Notícias de países latino-americanos em que a direita voltou ao poder parecem seguir um roteiro pré-determinado. Governos cujos líderes participaram da Cúpula das Américas repetem, no contexto local, a mesma lógica política: reformas estruturais destinadas a beneficiar as grandes empresas; alianças entre as elites empresariais nacionais e os interesses estratégicos de Washington; perseguição política a líderes sociais; uso das forças de segurança para reprimir protestos; preconceito contra o movimento popular; e o retorno da religião como ferramenta de justificativa ideológica.
A Bolívia não é exceção. Em seis meses do governo de Rodrigo Paz o país parece estar em agitação constante. O pacote de decretos e leis promovido pelo Executivo — focado em privatização de recursos estratégicos, abertura econômica e redução do papel do Estado (DS5503) — somado à inflação, à má gestão governamental, às promessas não cumpridas, à tentativa de reforma agrária e à constante subestimação do bloco popular como agente político, afetou gravemente a estabilidade institucional. As demandas das organizações sociais já não se limitam mais à revogação de leis específicas; hoje, a mobilização exige diretamente a renúncia de Paz.
A crise social da Bolívia não é recente. É resultado de fraturas históricas e de feridas políticas reabertas após a crise de 2019. A exclusão de organizações sociais das decisões, junto com políticas econômicas que beneficiam apenas uma pequena minoria, como a eliminação do imposto sobre grandes fortunas, trouxe de volta à tona o problema estrutural que o país nunca resolveu completamente: a persistência do colonialismo interno.
A velha lógica oligárquica, em que o país é governado por uma elite “capacitada” devido à “falta de entendimento” de setores indígenas e trabalhadores sobre como o Estado funciona, tem ressurgido com força. A Bolívia parece ter voltado a um estágio em que os governantes sequer se assemelham à maioria da população, mas àqueles que historicamente consideraram a política como um domínio hereditário e excludente.
O precedente principal do conflito atual ocorreu na grande marcha de 2025, que paralisou o país por duas semanas e forçou o governo a recuar do primeiro pacote de medidas de privatização. Como é de costume na Bolívia, poucas horas após o anúncio das reformas as organizações sociais iniciaram um processo de mobilização de base, explicando aos sindicatos, comunidades e bairros as consequências dessas políticas no dia a dia da população.
O movimento “A Bolívia não está à venda” conseguiu revogar o DS5503 e marcou o retorno de uma capacidade de ação coletiva não vista desde o início do século. As cenas inevitavelmente lembraram os grandes ciclos de protesto da Guerra da Água e da Guerra do Gás: mobilizações auto-organizadas, estruturas sindicais ativadas e uma narrativa popular baseada na defesa dos recursos nacionais contra interesses externos.
A situação hoje é ainda mais complexa. O bloqueio nacional liderado pelo setor camponês e apoiado pela Central Operária Boliviana, ao lado de produtores de coca, professores rurais, cooperativas mineiras e conselhos de bairro, reflete um sentimento profundo de exaustão com a impotência política do governo. Para uma parte significativa do movimento social, não há mais espaço para negociação. O ponto de vista geral é que o governo Paz nunca entendeu a natureza do conflito boliviano, governando o país como se as organizações de base fossem agentes secundários, e não a estrutura primária de estabilidade política construída desde 2006.
O fracasso do novo ciclo neoliberal ocorreu por causa desse equívoco histórico. A visão econômica de Paz e sua equipe parece limitada a repetir modelos promovidos pelos Estados Unidos e por instituições financeiras internacionais: abertura irrestrita do mercado, redução do Estado e liberalização das exportações. No entanto, a Bolívia nunca desenvolveu uma economia industrial sólida, capaz de sustentar essa abertura sem aprofundar as desigualdades.
