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Limbo do sul: apesar do cessar-fogo, desabrigados libaneses ainda esperam por soluções políticas

Apesar de um cessar-fogo, famílias libanesas desabrigadas retornam para casa encontrando somente lares destruídos e um persistente senso de limbo, como os contínuos ataques, ocupação e política incerta israelense aprisionaram-nos entre a desesperada necessidade pela normalidade e a ameaça muito real de uma nova guerra.
No Líbano, a pausa na batalha não tem entregado segurança, mas um estado de limbo de partir o coração. Enquanto famílias, tal qual a Zeinab Nassereddine retornam brevemente para encontrar suas casas destruídas e ausência de serviços básicos, outros vilarejos na fronteira continuam totalmente isolados ou sob ocupação israelense. Como Israel continua os ataques e demolições, e o Hezbollah ameaça com novas retaliações, as tensões políticas crescem dentro do Líbano e aprofundam o desespero dos cidadãos presos em um ciclo de destruição sem um caminho viável para a estabilidade e sobrevivência econômica.

Em uma noite, o cessar-fogo foi anunciado. Amal e o Hezbollah instigaram mais de um milhão de pessoas desabrigadas pela guerra a demorarem para retornar às suas casas até as coisas estarem seguras. Mas dispostas a esperar por cada alvorada, famílias começam a seguir o fluxo de retorno para o sul do Líbano na calada da noite.

Os ataques israelenses têm destruído todas as pontes ligando o nordeste ao sudeste libanês. Os soldados libaneses estabeleceram uma passagem temporária através da ponte danificada de Qasmiya, permitindo que  carros passem um a um, enquanto outros escolhem atravessar a pé. Alguns evitam a longa espera para dirigir seus carros em direção ao Rio Litani.

Entre os que voltaram estava Zeinab Nassereddine, que voltou com a família para a aldeia de Yater

“Nós sabemos do risco. Nós sabemos que Israel pode continuar bombardeando, mas nós não podemos esperar,” conta Mada Masr. “Nós apenas precisamos ver o vilarejo, mesmo por um momento.”

Mas o alívio de estar em casa foi manchado por alguns ataques contínuos de Israel sem aviso, e tem expandido o norte do Rio Litani, e como as vozes do Hezbollah têm a intenção de devolver o ataque, há um medo constante de que a luta de maior escala poderá estourar a qualquer hora e a qualquer momento. A situação tem deixado famílias incapazes de prever se elas terão tempo ou opções para conseguir estar em segurança se a situação piorar. Ao mesmo tempo, as forças israelenses têm continuado sua destruição, demolindo casas e infraestruturas nos vilarejos nos últimos dias, incluindo Beit Lif, Shamaa, Bayyada e Naquora, assim como Mays al-Jabal e Bint Jbeil.

O risco associado ao retorno pesa em seus pensamentos enquanto discutem as condições que lhes foram impostas e as opções limitadas de que dispõem para evitar expor a si mesmos e suas famílias a mais perigo.

A hesitação reflete uma realidade mais ampla em todo o sul e em Beirute, onde as pessoas ainda estão dormindo nas ruas e em abrigos, incapazes de retornarem para as áreas que continuam ocupadas por forças israelenses.

E essa falta de clareza tem gerado discussões nos cenários políticos e nas capitais internacionais sobre o futuro do Líbano.

Enquanto o cessar-fogo foi estendido por três semanas nas conversas entre os americanos, israelenses e libaneses em Washington DC na última semana, os caminhos políticos na mesa para o Líbano, diplomatas, analistas e políticos dizem, contribuirão pouco para clarear a situação para um país e um povo agora no limbo.

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Quando Zeinab Nassereddine partiu para Yater, no distrito de Bint Jbeil, no dia após o cessar-fogo, a destruição foi imediatamente visível. Sua casa ainda estava de pé, mas as janelas foram destruídas, muros foram danificados e fragmentos de mísseis estavam espalhados dentro do lugar.

