Economy

O escândalo Pandora Papers mostra a verdadeira face do imperialismo britânico

Através de sua rede de paraísos fiscais, o Reino Unido é o centro de um sistema que beneficia os ricos e poderosos.
Os Pandora Papers, publicados no início do mês de outubro, revelaram a riqueza secreta de diversos ricos e poderosos mundo afora. Mas, talvez mais do que qualquer outra coisa, contaram a história de como a Grã-Bretanha (e os EUA) conduzem o sistema global no qual os mais ricos extraem a riqueza do resto.
Os Pandora Papers, publicados no início do mês de outubro, revelaram a riqueza secreta de diversos ricos e poderosos mundo afora. Mas, talvez mais do que qualquer outra coisa, contaram a história de como a Grã-Bretanha (e os EUA) conduzem o sistema global no qual os mais ricos extraem a riqueza do resto.

De início, por exemplo, há o papel desempenhado pelas Ilhas Virgens Britânicas, um território ultramarino do Reino Unido que funciona como um paraíso fiscal. O multimilionário primeiro-ministro da República Tcheca usou o território para esconder sua propriedade de um castelo na França. Outros, incluindo a família do presidente queniano Uhuru Kenyatta e o relações públicas de Vladimir Putin, fizeram uso semelhante das ilhas para ocultar suas riquezas - enquanto Tony e Cherie Blair teriam economizado £312.000 em impostos quando compraram uma propriedade em Londres de uma empresa registrada nas Ilhas Virgens Britânicas em 2017.

E há a própria cidade de Londres. Os documentos vazados mostram como o rei da Jordânia jorrou o próprio dinheiro no mercado imobiliário da capital, assim como os principais aliados de Imran Khan, o presidente do Paquistão.

Mais detalhes surgirão nos próximos dias. Mas uma coisa já está clara. Esta não é uma história sobre países na periferia da economia mundial. É uma história sobre como o Estado britânico dirige um sistema global no qual os mais ricos extraem riqueza do resto.

Britânico do início ao fim

As Ilhas Virgens Britânicas foram capturadas dos holandeses pela Inglaterra em 1672. Até então, a população indígena já havia desaparecido - abatida em um genocídio não registrado ou fugida por medo de um. Desde então, as ilhas têm sido um refúgio para piratas de vários tipos.

Mas esta é apenas uma parte da rede além-mar da Grã-Bretanha. Existem cerca de 18 legislaturas em todo o mundo pelas quais Westminster é o principal responsável. Estas incluem alguns dos piores infratores no mundo em lavagem de dinheiro, evasão fiscal e sigilo financeiro. As Ilhas Cayman são britânicas. Assim como Gibraltar. Assim como Anguilla e Bermuda.

Estes lugares não são britânicos apenas em um sentido abstrato. De acordo com a Lei dos Territórios Ultramarinos Britânicos de 2002, seus cidadãos são cidadãos britânicos. Eles operam sob a proteção do serviço diplomático britânico. E, quando necessário, podem contar com as Forças Armadas de Sua Majestade: nos últimos 40 anos, a Grã-Bretanha foi duas vezes à guerra para defender os Territórios Ultramarinos. Uma vez, foi quando a Argentina tentou reivindicar as Ilhas Malvinas. A segunda vez foi a invasão do Iraque, quando o governo britânico alegou que o programa de armas de Saddam Hussein ameaçava suas bases militares em Akrotiri e Dhekelia, na ilha de Chipre.

Essa complexidade não é um mero acidente

No total, especialistas estimam que a Grã-Bretanha e seus territórios ultramarinos sejam responsáveis por facilitar cerca de um terço da evasão fiscal no mundo. E isso antes de considerarmos o dinheiro roubado por governantes corruptos, ou produtos do crime. E sem contar a forma como a riqueza oculta dos bilionários lhes permite influenciar secretamente os nossos sistemas políticos.

Esta complexidade não é um acidente nem uma coincidência. O Reino Unido, ao contrário de quase todos os outros países do mundo, não possui uma constituição escrita. As regras sobre como as leis são feitas são estabelecidas mediante "convenções", uma confusão sem fim que, em resumo, equivale a trocar o pneu do carro com o carro andando.

Isso também fica claro na forma como os territórios domésticos do Estado britânico são governados: Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, a Grande Londres e a cidade de Londres têm seus próprios arranjos, cada um absurdo à sua maneira. Cada uma destas confusões cria um emaranhado diferente no qual os vigaristas do mundo podem esconder seu dinheiro.

Visto da perspectiva do capital internacional, porém, são os Territórios Ultramarinos, bem como as Dependências da Coroa de Jersey, Guernsey e Mann, que formam a parte mais significativa deste complexo. Eles usam a maleabilidade da constituição britânica para formar uma rede de cofres onde os ricos podem esconder seu dinheiro.

Uma nova era

Embora ninguém saiba ao certo quanto dinheiro está oculto em paraísos fiscais mundo afora, dos quais os territórios britânicos constituem uma parcela significativa, os números envolvidos são tão vastos que os acadêmicos do Transnational Institute na Holanda os descreveram como "a espinha dorsal do capitalismo global".

Sob esta perspectiva, a flexibilidade constitucional do Estado britânico não é apenas uma ressaca pós-medieval: é uma ferramenta hiper-moderna em uma era de capitalismo de vigilância global, onde os ricos podem se movimentar pelas bordas, enquanto os demais ficam para sempre presos pelas fronteiras.

Através de seu império, o Estado britânico desempenhou um papel fundamental na invenção do capitalismo moderno. Agora, o Reino Unido está ajudando a reinventar o capitalismo mais uma vez, estendendo a proteção de uma constituição projetada pelos poderosos, para os poderosos, aos bilionários, oligarcas e criminosos do mundo.

Adam Ramsay é editor-chefe na openDemocracy (uma organização britânica de mídia global independente). É possível segui-lo no Twitter através deste perfil. Adam é membro do Partido Verde escocês, faz parte do conselho ‘Vozes pela Escócia' e dos comitês consultivos da Unidade de Mudança Econômica e do periódico acadêmico Soundings.

Foto: Tristan Surtel, Wikimedia

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Support
Available in
EnglishGermanFrenchSpanishItalian (Standard)Portuguese (Brazil)
Author
Adam Ramsay
Translators
Mariana Martins Almeida and Cristina Cavalcanti
Date
20.10.2021

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