O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou ao Centro Internacional de Convenções Kenyatta, em Nairóbi, prometendo “um novo capítulo” nas relações entre a França e a África. Sob o lema da Cúpula África em Frente (Africa Forward Summit)—“A África não está esperando. Ela está construindo”—chefes de Estado, CEOs, investidores e representantes de organizações multilaterais reuniram-se num ambiente acolhedor de igualdade, parceria e protagonismo africano. Coorganizada por Macron e seu homólogo queniano, William Ruto, nos dias 11 e 12 de maio, a cúpula foi estruturada em torno de sete temas: energia, finanças, agricultura, inteligência artificial, economia azul, saúde e industrialização.
A poucos quarteirões de distância, a polícia queniana deu outra resposta à questão da autonomia africana. Delegados e delegadas da Cúpula Pan-Africana contra o Imperialismo, organizada pelo Partido Comunista Marxista do Quênia, membro da Internacional Progressista—ativistas, sindicalistas, estudantes, intelectuais e organizadores do Quênia e de todo o mundo—tentaram marchar em direção à estátua de Dedan Kimathi, o combatente anticolonial executado pela Grã-Bretanha em 1957. A polícia bloqueou a procissão, disparou gás lacrimogêneo e prendeu manifestantes. Entre os detidos estava Gacheke Gachihi, membro do Conselho da Internacional Progressista.
A França chegou a Nairóbi ferida. Em grande parte de sua antiga esfera colonial na África, a velha ordem da Françafrique foi abalada. No Sahel, Mali, Burkina Faso e Níger expulsaram as forças francesas após tomadas de poder que romperam os laços de segurança com Paris em nome da soberania. O Senegal, sob a presidência de Bassirou Diomaye Faye, eleito em 2024, assumiu o controle da última grande instalação militar francesa no país em julho passado, alegando que as bases francesas eram incompatíveis com a soberania senegalesa.
Macron não escondeu sua amargura. Em janeiro de 2025, dirigindo-se a embaixadores franceses em Paris, ele queixou-se de que “alguém se esqueceu de agradecer” pelos destacamentos militares franceses no Sahel. Em Nairóbi, Macron adotou outro tom, apresentando a França como defensora da soberania africana e chegando a afirmar que a França e a Europa eram as “verdadeiras panafricanistas”. A França busca ampliar as relações culturais e econômicas após reveses militares e políticos; o Quênia foi designado como o pilar dessa nova estratégia.
A cúpula atribuiu um valor a essa estratégia: 23 bilhões de euros. Macron anunciou compromissos de investimentos em energia, inteligência artificial, agricultura e outros setores, com 14 bilhões de euros provenientes de empresas francesas e 9 bilhões de euros de entidades africanas. A TotalEnergies e a Orange estiveram presentes. A CMA CGM, gigante francesa do transporte marítimo, afirmou que investirá 700 milhões de euros na modernização de um terminal no porto de Mombasa.
O Quênia oferece à França uma rota para sair da humilhação do Sahel e entrar no Oceano Índico Ocidental: portos, logística, corredores comerciais, diplomacia financeira, um Estado que se colocou à disposição do planejamento estratégico ocidental e um presidente ansioso para transformar Nairóbi em uma plataforma diplomática. Ruto participará da cúpula do G7 na França, a convite de Macron, levando propostas sobre reforma do crédito e uma nova “arquitetura de risco” para as economias africanas.
Mas a linguagem amena da cúpula repousa num terreno muito mais duro. Em outubro de 2025, o Quênia e a França assinaram um Acordo de Cooperação em Defesa. O Ministério da Defesa do Quênia afirma que ele abrange o compartilhamento de informações, a segurança marítima, a manutenção da paz, treinamento e assistência humanitária. O acordo foi ratificado em abril. Quase na mesma época, 800 soldados franceses chegaram a Mombasa para treinamento conjunto com as Forças de Defesa do Quênia. O acordo é renovável, concede às forças francesas proteções de caráter diplomático e confere a Paris jurisdição primária sobre alguns crimes cometidos por seu pessoal em solo queniano e exige que as disputas sejam resolvidas por meio de canais diplomáticos.
A França não está entrando num vácuo. O Quênia já abriga a Unidade de Treinamento do Exército Britânico no Quênia (British Army Training Unit Kenya), o maior contingente militar britânico na África, com base principalmente em Nanyuki, no sopé do Monte Quênia. Os Estados Unidos, por sua vez, vêm expandindo a pista de pouso da Base Naval de Manda, na Baía de Manda, um projeto que o Ministério da Defesa do Quênia descreve como um fortalecimento do alcance operacional conjunto, da rápida projeção de força, da vigilância e da logística avançada. A França agora adiciona mais um pilar de um membro da OTAN a essa arquitetura militar ocidental.
Os comunicados oficiais de imprensa falam em paz, estabilidade, treinamento e interoperabilidade. O conteúdo político, porém, é de uma subordinação mais profunda: forças estrangeiras, equipamentos estrangeiros, privilégios legais estrangeiros, corredores estratégicos estrangeiros e empresas estrangeiras inseridas na infraestrutura do Estado queniano.
A nova estratégia de Macron para a África atualiza e reformula a antiga relação imperial: bases militares se tornam cooperação em defesa; ajuda se torna coinvestimento; extração se torna transição verde; controle de território se torna logística. A antiga dinâmica da Françafrique é repaginada para a África anglofônica, com a “agência” africana invocada para legitimar os termos.