“Pelo menos nós ainda temos uma casa,” diz ela. “Muitos não têm.”

A família começou a limpar e brevemente considerou ficar. O sinal de sua casa, o vilarejo e seus vizinhos, cada um com dano e destruição ainda marcando as ruas, trouxe um rápido senso de alívio. Após um mês e meio morando na casa de outras pessoas, estar de volta, mesmo nesse estado de fragilidade, parecia um possível retorno e o fim da dor da separação.

Mas os serviços básicos não estão disponíveis. Não há eletricidade, painéis solares estão danificados, e com as rodovias comprometidas e a ameaça iminente de violência continuada, há uma pequena expectativa de reparos rápidos.

Diferente do cessar-fogo de 2024,o Hezbollah ainda não mencionou os reparos nem entrou em contato com os moradores para inspecionar, avaliar e indenizar os danos, a família de Nasereddine não espera que isso aconteça tão cedo, já que se trata de uma trégua tão curta que pode nem durar.

“Nós não podemos consertar qualquer coisa se não sabemos se será destruído novamente.” Nasreddine disse a Mada Masr.

De volta na capital, que tem estado relativamente calma após o devastador ataque de Quarta-feira Negra, Rola Mostafa retornou para sua casa em Haret Hreik, apesar das cenas abrangentes de destruição através da área. Em casa, o vidro das janelas foi estilhaçado e alguns quartos precisam de reparos, mas ela disse que o retorno valeu o trabalho.

“Sua casa sempre vale a pena,” disse Mada Masr. “Não há sentimento que compare a estar em sua própria casa, mesmo se você for realocado para um palácio.”

Mesmo assim, ela continua preparada para deixar novamente se necessário. Ela explica que sua família está ciente de que ainda não pode se estabelecer em Haret Hreik ainda, e tem mantido seus pertences embalados em um apartamento que eles alugaram em Aley.

A sensação de perigo é um sentimento iminente para muitos. Mesmo nas horas que antecedem o cessar-fogo, o líder do Comitê Executivo do Movimento Amal, Mustafa al-Fouani, chamou as famílias para um exercício de cuidado e paciência antes de retornarem às casas, enquanto o Hezbollah alerta que Israel tem um histórico de violar acordos, pedindo aos civis que esperem até a situação se tornar mais clara.

E na curta duração do cessar-fogo tão longe, Israel tem continuado a destruir vilarejos por todo o sul libanês e tem anunciado a operação continuada no sul, renovando as ordens de deslocamento para os residentes em uma abrangente área do sul do Rio Litani e espalhando-se até o norte em Yohmor; o ponto alto da frente do sul onde a vista se estende por todo o caminho da costa leste e oeste além do vale de Bekaa - efetivamente ocupando uma faixa que se estende por mais de oito quilômetros dentro do Líbano em pontos e incluem 55 vilarejos.

Algumas dessas áreas continuam parcialmente inabitadas desde a deflagração da guerra, particularmente vilarejos com populações mistas e não xiitas. Moradores ainda estão vivendo no vilarejo Cristão de Debel, próximo a Bint Jbeil no setor central da frente sulista, apesar de estarem totalmente isolados do mundo externo por semanas desde que Israel lançou a operação cerco em Bint Jbeil. O movimento de entrada e saída do vilarejo é severamente restrito e as forças israelenses têm destruído 20 das casas do vilarejo.

Antes do cessar-fogo, o contínuo bombardeio israelense significou que a ajuda não poderia chegar a Debel e aos vilarejos cristãos mais próximos, como Ebel e Rmeish. Mesmo o embaixador do Vaticano no Líbano foi incapaz de obter acesso para entrar.

Mas “as pessoas finalmente sentiram algum senso de alívio durante esse cessar-fogo”, George Younes, porta-voz municipal de Debel, disse a Mada Masr.

