Donald Trump não apenas declarou guerra ao Irã. Ele também negociou durante ela. Nos primeiros três meses de 2026, uma conta em nome do presidente americano realizou 3.642 negociações no valor de centenas de milhões de dólares. Agências reguladoras dos EUA estão examinando as negociações de contratos futuros de petróleo realizadas pouco antes de grandes mudanças na política de Trump em relação ao Irã. Em março, aproximadamente US$ 580 milhões em contratos futuros de petróleo mudaram de mãos em um único minuto antes de Trump publicar sobre negociações com o Irã—quase nove vezes o volume médio para esse período nos cinco dias de negociação anteriores. Na Polymarket, nove contas vinculadas lucraram US$ 2,4 milhões ao apostar nos desdobramentos da guerra com o Irã, com uma taxa de acerto de 98%.
A guerra tornou-se uma informação negociável: uma publicação, um vazamento, uma ameaça, uma negação—cada bit capaz de movimentar preços antes mesmo de mover navios de guerra. Os negociadores (traders) estão lucrando com o acesso privilegiado à corte imperial. Mas o escândalo mais profundo é que a economia mundial está sendo forçada a se organizar em torno dos caprichos de uma potência que pode iniciar guerras, manipular expectativas, movimentar mercados—e depois falhar no controle das consequências. Esta é a corrupção superficial de uma desordem mais profunda: uma guerra imperialista desencadeando uma luta global sobre quem controla a escassez, quem lucra com ela e quem paga o preço.
A guerra entre os EUA e Israel contra o Irã praticamente paralisou o tráfego pelo Estreito de Ormuz. Em condições normais, o estreito transporta cerca de um quarto do comércio marítimo mundial de petróleo, além de volumes significativos de GNL e de fertilizantes. A interrupção está se espalhando pela economia mundial em sequência: primeiro no petróleo, no frete e no setor de seguros; depois em fertilizantes, nos preços dos alimentos, nas moedas e na dívida pública. O choque é mais agudo nos países menos responsáveis pela guerra e menos capazes de absorvê-lo.
Os 32 estados-membros da AIE (Agência Internacional de Energia) concordaram em disponibilizar 400 milhões de barris de reservas de petróleo de emergência—a maior liberação coordenada de estoques na história da agência. A medida pode acalmar os mercados, mas não pode reabrir um ponto de estrangulamento fechado pela guerra. Mesmo segundo a própria AIE, as opções para contornar o Estreito de Ormuz são limitadas.
O perigo, entretanto, não se limita à próxima abastecida. Cerca de um terço do comércio global de fertilizantes transportados por via marítima passa pelo estreito. Isso transforma o choque no transporte marítimo de hoje na crise da colheita de amanhã.
A guerra já está se tornando um multiplicador da fome. O Programa Mundial de Alimentos alerta que quase 45 milhões de pessoas a mais podem entrar em insegurança alimentar aguda se o conflito continuar e o petróleo permanecer acima de US$ 100 por barril.
As primeiras respostas internas foram desiguais, mas familiares. A Índia aumentou os preços dos combustíveis e adotou medidas para atrair capital estrangeiro e sustentar a rupia. Em todo o Sul e Sudeste Asiático, os governos recorreram a cotas de combustível, a ordens de trabalho remoto e à redução de viagens de trabalho. Em outros lugares, os Estados reduziram os impostos sobre combustíveis. Por trás dessas ações, está a mesma pergunta: quem absorverá o choque?
A resposta padrão já é conhecida: preços mais altos para as famílias, sacrifícios para trabalhadoras e trabalhadores, racionamento para consumidores e consumidoras, taxas de juros mais altas para a defesa das próprias moedas nacionais e proteção para empresas petrolíferas, transportadoras, seguradoras e credores. Uma resposta que atendesse aos interesses da maioria seria pressionar aqueles no andar de cima: controle de preços, impostos sobre lucros extraordinários, controle de capitais, garantia pública de bens essenciais, proteção salarial e subsídios direcionados àqueles que não conseguem absorver o choque.
