundo e iniciou o que se tornou a maior crise de energia da história. Netanyahu aproveitou a oportunidade para apresentar um corredor de duto terrestre como uma "solução clara" para eliminar a capacidade do Irã de tirar vantagem de sua geografia. Ao direcionar o petróleo da região do Golfo para o oeste, cruzando a Península Arábica para os portos do Mediterâneo ocupados por Israel, o Estreito de Ormuz seria completamente contornado, elevando a importância estratégica de Israel como um centro global de energia e transporte.

A proposta de Netanyahu não é nenhuma novidade. Ela reflete a estratégia de longa data dos EUA e de Israel para reformar a Ásia Ocidental. Por meio da guerra híbrida, EUA e Israel alvejaram o desarmamento total de todas as forças regionais de oposição à sua hegemonia e ao seu projeto expansionista para promover o genocídio. Os acordos de normalização das relações com os estados árabes que fazem fronteira com a Palestina foram essenciais para tal estratégia, criando dependências assimétricas sobre as exportações de energia de Israel e fomentando a classe compradora das elites árabes comprometidas com o sustento do projeto sionista.

O fechamento do Estreito de Ormuz acelerou as ações para a construção dos corredores de energia para ligar o Oriente ao Ocidente. Utilizando o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC), Israel tem como objetivo se tornar uma passagem absoluta para o comércio energético entre a Ásia e a Europa, opondo-se diretamente ao comércio Sul-Sul. Entretanto, esses planos estão bem longe de serem concretizados. Eles estão competindo com propostas alternativas que colocam a Turquia como o centro da reformulação das cadeias de fornecimento de energia. 

Esta leitura expõe os dois principais corredores Leste-Oeste de energia que competem entre si, o corredor da Turquia e o corredor IMEC, e analisa como os acordos de normalização de Israel invertem sua posição inicial de dependente de energia importada. De forma crítica, embora os EUA e Israel tenham pressionado pelo estabelecimento do corredor IMEC, Israel continua a se beneficiar de uma expansão do corredor da Turquia devido a sua dependência do petróleo bruto que passa por essa rota. Concluímos que seria necessário impor um embargo total de energia a Israel, capaz de cortar as exportações de combustível, que leve o país a avançar com suas ambições expansionistas e coloniais. 

Normalização: legitimação de Israel na região

A energia é um recurso essencial para consolidar o projeto colonialista sionista e criar as dependências assimétricas que fundamentam as relações de Israel com a Ásia Ocidental. Durante a maior parte do século 20, Israel possuía reservas limitadas de petróleo e gás no país, contando com importações de combustível de estados não árabes para enfrentar o isolamento feito pelos estados árabes que se recusavam a negociar com o país. O embargo árabe de petróleo de 1973-74 mostrou como a energia pode influenciar Israel e seus patrocinadores. Após a revolução iraniana em 1979, que parou de forma efetiva as exportações não oficiais de petróleo do Irã para Israel, o regime israelense foi obrigado a diversificar urgentemente suas fontes de petróleo e impulsionar a produção doméstica. 

Os acordos de Camp David de 1978 disponibilizaram a estrutura inicial para a normalização árabe com Israel. O acesso ao petróleo pela Península do Sinai permitiu a Israel gerenciar o impacto imediato da "crise petrolífera" causado pela revolução iraniana. Desde 1978, cada renovação dos acordos de normalização, dos Acordos de Oslo até os Acordos de Abraão, mantiveram a segurança das rotas de comércio e energia de Israel ao criar relações de subordinação com seus vizinhos árabes enquanto, ao mesmo tempo, buscavam o cerco das forças de resistência na região, incluindo Hezbollah, Ansarallah e Irã. 