Em 20 de abril, um comboio de ajuda acompanhado pelo embaixador papal finalmente alcançou o vilarejo onde os moradores se reuniram para dar-lhes boas-vindas. “A ajuda incluía vegetais, água e medicamentos”, disse Younes, acrescentando que compreendia as ofertas de muitas iniciativas, que esperavam por um caminho seguro para entregar os suprimentos. Younes disse que, em Debel, alguns moradores têm conseguido retornar para as casas de onde estavam previamente ocupadas por forças israelenses, onde eles encontraram sobras de comida.

Mas o acesso ao resto do mundo ainda é limitado para os moradores. “Eles ainda precisam de permissão apenas para sair ou entrar”, disse ele. “E ande se você sair, não há garantia de que você possa retornar.”

 Em Rmeish, Najib Amil, um sacerdote local, emitiu uma declaração dizendo que o vilarejo recebeu ajuda da organização americana Samaritan’s Purse, um grupo que tem entregue ajuda em Israel desde 2023 e começou enviando ajuda ao Líbano desde o estouro da guerra nesse ano.

Os suprimentos foram entregues por helicóptero para o local entre Rmeish e Yaroun, e a figura local foi informada por telefone por Israel que eles estavam autorizados para pegá-los, de acordo com a declaração do sacerdote.

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Para alguns dos habitantes dos vilarejos cristãos, que decidiram arriscar e permanecer no sul, há um apoio cauteloso aos esforços diplomáticos em andamento liderados pelos Estados Unidos. “Apoiamos o presidente [Joseph Aoun] em seus esforços diplomáticos para levar adiante as negociações e queremos que esta guerra termine”, diz Younes. “As pessoas estão exaustas com essas manifestações de guerra. É melhor para todos simplesmente viver em paz.”

Isso não impediu Trump de tentar prosseguir.

Em uma declaração feita no Salão Oval após a reunião de quinta-feira na Casa Branca, que reuniu os embaixadores do Líbano e de Israel, além de membros de seu próprio gabinete, Trump disse aos repórteres: “Acreditamos que o presidente do Líbano e o primeiro-ministro de Israel virão” a Washington, D.C., em meados de maio. 

Para um diplomata regional que mantém a conversa com os americanos, israelenses e libaneses, sincronizar a reunião entre Auon e Netanyahu com o vencimento do cessar-fogo significa que “isso não será um cessar-fogo aberto e encerrado.”

Nenhum lado quer que pareça que há uma renovação automática porque dará uma imagem de um impasse de algum tipo,” disse o diplomata.

No entanto, a questão de hoje é como sair de um impasse, seja ele real ou imaginário, e fazer com que cada parte saia com algo em mãos.

O problema começa com uma falta de clareza do que está em jogo.

“O assunto não é para Aoun ir ou não para DC,” disse um oficial aposentado arabe. “Quando Aoun falou para Naibh Berri e Berri falou com o Hezbollah, Naem Qassem e o resto dos iranianos, ele falou para eles que essa é oferta que eu teria. E quando eu disse aos americanos [no fim da última semana], eles disseram que eles não fizeram aos libaneses uma oferta em nome dos israelenses que poderiam ser entregues para Berri, ou ao Hezbollah para essa questão.”

Para Michael Young, editor sênior no Malcolm H. Kerr Carnegie Middle East Center, não é apenas uma questão de os americanos apresentarem uma proposta, mas também coerência dentro das políticas internas libanesas.

“Nesse ponto, o Líbano não concorda com o que nós estamos negociando. Nós realmente não temos termos de referência para essas negociações. O primeiro passo é chegar a algum tipo de acordo nos termos de referência. Até nós termos feito isso, nós estamos indo para sermos surpreendidos por empurrões dos israelenses e dos americanos a impor a paz total no Líbano. Então, nós precisamos alcançar algum tipo de acordo com o que nós queremos,” disse ele.