Paralelamente às respostas de curto prazo, os planejadores imperiais buscam maneiras de contornar o estrangulamento do Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, avançando com a ambição de Netanyahu de construir oleodutos e gasodutos "para o oeste, através da Península Arábica", até os portos israelenses no Mediterrâneo, "eliminando os pontos de estrangulamento para sempre". O Corredor Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC) é a expressão mais clara desse projeto: um corredor marítimo-terrestre-marítimo que liga a Índia ao Golfo Pérsico, passando pela Arábia Saudita, Jordânia e Israel, antes de chegar à Europa por Haifa. O Grupo Adani, da Índia, adquiriu o porto de Haifa em 2023, colocando um nó crucial da rota nas mãos de um conglomerado intimamente alinhado com a estratégia regional de Nova Déli. O IMEC foi projetado para rivalizar com a Iniciativa Cinturão e Rota da China, aprofundar a normalização das relações entre Israel e os estados árabes e transformar Israel na porta de entrada indispensável entre a Ásia e a Europa.
Mas o mapa continua sendo contestado. A Turquia foi excluída do IMEC, mesmo que Israel continue dependendo do petróleo que passa pelo porto turco de Ceyhan. O gasoduto BTC, o Corredor Sul de Gás e o gasoduto inativo Iraque-Turquia oferecem rotas alternativas para o oeste que contornam o Estreito de Ormuz sem conceder a Israel o controle total do corredor. A disputa pelo Estreito de Ormuz é também uma disputa pelas próximas artérias de energia, comércio e guerra.
A crise também vem impulsionando os Estados por outro caminho: o de se afastarem da exposição ao poder dos EUA. O ouro ultrapassou os títulos do Tesouro americano como proporção das reservas oficiais, em parte devido à alta dos preços do metal. O sistema do dólar ainda se mantém. Mas, em torno dele, alguns Estados estão criando mecanismos de proteção contra confiscos, sanções e coerção financeira. A China continuou a reduzir suas reservas em títulos do Tesouro e a expandir seus sistemas de pagamento alternativos. Para muitos bancos centrais, o ouro se tornou uma proteção contra a instabilidade da velha ordem, em vez de uma prova de que uma nova ordem já tenha chegado.
A contrapressão iraniana através do Estreito de Ormuz não significa o fim do dólar, nem o fim do poder americano. Potências hegemônicas em declínio não desaparecem tão rapidamente. Elas reagem com violência, instrumentalizam suas vantagens remanescentes e tentam impedir o surgimento de qualquer ordem sucessora. Gaza, Líbano e Irã são a face militar desse declínio. Os choques nos preços do petróleo, dos alimentos e das reservas representam sua face econômica. Nos próximos meses, a mesma escolha difícil se apresentará a todos os governos: organizar a escassez contra a maioria ou construir a soberania contra o império que a produziu.
Colômbia vai para o segundo turno sob a sombra de Washington
A eleição presidencial da Colômbia será decidida em um segundo turno em 21 de junho, depois que o candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, liderou o primeiro turno com 43,7% dos votos contra 40,9% de Iván Cepeda, do Pacto Histórico. O resultado deixa a Colômbia diante de uma escolha difícil: entre a continuidade das reformas populares iniciadas pelo governo de Gustavo Petro, com Cepeda e a líder indígena Aída Quilcué, e um projeto de extrema-direita apoiado por forças que buscam reverter a transformação da Colômbia e restaurar o país à ordem regional de Washington. Mais de 23 milhões de pessoas votaram no primeiro turno, uma das maiores participações na história presidencial da Colômbia.
A eleição ocorreu sob intensa pressão externa. Antes da votação, o Observatório da IP alertou que uma delegação dos EUA, incluindo o senador republicano Bernie Moreno—que já havia instado as autoridades eleitorais da Colômbia a considerarem a anulação de votos de “partes do país que não são seguras”— corria o risco de se tornar um instrumento de intervenção política sob o pretexto de observação eleitoral. O Observatório emitiu posteriormente um Alerta Vermelho após relatos de que Moreno planejava se reunir com os principais candidatos de direita para facilitar uma reaproximação antes do segundo turno.
Com a Colômbia entrando na reta final decisiva, a Internacional Progressista retornará ao país para acompanhar a votação e defender o direito do povo colombiano de determinar seu próprio futuro.
O Peru vai às urnas
No domingo, 7 de junho, peruanos e peruanas vão às urnas em um segundo turno presidencial muito tênue entre Keiko Fujimori, líder da Fuerza Popular, e Roberto Sánchez do Juntos por el Perú.