A descoberta do campo de gás Leviathan, em 2010, pela companhia de energia NewMed permitiu a Israel tomar medidas contra sua dependência histórica de gás importado e a se posicionar para se tornar um dos principais exportadores mundiais de energia. A produção de gás atual de Israel agora ultrapassa a demanda do mercado doméstico. Enquanto a indústria de gás de Israel cresce com os investimentos de companhias energéticas ocidentais, como BP e Chevron, esse excedente tende a crescer ainda mais. Como consequência, Israel dá grande destaque para a exportação do gás excedente, principalmente para os estados árabes vizinhos. Desde o início da produção de gás natural, o regime israelense arrecadou US$ 9,5 bilhões de taxas, contribuições sobre lucros e impostos de renda de pessoas jurídicas. Esses ganhos contribuem diretamente para a economia genocida e colonialista de Israel. 

A produção estável e o fornecimento de gás natural por Israel tornou os estados árabes vizinhos dependentes dessas exportações. Em 2016, a Jordânia assinou um acordo secreto de US$ 10 bilhões para comprar 300 milhões de pés cúbicos (cerca de 8,5 milhões de m³) de gás por dia ao longo de 15 anos. Agora, 40 porcento das importações de gás natural da Jordânia vêm de Israel, com o acordo impedindo qualquer possibilidade da Jordânia de se independente de Israel se descobrir suas próprias reservas de gás. O Egito, outrora um dos maiores exportadores da região, viu seu setor doméstico sofrer com a venda de gás abaixo do custo de produção para Israel. Isso resultou no país se tornando cada vez mais dependente das exportações de gás vindas de Israel. A normalização das relações com o Egito desde os Acordos de Camp David apenas sinalizou o aprofundamento de sua subordinação, com Israel tendo vantagem para interromper o fornecimento de combustível. Após o ataque coordenado dos sionistas dos EUA ao Irã em junho de 2025, a suspensão do fornecimento de gás de Israel para o Egito já havia causado apagões e preocupação com uma crise energética iminente. 

Os Acordos de Abraão, uma série de acordos de normalização intermediados pelos EUA e fechados em 2020 entre Israel e nações árabes, incluindo os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, abriram as portas para a criação de novos corredores comerciais regionais que estabelecem Israel como o principal centro de conexão global. Os Acordos sinalizaram a crescente integração estratégica entre os Emirados Árabes Unidos e Israel. Um acordo feito em 2020 entre a Eilat Ashkelon Pipeline Company e a MED-RED Land Bridge tinha como objetivo transportar petróleo da região do Golfo para os mercados europeus utilizando os gasodutos Eilat-Ashkelon, cruzando o Canal de Suez. Contudo, esse acordo não se concretizou, supostamente adiado devido às "preocupações ambientais". O bloqueio naval do Mar Vermelho imposto pelo Ansarallah, em 2023, em resposta ao genocídio e ao cerco promovido por Israel em Gaza, também interromperam qualquer pretensão de rotas comerciais novas e seguras. 

Ainda assim, com a recente saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP e a expansão das relações comerciais e de segurança com Israel, é muito provável que novas rotas energéticas sejam negociadas para assegurar a posição de Israel como uma potência energética e de transporte regional, o que acabará fomentando novas dependências assimétricas. As massas árabes que apoiam a Palestina pagam caro por esses acordos de normalização: acordos que desgastam a soberania de seus estados, pioram o autoritarismo dos regimes impopulares de compradores alinhados com os EUA e legitimam um projeto expansionista colonialista capaz de exercer influência pelo controle energético.

Já seguindo para o oeste: O corredor da Turquia

O corredor da Turquia abrange gasodutos que já estão "indo para o oeste". A guerra EUA-Israel contra o Irã deu à Turquia uma oportunidade de afirmar sua infraestrutura energética como essencial por passar pelo Estreito de Ormuz. 

Enquanto os acordos de normalização árabes ajudaram nos planos de Israel para se tornar um dos principais centros de exportação de energia e transporte regional, o país ainda depende primariamente de importações para suas reservas de petróleo bruto. Atualmente, mais de 40 porcento do petróleo bruto total de Israel é transferido pelo porto de Ceyhan, na Turquia. Em janeiro de 2026, nossa investigação conjunta com o Movimento da Juventude Palestina e a Internacional Progressista revelou que 57 remessas, carregando 47 milhões de barris de petróleo bruto, foram feitas desde que a Turquia anunciou um embargo comercial a Israel em maio de 2024. Os petroleiros que completavam a viagem frequentemente desligavam seu rastreamento de sinais e se dirigiam aos portos israelenses às escondidas. 