A potencial construção do consenso pode ser possível, ele acrescenta, se Berri “entender que as negociações são projetadas, não para alcançar a paz com Israel, mas para neutralizar, a batalha na área de fronteira” - uma fórmula mais como um acordo de armistício, como lançada pelo líder de Druze, Walid Jumblatt, na última semana.

“Berri não pode justificar para o Hezbollah um acordo de paz. Será muito difícil, senão impossível, para ele apoiar um acordo de paz. E isso não é uma posição libanesa de fato. Berri quer permanecer dentro do consenso árabe e quer poder  justificar sua posição no que diz respeito à comunidade Xiita. Ele consegue fazer isso em relação a um armistício, mas não consegue em relação a negociações de paz”, afirma Young.

Joseph Daher, o autor do Hezbollah: Political Economy of Lebanon’s Party of God, concorda que o acordo de paz, que ambos o Vice-Presidente JD Vance e Secretário de Estado Marco Rubio afirmaram ser o objetivo das negociações, não é viável nas condições atuais.

 “Não há vontade entre várias figuras políticas libanesas para acordo de paz, o qual é solicitado pelos americanos-israelenses,” falou Daher.

“Entre os vastos setores da população Sunita, eles querem o fim da guerra, mas não o acordo de paz com Israel. Jumblatt disse que, basicamente, se não há consenso nacional a respeito disso, o Líbano não deve seguir em frente com as negociações que levem ao acordo de paz. Até mesmo os vários partidos cristãos, exceto as Forças libanesas, não aceitariam qualquer forma de paz.

“Qualquer conclusão em potencial de um acordo de paz no futuro”, pronunciou Daher, provavelmente iria ser o resultado de um longo processo, ao invés de umas rodadas rápidas de negociações, apesar das pressões dos EUA e Israel para chegar rapidamente a um acordo.

 Parte daquele processo para ganhar a aprovação dos vastos setores da população libanesa, ele acrescenta, deve incluir a retirada de Israel no sul e em todos os territórios libaneses, liberação de todos os prisioneiros libaneses e um fim na violação da soberania e reconstrução libanesa.

“Porém, a posição política de Aoun nas negociações é atualmente bastante fraca e altamente dependente do cenário internacional para apoiar a sua demanda. Ele não é capaz de assegurar quaisquer garantias de que Israel interrompa as guerras contínuas que vem travando, apesar dos cessar-fogos”, conclui o autor. 

 Os acordos diplomáticos regionais, dizendo que a retirada de Israel e, crucialmente, um plano para a reconstrução são o ponto central de qualquer plano sério. “A reconstrução do sul é sobre todas as coisas,” ele explica. Para reconstruir e permitir que as pessoas retornem para suas casas, “você precisa obter o comprometimento do Hezbollah para não agredir Israel, e  obter de Israel o comprometimento de não agredir o Hezbollah. E o segundo objetivo é bastante difícil, porque Netanyahu quer uma guerra. Ele não pode estar sem uma guerra até ele ser reeleito,” disse ele.

Contudo, para Israel, o caminho mais claro para a quebra do impasse é o retorno à guerra.

Durante a reunião da última semana em DC, um oficial libanês disse a Mada Masr que as partes discutiram “a consolidação do cessar-fogo e a interrupção da destruição e perseguição de civis.” Porém, dentro de 48 horas, Netanyahu desprezou qualquer pretensão de consolidação e ordenou a renovação de ataques no sul do Líbano.

Trump havia pressionado o primeiro-ministro israelense para que suspendesse a guerra contra o Líbano, a fim de garantir avanços nas negociações com o Irã, que insistiu para que o cessar-fogo se aplicasse também ao Líbano. O Irã, do mesmo modo, enfatizou no dia 18 de abril que Israel pode se retirar do território libanês. No entanto, Israel não foi obrigado a deixar de ocupar território libanês nem mesmo a interromper totalmente os ataques contra o Líbano 

Independentemente da diminuição das hostilidades que o cessar-fogo assegurou, a lentidão na conversa com o Irã na última semana levou Trump a buscar uma vitória política no Líbano e a aumentar a pressão sobre a parte libanesa para que se chegasse a um acordo, segundo um diplomata árabe aposentado familiarizado com os desdobramentos nas capitais ocidentais e regionais.

