Briefing

Newsletter da Internacional Progressista | No.  9 |  Ponto de Sufocamento

A batalha pelo Estreito de Ormuz revelou um novo equilíbrio de forças na Ásia Ocidental—e o desespero daqueles que buscam revertê-lo.
Na 9ª Newsletter da Internacional Progressista de 2026, além de outras notícias do mundo, nós examinamos como a guerra contra o Irã vem acelerando a derrocada da velha ordem imperial na Ásia Ocidental. Quer receber a nossa newsletter diretamente no seu email? Inscreva-se através do formulário no final desta página.

Neste fim de semana, negociadores norte-americanos e iranianos deverão se reunir em Islamabad, onde o Paquistão estabeleceu um cordão de segurança ao redor da capital na tentativa de sustentar um frágil cessar-fogo.

Os ganhos estratégicos do Irã após seis semanas de bombardeios aéreos podem ser lidos no cerne da agenda de negociações: o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz.

Antes do ataque dos EUA e de Israel contra o Irã— deflagrado pelo assassinato de altos funcionários iranianos em meio a negociações—o Estreito de Ormuz era tratado em Washington como um fato permanente do império: uma estreita via marítima por onde o petróleo mundial fluiria sob proteção norte-americana, cotado em dólares, disciplinado por sanções e respaldado por bases no Golfo que projetavam a força americana por toda a região.

Esse fato já não existe mais—e, muito provavelmente, jamais voltará a vigorar. Mesmo após o cessar-fogo anunciado em 7 de abril, o tráfego de navios através de Ormuz permanece muito abaixo do normal, situando-se em cerca de 5% a 10% dos níveis pré-guerra. A via marítima, por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial, encontra-se agora, na prática, sob controle iraniano, com a Guarda Revolucionária orientando embarcações através de águas iranianas, nas proximidades da Ilha de Larak.

O plano de cessar-fogo de 10 pontos de Teerã inclui uma taxa de 2 milhões de dólares por petroleiro (aproximadamente 10 milhões de reais), a ser paga em criptomoeda em vez de dólares—um sinal não apenas de vantagem militar, mas também do esforço de Teerã para direcionar o comércio para além dos canais financeiros que Washington utiliza há muito tempo para disciplinar seus inimigos.

O antigo arranjo era simples: o petróleo iraniano podia ser alvo de sanções, enquanto o do Golfo continuaria a fluir. Isso acabou. Os Estados Unidos foram forçados a conceder uma isenção temporária às sanções sobre as exportações de petróleo iraniano, em um esforço para atenuar o choque de oferta.

A mesma potência que passou anos tentando bloquear o acesso do Irã aos mercados globais agora improvisa exceções para mitigar as consequências de sua própria escalada militar. Em outras palavras, a guerra para destruir a República Islâmica fortaleceu sua posição estratégica.

Nem o custo recaiu apenas sobre o Irã. As bases norte-americanas, outrora apresentadas como instrumentos de domínio regional, revelaram-se passivos—sendo atacadas, evacuadas ou colocadas em estado de alerta máximo por todo o Golfo e no Mediterrâneo Oriental. As seguradoras de transporte marítimo recalibraram o risco em toda a região. Os mercados de energia permanecem voláteis. E, agora, Washington exige que seus aliados ajudem a limpar a bagunça: o Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, informou aos governos europeus que Trump deseja receber, nos próximos dias, medidas concretas para ajudar a garantir a segurança do Estreito de Ormuz—em meio a ameaças renovadas de que Washington poderia, afinal, abandonar a própria aliança por meio da qual há muito organiza seu império.

A Europa, por sua vez, assistiu aos acontecimentos desenrolarem-se, em grande medida, da arquibancada. Reduzidos a postos de reabastecimento para as missões de bombardeio dos EUA e a espectadores em negociações que não ajudaram a moldar, os governos europeus exerceram pouca influência sobre o curso da guerra ou sobre suas consequências. Os álibis morais da incursão militar dissolveram-se com notável rapidez. O que começou com a familiar propaganda de "libertação" e "democratização" transformou-se rapidamente em uma ameaça de destruição permanente da civilização iraniana.

Em todo o Irã, civis reagiram com desafio, formando cordões humanos em torno de infraestruturas críticas—cenas que capturaram o efeito político mais profundo da guerra: o bombardeio não fraturou a sociedade iraniana; muito pelo contrário, endureceu-a contra a coerção estrangeira. Conforme afirmou a Resolução de Teerã, assinada nesta semana por mais de quarenta movimentos em todo o mundo: “a guerra contra o Irã é, em sua essência, uma guerra para preservar a arquitetura em ruínas da supremacia ocidental”.

Longe de ter sido intimidado à submissão, o Irã emerge com maior influência sobre a artéria vital energética da região, uma posição mais sólida em termos de dissuasão e uma nova demonstração de que nem sanções nem bombardeios são capazes de apagá-lo do equilíbrio de poder regional. As monarquias do Golfo, os mercados de energia, Washington e seus aliados à deriva devem agora confrontar-se com uma realidade há muito negada nas capitais ocidentais: o Irã não pode ser tratado como irrelevante.

Do ponto de vista do governo de Benjamin Netanyahu, uma situação em que o Irã sobreviva, preserve sua profundidade estratégica e converta sua resiliência militar em alavancagem diplomática e econômica constitui uma clara derrota estratégica. A escalada dos ataques de Israel contra o Líbano—e a insistência de que Beirute se situa fora do âmbito do cessar-fogo—representa um esforço para reverter, por outros meios, aquilo que não pôde ser alcançado por meio do bombardeio direto ao Irã.

Como o Gabinete da Internacional Progressista alertou essa semana: “A agressão letal de Israel no Líbano não pode ser compreendida de forma isolada”, mas faz parte de “uma campanha mais ampla de terra arrasada para estabelecer a Grande Israel e sufocar as forças de resistência que se interpõem em seu caminho—estejam elas em Gaza, Beirute ou Teerã.”

Nenhum documento proveniente de Islamabad pode garantir o cessar-fogo enquanto as potências que provocaram esta guerra ainda buscam ditar o seu desfecho. Israel amplia o ataque ao Líbano; Washington reserva-se o direito de retomar o bombardeio a qualquer momento; e a própria diplomacia transcorre sob a sombra, já familiar, dos assassinatos.

Mas os EUA e Israel não detêm o comando da escalada; o Irã, sim, pois possui as chaves de Ormuz.

Por enquanto, os navios-tanque avançam lentamente pelo estreito sob a vigilância iraniana, enquanto diplomatas se reúnem no Paquistão sob escolta armada. A velha ordem na Ásia Ocidental está morrendo. A questão é o que emergirá de seus escombros.

Para as forças progressistas em todo o mundo, a tarefa não é meramente observar o declínio imperial—mas organizar a ordem mais igualitária que o substituirá.

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10.04.2026
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