Environment

A Amazônia no ponto de não retorno

A humanidade transformou a Amazônia de um sumidouro de carbono em uma fonte de carbono.
A floresta amazônica em breve ultrapassará o ponto crítico irreversível em direção ao colapso total. A Internacional Progressista se mobiliza para impedir isso.
A floresta amazônica em breve ultrapassará o ponto crítico irreversível em direção ao colapso total. A Internacional Progressista se mobiliza para impedir isso.

Nota Editorial: Este mês a Internacional Progressista está se mobilizando para que o Brasil seja solidário com seus povos indígenas contra o mais recente ataque de Bolsonaro à Amazônia. Esta luta não poderia ser mais urgente: se as taxas atuais de desmatamento continuarem, os "pulmões da terra" logo ultrapassarão um ponto sem volta, em direção ao colapso total do ecossistema - uma tragédia indescritível tanto para as pessoas quanto para o planeta. Um novo estudo revelou que a floresta já reverteu de sumidouro líquido de carbono para emissor líquido de carbono. A hora de agir é agora.

Após anos de advertências e temores crescentes entre os cientistas, pesquisas "aterrorizantes" revelaram na quarta-feira que as mudanças climáticas e o desmatamento transformaram partes da bacia amazônica, um "sumidouro" crucial, em uma fonte do dióxido de carbono que aquece o planeta.

Embora pesquisas recentes tenham aumentado as preocupações sobre o fato de que a Amazônia coloca na atmosfera  mais CO2 e outros gases do efeito estufa do que absorve, as novas descobertas, publicadas na revista Nature, foram apresentadas como um "começo" por cientistas e repórteres do clima.

De 2010 a 2018 os pesquisadores do novo estudo - liderado por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - realizaram "medições de perfis verticais" de dióxido e monóxido de carbono alguns quilômetros acima da copa das árvores, em quatro locais na Amazônia.

Os pesquisadores descobriram que "o sudeste da Amazônia, em particular, atua como uma fonte líquida de carbono" e "as emissões totais de carbono são maiores no leste da Amazônia do que no oeste". Ressaltam que, nas últimas décadas, uma região foi "submetida a mais desmatamento, aquecimento e estresse hídrico" do que a outra.

Como noticiou o The New York Times na quarta-feira:

Em um artigo complementar na Nature, Scott Denning, professor do departamento de ciências atmosféricas da Universidade Estadual do Colorado, escreveu que os "perfis atmosféricos (do artigo) mostram que o futuro incerto está acontecendo agora".

Em resposta por e-mail a perguntas, o Dr. Denning elogiou o novo estudo como a primeira medição real em grande escala - de várias altitudes por milhares de quilômetros e setores remotos - do fenômeno, um avanço sobre a medição tradicional em sítios florestais. Os resultados mostram "que o aquecimento e o desmatamento no leste da Amazônia reverteram o sumidouro de carbono em escala regional, e que a mudança está realmente aparecendo no CO2 atmosférico", escreveu ele.

Gatti disse ao The Guardian que "a primeira notícia muito ruim é que a queima de florestas produz cerca de três vezes mais CO2 do que a floresta absorve. A segunda má notícia é que os locais onde o desmatamento é 30% ou mais apresentam emissões de carbono 10 vezes maiores do que onde o desmatamento é inferior a 20%."

De acordo com o jornal - que destacou o papel das emissões de queimadas iniciadas deliberadamente para a produção de carne e soja, bem como as críticas globais que o presidente Jair Bolsonaro tem enfrentado por incentivar o desmatamento crescente:

Menos árvores significaram menos chuva e temperaturas mais altas, tornando a estação seca ainda pior para a floresta remanescente, disse ela: "Temos um ciclo muito negativo que torna a floresta mais suscetível a incêndios descontrolados."

A maior parte da madeira, carne bovina e soja da Amazônia é exportada do Brasil. “Precisamos de um acordo global para salvar a Amazônia”, disse Gatti. Nações europeias disseram que vão bloquear um acordo comercial da UE com o Brasil e outros países, a menos que Bolsonaro concorde em fazer mais para combater a destruição da Amazônia.

O estudo surge após uma análise publicada em março na revista Frontiers in Forests and Global Change, que levou em conta não apenas o CO2, mas também metano, óxido nitroso, carbono negro, compostos orgânicos voláteis biogênicos, aerossóis, evapotranspiração e albedo.

As novas descobertas também seguem um estudo publicado em abril na Nature Climate Change, focalizando o Brasil, o qual abriga a maior parte da floresta tropical incrivelmente biodiversa e ameaçada que abrange nove países.

Comparando essa pesquisa com a de quarta-feira, Denning disse que "são estudos complementares com métodos radicalmente diferentes que chegam a conclusões muito semelhantes."

Os pesquisadores do estudo de abril, que contaram com monitoramento por satélite, verificaram que entre 2010 e 2019 a Amazônia brasileira liberou 16,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, ao mesmo tempo em que absorveu apenas 13,9 bilhões de toneladas - o que significa que em uma década, liberou quase 20% mais CO2 do que absorveu.

"Nós meio que esperávamos, mas é a primeira vez que temos números mostrando que a Amazônia brasileira reverteu, e agora é um emissor líquido", disse na ocasião o coautor Jean-Pierre Wigneron, cientista do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França (INRA). "Não sabemos em que ponto a mudança pode se tornar irreversível."

A Agência France-Presse informou que o INRA, em nota sobre o estudo, afirmou que "o Brasil viu uma queda acentuada na aplicação de políticas de proteção ambiental após a troca de governo em 2019", referindo-se a quando Bolsonaro foi empossado como presidente.

"Imagine se pudéssemos proibir incêndios na Amazônia - poderia ser um sumidouro de carbono", disse Gatti na quarta-feira, sublinhando o impacto negativo da conversão de grandes faixas do remanescente da floresta tropical para a agricultura. "Mas estamos fazendo o oposto - estamos acelerando a mudança climática."

Foto: Oregon State University / Flickr

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Available in
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Author
Jessica Corbett
Translators
Ligia Prado and Rodolfo Vaz
Date
12.08.2021

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