A última sondagem da Ipsos coloca os candidatos num empate estatístico, com Sánchez com 43,8 por cento e Fujimori com 43,2 por cento, depois de um primeiro turno problemático em Abril, cujos resultados demoraram quase um mês a confirmar. Fujimori está agora a uma eleição de devolver o Fujimorismo à presidência: a máquina política autoritária construída pelo seu pai Alberto Fujimori, que dissolveu o Congresso num autogolpe em 1992, supervisionou massacres e esterilizações forçadas em massa, e cujos herdeiros passaram anos desestabilizando governos, enfraquecendo procuradores e atacando as instituições democráticas do Peru.
O Observatório da Internacional Progressista publicou um briefing especial sobre Fujimori e a ameaça que a sua vitória representaria à democracia, aos direitos indígenas, à independência judicial e à soberania popular no Peru e em toda a América Latina.
A Internacional Progressista estará presente para observar a votação e ajudar a garantir que cada voto seja contabilizado com integridade.
Carga genocida é impedida de atracar
O navio cargueiro Danica Violet foi forçado a mudar de rota.
O navio de bandeira dinamarquesa, que transportava material militar para a Elbit Systems, a maior produtora de armas de Israel, não atracou em Kali Limenes, Creta, como planejado em 1º de junho, após pressão constante da campanha No Harbour for Genocide (Sem Porto para o Genocídio). O navio havia partido de Chennai transportando componentes de mísseis, canos de artilharia e outros componentes de defesa destinados às instalações da Elbit em Israel, de acordo com reportagem do The Ditch. Seu desvio é mais uma vitória para o embargo popular: para trabalhadores, trabalhadoras, ativistas e movimentos sociais que rastreiam os navios que armam o genocídio de Israel e transformam cada porto em um local de recusa.
Justiça para Mokoena Letsie
A Internacional Progressista lamenta a morte de Mokoena Letsie, um talentoso organizador do Coletivo do Comitê de Ação Solidária e do Potch4Palestine, assassinado a tiros em Potchefstroom, África do Sul, em 27 de maio.
Letsie organizava comunidades de barracos, lutava por moradia, empregos e serviços públicos e se solidarizava com o povo palestino. Sindicatos e movimentos sul-africanos condenaram seu assassinato como um atentado político e exigiram uma investigação urgente e independente sobre os atiradores, seus financiadores e as redes por trás do ataque. Unimo-nos a eles na exigência de justiça para Mokoena Letsie—e no fim da violência usada para silenciar aqueles que lutam ao lado da população pobre.
Reino Unido é instado a deter criminosos de guerra das Forças de Defesa de Israel
O Declassified UK e o Centro Internacional de Justiça para os Palestinos lançaram uma campanha exigindo o fim da impunidade para cidadãos britânicos que serviram nas Forças de Defesa de Israel durante o genocídio em Gaza.
No início deste ano, o Declassified revelou que mais de 2.000 britânicos serviram a Israel desde outubro de 2023—informação obtida não do governo do Reino Unido, que não coleta tais dados, mas por meio de um pedido de acesso à informação às Forças de Defesa de Israel. A campanha pede ao governo do Reino Unido que rastreie os movimentos dos britânicos que serviram nas Forças de Defesa de Israel, os submeta a uma triagem secundária quando necessário e apoie investigações robustas de crimes de guerra em conformidade com as leis nacionais e internacionais.
31 de maio - O Mavi Marmara: As forças israelenses mataram nove membros da Flotilha da Liberdade de Gaza e feriram dezenas de outros no Mar Mediterrâneo em 31 de maio de 2010.
Saiba mais sobre essa história aqui.
5 de junho - Nasce James Connolly: James Connolly, o republicano irlandês e socialista revolucionário, nasceu em 5 de junho de 1868, em Cowgate, Edimburgo, Escócia. Ele liderou a luta militante e intelectual contra o imperialismo britânico na Irlanda, organizou o proletariado irlandês e defendeu o marxismo no exterior.
Saiba mais sobre James Connolly aqui.
Ahmad Kaabour (1955 – 2026) é mais conhecido por sua canção de protesto Ounadikom (Eu te chamo), que ele compôs após o início da Guerra Civil Libanesa em 1975, com letra do poeta palestino Tawfiq Ziad. Ounadikom tornou-se um hino duradouro da resistência contra a opressão israelense, “órfão, nu, descalço”. Kaabour cresceu em uma família musical e sua criatividade se estendeu à performance, escrita e composição para palco e tela.
A Internacional Progressista gostaria de agradecer a seu filho, Marwan Kaabour, por conceder permissão para usar a imagem de seu pai e por sua contribuição com uma edição para arrecadação de fundos, que você pode encontrar em: workshop.progressive.international