A maior parte desse petróleo bruto chega ao porto israelense Ashkelon EAPC, a menos de 10 km de distância de Gaza. Uma vez descarregado, é transportado para a refinaria em Haifa, do Grupo Bazan, ou para a de Ashdod, da Paz Oil. Essas duas corporações, presentes na lista de restrições da ONU, possuem acordos contratuais ativos para fornecer produtos de energia de grau militar ao Ministério da Defesa de Israel. Tais produtos impulsionam a expansão de assentamentos ilegais em Israel, bem como o abastecimento de caças e outros veículos militares usados no genocídio cometido por Israel em Gaza e suas agressões na região. O petróleo do qual Israel depende é fornecido pelo oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC). 

O "Contrato do Século" serviu de base para o projeto energético de US$ 4 bilhões da Nova Rota da Seda, que se concretizou logo após a dissolução ilegal da União Soviética e a criação do Estado independente do Azerbaijão. Esse momento histórico impulsionou a política externa dos EUA voltada para a criação de corredores "unidirecionais" projetados para facilitar a extração a longo prazo de recursos naturais orientais. Sob o governo de Clinton, em meados dos anos 1990, os interesses imperialistas dos EUA e da Grã-Bretanha avançaram graças à BP. A multinacional britânica liderou os esforços para pressionar o governo azerbaijano, incluindo uma visita oficial da ex-Primeira-Ministra britânica Margaret Thatcher, financiada pela BP, para estreitar os laços com o novo Estado, em 1994. 

Doze anos depois, a construção dos oleodutos da capital do Azerbaijão até o porto de Ceyhan, na Turquia, cruzando a Geórgia, estava completa. Hoje, o preço do petróleo bruto "Azeri Light BTC” aumentou drasticamente como resultado da decisão do Irã de fechar o Estreito de Ormuz.

Como articulado pelo embaixador dos EUA, Richard Morningstar, à União Europeia, o objetivo do "corredor de transporte energético Leste-Oeste" era "não apenas construir oleodutos e gasodutos", mas "usar [esses] dutos como ferramentas para estabelecer uma estrutura política e econômica inicial". 

A pressão do regime israelense pelos "dutos para o oeste" impulsiona exatamente essa estrutura política e econômica: reformar a região da Ásia Ocidental para consolidar o projeto expansionista de Israel e isolar o Irã junto com outros atores da resistência. Como consequência, o oleoduto BTC, operado pela gigante petrolífera britânica BP, deve ser entendido como um modelo para o futuro desenvolvimento energético na região. 

Especificamente para a Turquia, o oleoduto BTC cumpre um papel maior e mais central. Ele funciona como evidência de que a Turquia é um fornecedor confiável e "neutro", capaz de se tornar um centro comercial de energia para o Ocidente a longo prazo. Dentro desse cenário, o oleoduto BTC é apenas um dos três corredores turcos unidirecionais vitais que vão para a Europa.

Uma segunda rota principal é referida como o Corredor Meridional de Gás. Esse corredor consiste em três gasodutos principais: o Cáucaso do Sul, o Trans-Anatólio e o Trans-Adriático. Todos eles operam sobre e atravessando o território turco, tornando o país essencial no âmbito político e material para essa infraestrutura energética. De 2021 a 2024, o fornecimento de gás por esses gasodutos para os Estados da UE que precisavam diversificar suas fontes de energia aumentou em 40 porcento. Tal tendência foi seguida, com a Alemanha e a Áustria sendo os países mais recentes a importarem gás por essa via em janeiro de 2026.