Durante os catorze anos de governo do Movimento ao Socialismo (MAS-IPSP), houve ao menos uma tentativa de alterar a lógica histórica de exportar recursos naturais a baixo custo, com a riqueza concentrada nas mãos de alguns. A liberalização das exportações e os benefícios concedidos a grandes setores do agronegócio geram divisas que muitas vezes não retornam de forma efetiva ao circuito econômico nacional. O crescimento das exportações pode melhorar certos indicadores macroeconômicos, mas é irrelevante para uma população cujo poder de compra diminui dia após dia. O problema não é apenas quanto o país exporta, mas também quem se beneficia dessa riqueza.
Outro grande erro de Paz foi supor que poderia governar sem depender das bases sociais organizadas. Desde o início do mandato, o governo tratou sindicatos, organizações indígenas e movimentos camponeses como subordinados, incapazes de compreender a “complexidade técnica” da crise econômica. Essa perspectiva ignora totalmente a transformação política da Bolívia depois de 2006.
Com a ascensão de Evo Morales ao poder, as organizações sociais deixaram de ser simples grupos de pressão e se tornaram agentes do governo. A estabilidade política da era do MAS foi sustentada tanto pela liderança presidencial, quanto por um mecanismo de co-gestão territorial em que sindicatos, comunidades e setores populares faziam parte da estrutura estatal.
O que acontece hoje é, em grande parte, o retorno do velho “Estado aparente”: um Estado que fala em nome da nação, mas ignora a maioria social e que traiu os pactos eleitorais que prometiam, no mínimo, a participação contínua dos camponeses no poder político.
Incapaz de resolver a crise, o governo recorreu mais uma vez a uma estratégia clássica: a criação de um inimigo interno. Governar também envolve negociar e distribuir poder. No entanto, o Executivo escolheu o caminho oposto: atribuir imagem negativa aos que anteriormente haviam demonstrado liderança política.
Os ministros de Obras Públicas e da Presidência, Mauricio Zamora e José Luis Lupo, retratam o bloco popular como uma ameaça à nação, enquanto setores conservadores usam títulos como “terroristas” ou “invasores” para descrever protestos sociais.
Até Carlos Mesa, que chegou ao poder após a renúncia de Gonzalo Sánchez de Lozada durante a Guerra do Gás, insiste hoje em atribuir toda a instabilidade à mobilização popular, e não à incapacidade estrutural de entender a diversidade da população do país.
Nesse contexto, o governo tenta mais uma vez tornar Evo Morales o principal culpado pelo conflito. No entanto, até dentro do próprio movimento popular se entende que a crise atual transcende qualquer liderança individual. Desde 2024, Morales reduziu significativamente sua capacidade de mobilização fora das bases políticas por causa da pressão do governo de Luis Arce e das ameaças do governo atual. Ainda assim, continua sendo uma estratégia útil para o partido no poder usar Morales como alvo de ataques e polarizar o cenário político.
Apesar disso, o ex-presidente Morales continua a transmitir uma mensagem política focada em sua posição central, reconhecendo que, por mais que reprimam ou busquem individualizar a demanda, o descontentamento é muito mais profundo. Suas palavras são claras: “O problema não está nos líderes ou nas figuras populares. Podem processá-los, prendê-los e matá-los. Mas revolucionários continuarão a lutar contra o sistema político-econômico que vê indígenas e trabalhadores como selvagens, sem alma e sem direitos.”
Enquanto isso, políticos anistiados desde o golpe de Estado e agora no poder — como Manfred Reyes Villa — pedem “mão pesada” e, ao mesmo tempo, slogans racistas são desencadeados, acompanhados pela impunidade que parecia ter sido superada. Mais uma vez, para o governo, o indígena se torna o inimigo do país.
A diferença é que a Bolívia indígena e popular de hoje já não aceita o papel subalterno historicamente atribuído. Após duas décadas de transformação política, milhões de pessoas experimentaram pela primeira vez a possibilidade real de disputar o poder do governo. É por isso que o conflito atual não é apenas econômico ou institucional: é uma disputa histórica entre duas visões de país.
Dois bolivianos se enfrentam mais uma vez. Um que vê o Estado como o domínio de uma elite, e outro que o vê como uma estrutura em que as maiorias populares coexistem e governam. Já não se trata apenas da continuidade de um governo, mas de definir quem tem o direito de governar a Bolívia.