Essa pressão tem coincidido com os ataques aumentados no sul, em uma tentativa de pressionar o governo libanês em ação. No entanto, isso apenas afastou ainda mais o Hezbollah.

O secretário-geral do Hezbollah, Naeem Qassem, surgiu na segunda-feira com sua denúncia mais forte, ainda do processo diplomático sendo liderado pelo presidente e primeiro-ministro.

“Essa autoridade não pode continuar enquanto há comprometimento dos direitos libaneses, abrir mão de terras e confrontar as pessoas resistentes”, Qassem disse  em um canal de televisão, descrevendo “a resistência e as pessoas” como mais da metade da população do país. “Nós categoricamente rejeitamos as negociações diretas, e aqueles que estão no poder deveriam saber que suas ações não beneficiarão nem o Líbano nem a si mesmos”, advertiu o secretário-geral. 

Sinalizando a abertura inválida entre o Hezbollah e o processo diplomático, Qassem concluiu: “Que fique bem claro: essas negociações diretas e seus resultados são, para nós, como se não existissem, e não nos dizem respeito nem um pouco.”

Fora das crescentes tensões políticas emergindo da trilha da liderança política dos EUA e da trilha militar israelense, simultaneamente ao desenrolar no campo, há um caminho escalatório, que está sendo liderado pelos franceses, egípcios e quataris centrados na tentativa de integrar o Hezbollah dentro das forças armadas libanesas, de acordo com um diplomata em Paris, um diplomata árabe aposentado e o diplomata regional.

“Se você quiser desarmar o Hezbollah, você tem uma alternativa para eles,” disse o diplomata regional.

Mas há etapas claras que precisariam ser cumpridas antes que um monopólio de armas possa ser estabelecido pelo Estado libanês.

“É muito complicado porque a integração dos elementos do Hezbollah dentro do exército é um problema muito sensível do ponto de vista do exército, porque você não quer criar um pelotão Xiita no exército nacional,” disse o diplomata regional.

O diplomata árabe aposentado disse que os cataris têm elaborado um passo a passo  de aproximação em direção ao desarmamento e integração do Hezbollah, que deve ser paralelo ao passo a passo de aproximação à retirada de Israel, a demarcação entre o Líbano e Israel, e a demarcação entre o Líbano e a Síria. “Mas Israel declinou dessa oferta categoricamente,” disse ele.

E apesar de toda a atenção nas políticas internas libanesas e dos EUA e de Israel, não há como negar que o Irã e suas negociações com os Estados Unidos ainda exercem uma influência significativa na determinação do que acontecerá com o Líbano.

Um embaixador egípcio aposentado no Líbano disse que, “o Hezbollah conseguiu um impulso político” com a última guerra, dado o apoio fornecido pelo Irã a rearmar após 2024.

O diplomata regional destaca que a questão das posições do Hezbollah e do Irã de permanecerem unidos, é um componente crucial do cenário atual.

“O Hezbollah demonstrou um grande controle diante de todas as provocações israelenses desde o início do cessar-fogo de 2024 até o Irã ser atacado em 28 de fevereiro”, afirma o diplomata.

Desde o acordo do último ano, a UNIFIL tem registrado mais de 7.300 violações aéreas da IDF e mais de 2.400 atividades da IDF no norte da linha azul. Os peacekeepers também têm registrado mais de 1.000 trajetórias cruzando a linha azul em violação da Resolução 1701, com a vasta maioria originando do lado israelense.

“Então, mesmo para qualquer um que pense que é possível separar o Irã do Hezbollah é fora da realidade”, continua o diplomata.