E mais importante, o Corredor Meridional de Gás transporta gás vindo do campo Shah Deniz, do Azerbaijão. Esse campo de gás foi o maior já descoberto pela BP e sua localização é bem próxima aos campos de petróleo ACG, que fornecem petróleo bruto para o oleoduto BTC. Os dois locais de extração de energia do Mar Cáspio ainda pertencem majoritariamente à BP, com participação minoritária da companhia nacional de energia da Turquia. Atualmente, a BP é a principal acionista de cada gasoduto que compõe o Corredor Meridional de Gás. A presença da empresa britânica de energia é uma réplica do modelo do oleoduto BTC, refletindo na própria referência da BP ao Corredor Meridional de Gás como “o Projeto do Século”

O terceiro maior oleoduto que bombeia petróleo pela Turquia é o Kirkuk-Ceyhan, também chamado de "oleoduto Iraque-Turquia". Ao contrário dos dois projetos anteriores, esse oleoduto parecia, inicialmente, uma aliança política mais próxima da rota Sul-Sul, em comparação com a criação do oleoduto BTC, impulsionada pelos EUA, e o financiamento do Corredor Meridional de Gás pela Comissão Europeia. Embora construído em 1973, mesmo ano do embargo petrolífero árabe, o oleoduto permaneceu subutilizado e inativo desde 2023 devido aos processos pendentes no Tribunal Internacional de Arbitragem. 

Entretanto, desde que o Irã fechou o Estreito de Ormuz em resposta à guerra imposta pelos EUA e Israel, o Ministro da Energia turco e o Diretor da Agência Internacional de Energia anunciaram publicamente que o oleoduto Iraque-Turquia se tornaria a rota primária de petróleo para contornar o Irã e acelerar a produção de petróleo. Esses anúncios vieram, de forma significativa, após um Memorando de Entendimento assinado em fevereiro de 2026 entre a empresa petrolífera nacional da Turquia e a BP para explorar e extrair o petróleo iraquiano, sinalizando a intenção da BP de reativar o oleoduto inativo. 

Se esse projeto se concretizar, aumentaria o acesso europeu ao mercado energético ao aumentar o volume de petróleo iraquiano que chega no porto de Ceyhan, na Turquia, e diminuir a dependência global no Estreito de Ormuz. Por ser um oleoduto que passa pela superfície terrestre, ele é visto como um meio barato e eficiente para transportar grandes quantidades de petróleo. Sem dúvidas, isso elevaria o status da Turquia como um líder mundial no setor de energia. 

O petróleo proveniente do oleoduto Iraque-Turquia pode, eventualmente, ser exportado para Israel. Contudo, isso colidiria com os objetivos maiores do regime israelense: enfraquecer os estados regionais fortes, mudar o status de importador para exportador de energia e reivindicar a dominância regional nos setores de transporte e energia. É nessa contradição que o corredor IMEC entra. 

Competição de corredores: Israel e IMEC

Quando Netanyahu declarou publicamente a necessidade de "rotas alternativas", não houve dúvidas em seu discurso de que os dutos devem "cruzar a Península Arábica, até Israel, até nossos portos no Mediterrâneo". Essa rota proposta reflete as projeções para o IMEC, um projeto desenhado para consolidar Israel como uma porta de entrada indispensável para o comércio Leste-Oeste. 

Anunciado pela primeira vez na Cúpula do G20 em Nova Deli, em setembro de 2023, o IMEC foi concebido como uma rota de comércio para rivalizar com a Iniciativa Cinturão e Rota da China, integrando as economias da Ásia, da região do Golfo e da Europa. Os produtos energéticos seriam transportados dos portos na costa oeste da Índia, circundando o Estreito de Ormuz até os países do Golfo, onde seriam transportados pela Arábia Saudita antes de cruzar a Jordânia e Israel para chegar ao porto de Haifa. A integração mar-terra-mar torna essa rota uma proposta extremamente cara e complexa, demandando grandes melhorias nos portos e a construção de novas infraestruturas, incluindo ferrovias e dutos na Jordânia. 

A Operação Inundação de Al-Aqsa (Al-Aqsa Flood) atrasou os passos iniciais do projeto. Porém, como testemunhado no começo deste ano com o sequestro do Presidente venezuelano Maduro orquestrado por Trump e o roubo do petróleo venezuelano, as ações militares dos EUA são, frequentemente, um ato precursor da reforma de rotas comerciais imperialistas. 