A ironia era difícil de ignorar. Ruto usou a palavra “soberania” oito vezes em seu discurso na cúpula. Macron respondeu que “os dias de oferta assistencialista ficaram para trás” e prometeu coinvestimento. Nesse ínterim, a polícia prendia delegadas e delegados da contracúpula que insistiram que a soberania exige o fim dos acordos militares, políticos e econômicos estrangeiros impostos ao Quênia e à África.
O confronto em Nairóbi foi entre dois futuros. Num deles, os estados africanos são convidados à mesa de negociações de uma potência imperial em declínio e instruídos a chamar o acordo de igualdade. As elites locais, ligadas aos interesses comerciais, negociam o acesso, recebem o prestígio diplomático e mobilizam a polícia quando suas populações se recusam a aceitar o acordo. No outro futuro, a memória de Kimathi, a indignação do Sahel e a organização da esquerda pan-africana convergem para uma reivindicação simples: a África não é uma plataforma para o poder estrangeiro.
A França veio a Nairóbi para provar que ainda tem futuro no continente. A contracúpula mostrou quem está contestando esse futuro. Em toda a África, a luta contra o imperialismo está fazendo suas reivindicações e construindo um programa: fechar as bases estrangeiras, romper com a arquitetura da dívida, recuperar o controle de portos e recursos, defender as liberdades democráticas e construir o poder para tornar a soberania real. A Internacional Progressista apoia esse projeto—e apoia os organizadores, incluindo nosso membro do Conselho, Gacheke Gachihi, que vêm enfrentando repressão por levá-lo adiante.
Em Solidariedade,
O Secretariado da Internacional Progressista
A Conferência que deu nome ao problema: Santa Marta e o começo do fim dos combustíveis fósseis A conferência de Santa Marta marca o primeiro grande esforço multilateral, fora do processo da COP da ONU, para construir um roteiro liderado pelo Sul Global por uma transição justa longe dos combustíveis fósseis em meio à crescente crise climática e à persistente obstrução por parte dos interesses dos combustíveis fósseis.
O Hondurasgate expõe o trabalho da Internacional Reacionária
Entre 30 de abril e 6 de maio, um conjunto chocante de 37 gravações de áudio—extraídas de aplicativos de mensagens criptografadas—foi divulgado ao público. Conhecidas agora como Hondurasgate, as gravações revelam conversas entre algumas das figuras políticas mais poderosas do Hemisfério Ocidental: o presidente hondurenho Nasry Asfura, o ex-presidente e narcotraficante condenado Juan Orlando Hernández, o presidente argentino Javier Milei e agentes ligados aos governos dos EUA e de Israel.
As gravações alegam uma conspiração transnacional de proporções assombrosas. O narcoditador condenado de Honduras foi libertado pouco antes das eleições de 2025 porque, segundo os áudios, as redes de Benjamin Netanyahu pagaram a Donald Trump para que este lhe concedesse um indulto presidencial. US$ 150.000 (aproximadamente 750 mil reais) em fundos públicos de infraestrutura de Honduras foram desviados para criar uma operação de desinformação, planejada e conduzida por aliados do Partido Republicano dos EUA, com o objetivo de atingir os governos do México, da Colômbia e da administração de esquerda que está de saída do governo de Honduras. Enquanto isso, planos são elaborados para recolonizar Honduras, construindo uma nova base militar na ilha de Roatán, ressuscitando o projeto predileto de Peter Thiel, os "ZEDEs", e estabelecendo um "Centro de Confinamento do Terrorismo" em Tegucigalpa, nos moldes do CECOT de El Salvador.
Esta é a história de como Israel e os Estados Unidos conspiraram para assumir o controle de Honduras— com consequências desastrosas para os direitos humanos de seu povo. Mas Honduras é apenas o ponto mais visível onde os fios da Internacional Reacionária se entrelaçam. Puxe qualquer um deles e você se verá emaranhado em uma teia que se estende por Washington, Buenos Aires e Tel Aviv.
Leia a nossa investigação e nos ajude a desemaranhar essa rede.
12 de maio - A Greve Geral Britânica: O Congresso das Confederações Sindicais (Trades Union Congress) encerrou a greve geral britânica em 12 de maio de 1926.
Saiba mais sobre essa história aqui.
13 de maio - Maio de 1968: O presidente francês De Gaulle fugiu de Paris em 13 de maio de 1968.
Saiba mais sobre essa história aqui.
13 de maio - Bombardeio do MOVE: A cidade da Filadélfia, EUA, bombardeou seus próprios cidadãos em 13 de maio de 1985.
Saiba mais sobre essa história aqui.
15 de maio - Nakba: Em 1948, milícias sionistas promoveram a limpeza étnica de dois terços da população palestina.
Saiba mais sobre essa história aqui.
18 de maio - Levante de Gwangju: O Levante de Gwangju eclodiu em 18 de maio de 198 contra a ditadura sul-coreana apoiada pelos EUA.
Saiba mais sobre essa história aqui.
Francis Bebey (1929, Douala) foi um musicólogo, escritor e compositor camaronês-francês. Ele é considerado o primeiro músico africano a usar teclados elétricos e baterias eletrônicas programáveis, juntamente com instrumentos tradicionais africanos, incluindo o ndehu (flauta de bambu pigmeia) e a sanza (piano de polegar).
Em 1957, foi convidado pelo teórico político e revolucionário Kwame Nkrumah para ser locutor em Gana e, de 1961 a 1974, trabalhou para a UNESCO, tornando-se chefe do departamento de música em Paris. Sua música inclui letras que desafiam as perspectivas ocidentais sobre os africanos, por exemplo, em "New Track": "Você já percebeu que todos estão reclamando do sistema?", continuando: "Precisamos de uma mudança, uma nova ordem, cultural, política, econômica..."