E, de acordo com várias fontes, resume-se às negociações no Irã, isso não está em discussão. Pelo contrário, o que está sendo debatido é a natureza do envolvimento dos aliados do Irã no contexto nacional em que atuam e a natureza das hostilidades entre eles e Israel, afirmam as fontes a par das negociações.

É por isso que, na última semana, a Arábia Saudita tem tentado pressionar os partidos libaneses a se engajarem com a iniciativa liderada pelos EUA, disseram múltiplas fontes.

“Os sauditas querem ter suas mãos no Líbano como parte de sua tentativa para equilibrar a influência do Irã no Líbano. Isso é parte da nova estratégia saudita em tentar ser presente em muitos locais como possível, onde o Irã é presente em ter certeza que eles podem manter o equilíbrio de poder,” afirmou o diplomata árabe aposentado.

Mas forçar uma coalizão entre tomada de posições não resolvidas em DC e no Líbano poderá precipitar um confrotamento entre as partes no Líbano que, estão atualmente distantes para reconciliar-se uns com os outros.

À luz das posturas nitidamente opostas em relação à conversa em DC, “nós sentimos que o Líbano não está distante do cenário de tensão civil,” disse o embaixador aposentado.

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Além da dimensão regional e o teatro estadual promovido pela Casa Branca, o ex-embaixador egípcio destaca que são as vidas das pessoas que dependem do Hezbollah como elemento dissuasor da agressão israelense que estão em jogo. “Esqueçam o Hezbollah enquanto tal”, diz ele. “São as pessoas que apoiam o Hezbollah que importam” e que não podem ser ignoradas.

E muitos daqueles têm encarado contratempos significativos que se estendem desde a guerra de 2024.

A situação durante o atual cessar-fogo já tem piorado como a agressão de Israel agita a diante. Mahmoud Qamati, chefe adjunto do conselho político do Hezbollah, disse em 18 de abril que o grupo não aceita mais as violações contínuas israelenses e chamados para uma total e imediata retirada das forças israelenses no território libanês.

E, enquanto os socorristas procuraram nesta semana o corpo de Amal Kalil, a jornalista que foi assassinada no ataque aéreo da última semana e cujo corpo ficou por horas inacessível às autoridades libanesas, incapazes de alcançá-las, o parlamentar Hussein al-Hajj Hassan reiterou a postura cada vez mais vigorosamente durante uma participação especial na Red TV. Referindo-se às buscas por Khalil, que estavam em andamento durante a rede Red TV, ele garantiu aos telespectadores que, “o Hezbollah não é de longe comprometido ao cessar-fogo e eles responderão como achar melhor.”

O Hezbollah retomou os lançamentos de foguetes em direção a Israel e seus combates tinham ganhado força nos últimos dias.

A reentrada antecipada do Hezbollah na guerra, muitos outros moradores que haviam retornado brevemente aos vilarejos do sul começaram a regressar em direção a Saida e Beirute no sábado.

Qamati afirmou que a trégua nos combates tinha como objetivo oferecer aos civis um breve momento de alívio, mas pediu que as pessoas “não se instalassem nos locais para onde se dirigem no sul e em Dahieh, e permanecessem cautelosas diante da traição israelense”.

Com a perspectiva de uma estabilidade duradoura aparentemente se afastando à medida que as negociações internas sobre uma posição libanesa unificada se arrastam sob pressão crescente, Rana Hamzeh, moradora de Sur, diz que está levando a situação um dia de cada vez. “Se a situação se agravar novamente, ou se houver algum tiroteio, vamos embora”, afirma ela. “Por enquanto, estamos tentando aproveitar o tempo em nossa casa, mesmo que seja apenas por alguns dias.”