Após os ataques militares ao Irã este ano, os EUA e Israel já estão preparando o terreno para pressões mais agressivas pela hegemonia sionista dos EUA na região. Em 29 de abril de 2026, os senadores Cory Booker e Dave McCormick apresentaram a bipartidária Lei do Corredor do Mediterrâneo Oriental (East Mediterranean Gateway Act), formulada para aumentar o envolvimento dos EUA na região como uma "porta estratégica no Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa". No anúncio da legislação, o Senador McCormick afirmou: "A Operação Fúria Épica mostrou que o Mediterrâneo Oriental não está à margem do Oriente Médio, mas está, na verdade, no centro".

A promoção do Mediterrâneo Oriental como o chamado "centro" do Oriente Médio é completamente intencional. Trata-se de um resultado direto da fortificação do regime israelense promovida pelos EUA por meio do fornecimento ilimitado de armamento e da concessão de sucessivos acordos de normalização firmados com os países árabes vizinhos. O projeto de lei menciona explicitamente como fundamento "a política dos Estados Unidos para expandir e fortalecer os Acordos de Abraão para encorajar outras nações a normalizar relações com Israel". 

O projeto do IMEC é, portanto, visto como um meio essencial para consolidar os laços de normalização entre Israel, Índia, países árabes e UE, com seu desenvolvimento já se tornando realidade antes mesmo da Cúpula do G20 acontecer. 

Fundado em 2020, o Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental (EMGF), cujos membros incluem Jordânia, Israel, Chipre, Grécia, Egito, a Autoridade Palestina, França e Itália, além de observadores como UE, EUA e Banco Mundial, tinha a intenção de mudar a dependência europeia do gás russo para o gás natural liquefeito (GNL), mais caro, dos EUA. Esse objetivo foi concretizado em 2022, por meio do acordo de gás entre a UE e o Egito, cujos termos ditaram as vendas do GNL do Egito para a Europa e integraram o gás israelense na cadeia de suprimentos. 

Desde então, Israel buscou expandir ainda mais sua indústria de gás, concedendo licenças de exploração offshore durante todo o período de genocídio, inclusive licenças para extrair gás das águas palestinas anexadas a Israel. Em janeiro de 2026, em Davos, Jared Kushner apresentou o projeto "Nova Gaza" para o "Conselho da Paz", liderado pelos EUA, apontando oportunidades para expandir a indústria energética assim que a "segurança" e a desmilitarização forem garantidas em Gaza. Dado o histórico de Israel e o roubo contínuo dos recursos palestinos, embora as especificações de qualquer plano de infraestrutura energética ainda sejam desconhecidos, é provável que o Gaza Marine, uma reserva de gás de US$ 4 bilhões inexplorada, seja parte central das exportações de gás de Israel para a UE junto com o GNL dos EUA. 

Além dos planos incompletos do Conselho da Paz, os signatários do IMEC continuaram a estreitar seus laços com Israel. A gigante energética da Índia, Adani, adquiriu o porto de Haifa, de Israel, em 2023. Após um aumento exponencial do comércio desde os Acordos de Abraão, a recente saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP promete levar os países a uma relação comercial ainda mais estreita com Israel. Os EUA fundaram a "aliança 3+1", formalizando seu papel na parceria estratégica com Israel, Chipre e Grécia. O pedido do Líbano ao Presidente Macron, da França, para se juntar ao IMEC recebeu amplo criticismo como uma tentativa de indiretamente normalizar as relações com Israel. Desde as aquisições industriais até as relações geopolíticas, tais movimentos apontam para Israel se tornando uma, se não a, porta de passagem de energia e outros comércios do leste para o oeste. 

Não é surpresa que Netanyahu tenha apresentado o projeto para a Assembleia Geral da ONU com um mapa intitulado "A Bênção" (The Blessing) e comparando com um segundo mapa com o Irã marcado em preto com o título "A Maldição" (The Curse). Sionistas costumam recorrer a essa linguagem carregada de conotação religiosa para invocar uma imagem cada vez mais difundida de um "Grande Israel". O embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, fez uma declaração polêmica quando disse: "Seria ótimo se [Israel] ficasse com tudo". 