A clínica do marido dela foi gravemente danificada no último ataque, deixando-a inoperável. Por agora, retornar ao trabalho não é a prioridade. Ela está contente por dar um tempo no deslocamento e ter um vislumbre da vida normal novamente. “Pessoas necessitam descansar após tudo que passamos,” ela reiterou. Mas, logo em seguida, ela conta que algumas lojas já estão reabrindo e tentando se reerguer na sua região: “a vida tem que continuar de alguma forma”.

Para Shadi Abdallah, um fazendeiro de Saida, o cessar-fogo ainda não oferecia qualquer segurança de seu sustento. Ele investiu na fazenda em Naqoura em 2024, na esperança de que as tensões latentes ao longo da fronteira não o impedissem de ganhar a vida com a terra. Ele sabia sobre os riscos, já que os confrontos entre Israel e Hezbollah já estavam em curso sob a estrutura de apoio do Hezbollah lançado durante a agressão de Israel em Gaza.

O que ele não previa, eram as sucessivas escalações, primeiro em Setembro de 2024 e de novo em março deste ano.

“Eu tentei ir ao primeiro dia do cessar-fogo, mas o exército libanês me parou em Qlaiheh,” disse ele. “Eu tentarei novamente. Eu tenho 15 caminhonetes para transportar produtos que poderão estragar se eu não transportá-los para fora de Naqoura para vender.”

Esperar não é uma opção para Abdallah. A temporada de colheita deveria ter começado no início da primavera. Qualquer atraso posterior, especialmente com o verão se aproximando mais cedo, poderá significar perda da temporada inteira.

“Por qual motivo eles poderiam me atingir? Eu sou apenas um fazendeiro,” disse ele. “Mas eu estou preocupado sobre as caminhonetes. Eu tenho tentado coordenar com o exército ou UNIFIL para obter permissão, mas não parecia provável.”

Essa incerteza colocou a vida de muitas pessoas em segundo plano, já que eles não sabem mais para onde seguir daqui. Retornar para suas terras e meios de subsistência não é uma opção nem um pouco fácil, e em alguns casos, é pouco viável. Para os fazendeiros e pastores em particular, cujas vidas estão intimamente alinhadas com a terra e depende inteiramente disso, há poucas alternativas.

Abdallah disse que desistir da terra em Naqoura ou vender não é uma opção, mesmo se isso significar perda financeira. A qualidade do solo, a beleza da paisagem, sua relação com a terra e todo o esforço que ele dedicou a ela representam algo muito maior do que apenas o valor financeiro.

“Eu tenho outro lote de terreno mais próximo de Saída, mas todo meu trabalho está no sul,” Abdallah disse. “Eu sei que é apenas uma questão de tempo antes do nosso retorno, mas não torna a espera mais fácil.”

Em Dahieh, Rola Mostafa está preparado para a possibilidade de que o frágil cessar-fogo não se mantenha. “Nesse período, nós estamos prontos para outra retirada, emocionalmente e fisicamente. Sim, será cansativo, mas nós sabemos que estamos fazendo por uma causa maior, que é apoiar a resistência contra Israel,” disse ela.

E para os moradores dos vilarejos da fronteira no sul, que não puderam retornar de forma alguma desde a guerra de 2024, já que Israel cerceou a liberdade de movimentar e destruir suas casas durante o acordo de cessar-fogo no momento, as novas condições apenas dão continuidade a um capítulo que já se arrasta há muito tempo.

“Ninguém entende nossa dor, exceto aqueles na fronteira,” Mariam Hamdan, de Mays al-jabal conta a Mada Masr.

Mays al-Jabal é um vilarejo fronteiriço a  aproximadamente um quilômetro da fronteira de Israel. Tem sido alvo de repetidas tentativas de destruição tanto durante a guerra atual quanto em conflitos anteriores. Durante o cessar-fogo de 2024, Israel destruiu grandes partes do centro, incluindo casas de civis e fazendas, mas não estabeleceu posições  dentro dela.

Dessa vez, as forças israelenses têm realizado incursões em terra e demolições sistemáticas, usando maquinário pesado, nivelando seções inteiras de áreas residenciais e infraestrutura - garantindo a destruição do que permaneceu intacto na última guerra. O centro agora cai dentro da zona tampão declarada de Israel, restringindo o retorno dos civis e aumentando o medo de que o retorno possa ser atrasado indefinidamente.

 Na segunda-feira, o escritório de Aoun liberou uma declaração retrucando o criticismo da decisão de ir à frente com a conversa em Washington.  “Alguns nos culpam por termos decidido ir às negociações sob o pretexto da falta de consenso nacional, e eu pergunto: ‘Quando vocês foram para a guerra, primeiro obtiveram consenso nacional?’”

O comentário leva para casa a forte realidade da natureza cíclica das políticas no Líbano, de acordo com Daher.

“Enquanto algumas vozes dentro da comunidade Xiita possam ter sido críticas da decisão do Hezbollah para entrar na guerra no começo de março, as reações e políticas do governo libanês confirmaram para eles que não há outra opção além do Hezbollah para protegê-los,” disse Daher.

“O Estado libanês não pode afirmar que busca o monopólio do direito à violência para afirmar sua soberania quando não pode [exercer esse monopólio]. Ele retirou seu exército do sul e, além disso, não oferece qualquer tipo de proteção ou alternativa socioeconômica para a população libanesa nem para a base popular xiita do Hezbollah.”

“Além disso, durante a última guerra, testemunhamos reações hostis contra as populações xiitas deslocadas para outras regiões. Muitas vezes, recusava-se alojamento aos xiitas, não apenas por medo dos bombardeios israelenses, mas também porque eram considerados responsáveis pela guerra contra o Líbano, uma vez que eram automaticamente associados ao Hezbollah. Isso também faz parte da política israelense de alimentar tensões sectárias no Líbano. De maneira mais geral, amplos setores da comunidade xiita no Líbano testemunharam reações negativas do Estado libanês e de setores da mídia libanesa em relação a eles, ao mesmo tempo em que se sentiam continuamente ameaçados por Israel e, em menor grau, pelo novo governo da Síria e também dentro do próprio país, devido à hostilidade demonstrada contra eles.”

E para Daher, hoje em dia, é o Hezbollah, principalmente pelo financiamento do Irã, que provavelmente continuará a encontrar as necessidades dos largos setores da população Xiita, por causa da ausência de quaisquer ações e política do governo libanês para enfrentar esse problema e sua dependência do fundo estrangeiro. Ao mesmo  tempo, o isolamento do Hezbollah no cenário nacional será mais provável de ficar mais enraizado, tanto para políticas próprias como devido às pressões políticas, criando mais tensões no país.

Antes da última escalada de violência, Hamdan esperava pelo menos alugar uma casa mais próxima de Mays al-Jabal e reiniciar suas vidas lá, mas agora nem mesmo essa opção está mais em jogo. Em vez disso, ela continua sua jornada de deslocamento, que já a levou a se mudar entre a região de Sur, de Nabatieh e de Chouf, onde agora está vivendo.

Hamdan não perde a esperança de retornar, mas a mágoa e tristeza continuam a construir um sentimento compartilhado por todos os moradores da região de fronteira para quem o debate em andamento sobre conversas políticas é um sentimento distante de suas realidades diárias.

“O que o governo pode fazer por nós?” disse ela. “Eles não cuidam de nós. Nós nos sentimos abandonados. Nós não esperamos qualquer coisa dessas conversas.”

“As pessoas pensam que a paz significa que suas áreas estão seguras. Mas nós não temos um único dia de paz por anos.”

Available in
EnglishSpanishPortuguese (Brazil)GermanFrenchItalian (Standard)Arabic
Authors
Lana Harb, Ehsan Salah and Najih Dawoud
Translators
Cleiton Carvalhal and Maria Elisa Garcia Leoni
Date
04.06.2026
Source
Mada MasrOriginal article🔗
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