Apesar da atual dependência israelense do petróleo bruto do BTC vindo dos portos turcos, a Turquia foi visivelmente excluída do IMEC e do Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental. 

Em fevereiro de 2026, Netanyahu defendeu a criação de um novo "hexágono de alianças" para combater o que chamou de "eixo sunita emergente", uma clara referência à Turquia. No dia anterior ao primeiro ataque dos EUA e de Israel ao Irã, Yoav Gallant, procurado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, alertou sobre a ascensão da Turquia na região e defendeu a busca pela normalização como parte da "doutrina da periferia" de Israel. 

Apesar da oposição retórica e das crescentes ameaças de Israel à Turquia, o país ainda permitiu o abastecimento do genocídio promovido por Israel. Para Israel, o IMEC oferece um futuro do qual nenhum país na região pode exercer influência sobre. Por meio de acordos de normalização, ocupação militar, guerra híbrida e agressão genocida, Israel está impondo seu projeto de subordinação e desarmamento regionais. 

A luta por um embargo energético

A visão de Netanyahu dos dutos "seguindo para o oeste, cruzando a Península Arábica, até Israel, até os portos no Mediterrâneo" não é uma fantasia especulativa. É o provável desfecho de décadas de acordos de normalização, cada um dos quais subordina os países árabes às dependências energéticas de Israel, ao mesmo tempo em que enriquece uma classe compradora árabe interessada em sustentar o sionismo. 

O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã se mostrou um ameaça gigantesca para o sistema de petrodólar dos EUA e para a dependência global do transporte de petróleo a partir do Golfo via Estreito. Com as infraestruturas militar e de inteligência dos EUA ameaçadas na região do Golfo, como os valiosos sistemas de defesa aérea THAAD, a questão da reconstrução dos ativos estadunidenses e israelenses pode muito bem estar ligada à viabilidade do projeto IMEC. O corredor pode ser uma garantia para Israel angariar mais suporte militar da Europa se isso significar que os suprimentos essenciais de petróleo podem ser ameaçados por futuras retaliações.

A ordem emergente do IMEC está, no entanto, longe de ser incontestável. A Turquia, excluída do IMEC e do Fórum de Gás do Mediterrâneo Oriental, se posicionou como uma saída alternativa. O oleoduto BTC, o Corredor Meridional de Gás e o inativo oleoduto Iraque-Turquia oferecem rotas para o oeste que passam tanto pelo Estreito de Ormuz como por Israel. Por enquanto, Israel permanece, ironicamente, dependente da infraestrutura turca, com mais de 40 porcento de seu petróleo bruto sendo enviado de Ceyhan. O IMEC é, porém, projetado para acabar com essa dependência e garantir que nenhuma potência regional possa exercer qualquer influência energética sobre Israel. 

As cadeias de abastecimento não são afetadas apenas pela infraestrutura física dos oleodutos; elas apresentam vários pontos de vulnerabilidade. Do lado do IMEC, os EUA estão ativamente estimulando o investimento do setor privado de empresas de energia e comércio para concretizar o projeto. No que diz respeito ao oleoduto BTC, de propriedade da BP, a gigante britânica do setor energético está profundamente enraizada em instituições públicas, universidade e fundos de pensão por toda a Grã-Bretanha, enquanto pesquisas por satélite que revelam remessas secretas de petróleo para Israel já geraram questionamentos no Parlamento e pressão pública exigindo que o embargo comercial da Turquia seja devidamente aplicado. 

Com a integração estratégica dos interesses dos EUA e dos sionistas e uma intensificação de sua agressão na região da Ásia Ocidental, é mais imperativo do que nunca que forças progressistas em todo o mundo resistam à hegemonia imperialista liderada pelos EUA e lutem pelo embargo total de armas e energia a Israel.

Available in
EnglishSpanishPortuguese (Brazil)GermanArabic
Authors
Energy Embargo for Palestine
Translator
Daniela Hatakeyama
Published
28.05.2026
Progressive
International
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